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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM PALHAÇO NA CIDADE



Um Palhaço na Cidade

Aquele cara era "o tal". Era também o assunto do momento naquela cidade pacata. Uma cidadezinha simples, onde o povo não tinha muitas opções de entretenimento além de bares e biroscas. Não era um lugar turístico, e seus habitantes não estavam acostumados com gente que ostentasse riqueza.

Um circo havia chegado, e com ele, um sujeito muito elegante: joias, roupas e sapatos de marca. O comentário geral era que ele deveria ser o dono do circo. Como o barzinho do Seu Severino era o mais próximo, ele passou a frequentá-lo.

— Seu Severino, o senhor já comprou o uísque de marca que o moço do circo pediu? — perguntou Josenildo, ajudante do bar.

— Já comprei, sim. Mas deu um trabalho danado! Tive que ir até a cidade vizinha e, ainda assim, só encontrei o nacional.

— Ihhh, Seu Severino… O homem é chique demais, não vai gostar disso.

— Deixa comigo… Cadê aquela garrafa velha com o rótulo rasgado de uísque importado que o falecido Rufino esqueceu aqui?

— Seu Severino, o senhor é demais! Dizem que quanto mais velho, melhor o uísque… Se a garrafa é velha e o rótulo está rasgado, ele vai achar que é um uísque raríssimo.

— Pois é. Agora enche logo essa garrafa de uísque nacional antes que ele apareça.

Nesse momento, o homem entrou no bar.

— Boa tarde, doutor! Seu Severino já está pegando o seu uísque! — disse Josenildo, disfarçando.

— Ótimo, vou tomar só uma dose e depois almoçar. Qual o cardápio de hoje?

— Olha, moço, aqui não temos cardápio, não. É PF mesmo. Tem ensopado de carne com batatas ou frango com quiabo.

— O senhor não tem um peixe, tipo… salmão com alcaparras?

— Eu nem sei o que é isso, meu bom senhor… Mas posso anotar e Seu Severino providenciará.

— Está bem, me sirva qualquer coisa então. Pode ser o ensopado. Ah, por favor, avise ao dono que hoje não deu pra eu ir ao banco. Amanhã eu acerto a conta, ok?

— Não se preocupe, doutor! Seu Severino nem esquenta com isso.

O homem aproveitou-se da gentileza e tomou umas dez cervejas, além da garrafa inteira daquele "uísque" falso. Saiu cambaleando, mais bêbado que peru de Natal.

No dia seguinte, Josenildo perguntou de novo:

— Seu Severino, o senhor já comprou aquele negócio lá… o peixe com "alcatar"?

— Seu burro! É salmão com alcaparras! E vê se não promete mais nada para ninguém! Esse sujeito só pede coisa cara e difícil de achar, e até agora não pagou nada!

— Mas o senhor comprou?

— Claro que não! Comprei cação e três pés de alface.

— Foi isso que ele pediu?

— Não, mas a gente dá um jeito. Ele paga o preço do salmão e come cação.

Minutos depois, o homem voltou ao bar.

— Boa tarde!

— Boa tarde, moço! Seu Severino já está aprontando seu cação com alface...

— Cação? Eu pedi salmão com alcaparras!

— Desculpe, moço, falei errado. O peixe ele até achou, mas o outro negócio, as... as alcapar... Ele não achou.

— Quer dizer que vou comer salmão com alface? Tá bom, então me traga uma dose daquele uísque.

— Então... O senhor tomou a garrafa toda ontem...

— Serve uma cachaçinha?

— Cachaça?! Você está louco? Eu sou homem de tomar cachaça?! Por que não compraram meu uísque?! Me traz uma cerveja mesmo.

— É pra já, doutor!

— Ah, e amanhã eu quero caviar.

— Nossa! Essa comida eu já ouvi falar, mas nunca vi, não, senhor…

— Vá pegar logo minha comida!

Mais tarde, Josenildo avisou ao patrão:

— Seu Severino, o moço do circo disse que amanhã quer comer caviar.

— O quê?! Eu te disse pra não prometer mais nada! Agora vou ter que ir até o Mercado do outro lado do rio! Vamos fechar mais cedo.

— Oba! Vamos sair mais cedo!? Acho que vou ao circo.

— Vamos sair mais cedo, sim, mas vou descontar do seu salário.

No dia seguinte, a esposa doente de Seu Severino ajudava na cozinha, pois ele ainda não havia voltado da longa jornada atrás do caviar. Então, o sujeito apareceu.

— Boa tarde! Seu Severino saiu para procurar seu pedido e ainda não voltou… O senhor quer esperar ou prefere um prato feito com macarrão, arroz, feijão e salada de alface?

— O quê?! Como vou esperar? Você já viu a hora?! Traga-me uma dose de uísque.

— Não tem, não senhor. Seu Severino não comprou… E acho que eu esqueci de lembrá-lo.

— Esqueceu?! Você é muito enrolado! Não volto mais aqui! A partir de hoje, só vou no concorrente. Adeus!

E saiu batendo o pé.

Minutos depois, Seu Severino chegou esbaforido, molhado, mas sorrindo.

— Achei! Achei o caviar! Vou direto pra cozinha preparar!

— Seu Severino…

— Agora não posso! Vou cozinhar o caviar e cobrar o triplo do preço!

— Seu Severino, acho que não precisa ter pressa, não…

— Ué, por quê? Ele vai chegar mais tarde?

— Não… Ele não vai chegar. Foi pro concorrente.

— O quê?! Mas ele pediu o caviar!

— Pois é… Mas o senhor demorou. E sem uísque, ele resolveu ir embora.

— Droga! Bom, pelo menos ele pagou a conta, né?

— Então… Eu esqueci de cobrar.

— O QUÊ?! SOME DAQUI! Vai atrás desse cara! E só volta com o dinheiro da conta!

Passaram-se alguns dias, e Seu Severino recebeu uma carta de Josenildo. Ela dizia:

"Seu Severino, como o senhor disse pra eu só voltar com o dinheiro da conta, ainda não consegui recuperar. Então, preferi escrever esta carta."

"Descobri que o sujeito não é dono do circo… É um mero PALHAÇO. Ele até me deu um relógio de ouro pela dívida, mas, quando vendi pro ourives, ele desfez o negócio e disse que era falso! Como eu disse que o relógio era seu, ele falou que vai chamar a polícia. CUIDADO!"

"E tem mais… Tudo o que o palhaço ostentava era falso. Agora ele está comendo no concorrente e, ironicamente, pagando tudo em dinheiro. O mais engraçado? Ele não pede nada caro. Come o que tem na casa."

"A propósito, estou trabalhando aqui no concorrente… Um forte abraço, Seu Severino."

FIM.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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