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terça-feira, 19 de novembro de 2013

CONFUSÃO NO ALTAR

CONFUSÃO NO ALTAR 

Aristeu já estava há horas enchendo a paciência dos fregueses no bar do seu Manoel. Seu estado etílico não era dos melhores, mas isso não o impediu de pedir mais uma dose. Diante da negativa do dono, insistiu:

— Só mais uma, seu Manoel! A saideira, prometo que depois vou pra casa dormir.

Tanto fez que conseguiu convencer o dono a servi-lo. Mas, no instante em que levou o copo à boca, ouviu um grito estridente:

— Aaaai, meu Deus! Seu cretino, está bebendo de novo!? Esqueceu que vai me levar a um casamento?!

Era Gertrudes, sua esposa, furiosa.

— Vou levar, sim, mulher... Mas deixa eu terminar esse copinho aqui, depois tiro um cochilo e a gente vai, ok?

— Cochilo?! Já estamos atrasados! Vamos agora, seu cachorro sem vergonha!

— Isso mesmo, Dona Gertrudes! Leva esse traste pra casa! — concordou seu Manoel, aliviado.

De volta para casa, Gertrudes impôs ordem:

— Banho já! E escova esses dentes direito pra tirar esse bafo de cachaça!

Depois de muito custo, se arrumaram e saíram. Mas a jornada até a igreja foi um desastre: Aristeu arranhou o carro na saída da garagem, parou no meio do caminho alegando que precisava ir ao banheiro — mas na verdade tomou mais uma dose — e, no estacionamento, bateu nos carros da frente e de trás antes de finalmente conseguir estacionar.

Assim que chegaram, Gertrudes saiu do carro às pressas.

— Espera, mulher, vamos entrar juntos!

— Nem pensar! Você só me faz passar vergonha.

Gertrudes entrou sozinha e sentou-se ao lado de uma amiga.

— Oi, amiga! Tudo bem? Você parece nervosa.

— Tô, sim! Meu marido está num porre só. Não quero ficar perto dele.

Poucos minutos depois, um estrondo ecoou pela igreja. O padre interrompeu a cerimônia e todos olharam para trás. Aristeu estava caído no chão, depois de tropeçar no degrau e derrubar o pedestal de flores.

— Viu só, amiga? E eu achando que ele já estava sentado!

A cerimônia prosseguiu, mas não por muito tempo. Um burburinho começou entre os convidados, seguido por risadinhas. O padre fez cara feia, tentando manter a ordem. Gertrudes, desconfiada, olhou para trás e se deparou com seu marido dormindo profundamente — e roncando alto.

Furiosa, levantou-se e foi acordá-lo:

— Vou te matar, homem! Está todo mundo olhando! E ainda está ouvindo esse radinho de pilha dentro da igreja?!

— Não está vendo, mulher? Estou com fones de ouvido!

O padre retomou a cerimônia, visivelmente irritado. Tudo seguia bem até o momento de reflexão, quando os convidados receberam a hóstia. Foi aí que um grito ensurdecedor ecoou pelo salão:

— GOOOOOOL DO MENGÃO!!!

O padre se assustou tanto que deixou a hóstia cair. O noivo, um vascaíno roxo, ficou vermelho de raiva.

— Calma, Tenório, não faça nada! Você vai estragar nosso casamento! — tentou acalmá-lo a noiva.

Mas parecia que ela já previa o pior, porque, ao final da cerimônia, o padre fez a pergunta tradicional:

— Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre.

Aristeu levantou-se cambaleando, pegou o microfone e disse:

— Senhoras e senhores... Não tenho nada contra este casamento! Só queria dar um testemunho como amigo da família.

O salão ficou em silêncio. Gertrudes gelou.

— Conheço bem a Maria! Vi sua juventude complicada… Hoje é uma mulher moderna, usa sainha curta e fala muito palavrão — mas quem não fala, né? Tem muitos amigos e conhece gente influente. Todos os dias chega de carona em um carro diferente... E só carrão, hein!

O noivo franziu a testa.

— E o Tenório? Ah, dele sou suspeito pra falar! Nos encontramos sempre pelos bares da vida. Rapaz distinto, sempre de roupa de grife e carrão importado. Nunca o vi trabalhando, mas sei que ajuda muito suas primas... Sempre dá presentinhos pra elas lá na casa da luz vermelha. E que primas, hein, Tenório?!

A noiva arregalou os olhos.

— Que história é essa de primas, Tenório?! 

— E você, Maria?! Todo dia chegando de carona em um carro diferente?!

O caos estava instaurado. Gritos, xingamentos, empurrões. O casamento virou um ringue. O padre desmaiou. Os convidados fugiram.

E Aristeu? Bom… Ele ainda queria tomar um gole daquele "vinho santo", mas acabou apanhando tanto que foi parar no hospital. Ainda delirando, achava que estava na festa, brindando com champanhe.

— Tim-tim, pessoal! Viva os noivos!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


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