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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

QUANDO A MORTE VALE A PENA


Quando a Morte Vale a Pena

Aristeu acabara de receber a pior notícia de sua vida. O médico pedira que ele levasse um familiar ao consultório, mas, teimoso como era, insistiu para saber o motivo ali mesmo.

O doutor suspirou e explicou:

— Eu pedi para trazer um parente porque o tratamento pode ser pesado. Alguns pacientes sentem enjoo, tontura... A família precisa estar ciente das limitações.

Saiu do consultório arrasado. Estava com câncer e, pelo que entendeu, tinha apenas seis meses de vida.

Entrou no carro e chorou. Chorou muito. Ficou ali, pensando em como seriam seus últimos meses.

Quando chegou em casa, passou direto pela esposa, cabeça baixa, e se trancou no quarto. Gertrudes estranhou. Ele sempre a beijava ao chegar. Preocupada, foi atrás dele.

— Meu amor, o que houve? Você passou e nem me olhou.

— Nada, mulher. Me deixa em paz.

Chateada, ela não insistiu.

Dias depois, Aristeu estava mais conformado. Conversou com seu amigo Dudu, o único a saber da doença.

— Aproveita a vida, meu amigo — aconselhou Dudu. — Faz tudo que sempre quis fazer. O resto... deixa nas mãos de Deus.

— É... tem razão. Mas também preciso pensar na minha família. Quando eu morrer, vão passar aperto.

De cara, fez um seguro de vida. Depois, pegou o maior empréstimo que conseguiu no banco. Chegou em casa, pegou a esposa e o cartão de crédito, e a levou para uma loja de eletrodomésticos.

— Compra tudo o que precisar!

Gertrudes quase desmaiou de felicidade.

— Mas o que houve, meu amor? Você ganhou na loteria? Sempre foi pão-duro e agora tá esbanjando desse jeito?

Ele sorriu.

— Foi quase isso... Recebi um dinheiro inesperado no trabalho. E também ganhei no bicho.

"Defunto não tem dívida mesmo..." — pensava ele.

Mas Aristeu não queria só ajudar a família. Também queria aproveitar. Começou a chegar tarde, beber sem limites e aprontar.

— Dudu, bora naquele inferninho lá do centro? Tô a fim de pegar umas minas.

— Cara, tá pegando pesado, hein. Você está bem? Tem tomado os remédios direitinho?

— Pra quê? Se vou morrer mesmo, que pelo menos eu seja feliz!

Dudu deu de ombros.

— Bem... já que é assim, vamos pra night!

Ainda naquela noite, após Aristeu sair do quarto do "Inferninho" com duas mulheres, Dudu o puxou pelo braço e perguntou:

— Aristeu, me diz uma coisa: você usou camisinha?

— Pra quê? Vou morrer mesmo! — E soltou uma gargalhada.

— E sua esposa, seu estúpido?!

Aristeu mudou de assunto rapidamente:

— Preciso arrumar dinheiro. Quer ir comigo?

— Ué, arrumou trabalho noturno?

— Quase... Um trabalhinho especial.

Dudu estreitou os olhos.

— Aristeu... Que volume é esse na tua cintura?

— Deixa pra lá, amigo.

Dudu preferiu não acompanhar. Estava sentindo que aquilo não ia acabar bem.

O Novo "Emprego"

Aristeu conheceu um dono de ferro-velho que pagava bem por carros roubados.

— Vou garantir um bom dinheiro pra minha família. Depois posso morrer em paz!

Mas a vida do crime não era bem sua praia. Na primeira tentativa, disparou o alarme do carro e teve que correr.

Pega ladrão! Pega ladrão! — gritava o dono do veículo.

Na segunda, tentou roubar um carro automático e não conseguiu nem sair do lugar.

— Quem foi o infeliz que inventou esse tipo de carro?!

Na terceira, quase morreu de verdade: levou um tiro de raspão na orelha.

Putz, por pouco não bati as botas antes do prazo!

As dores aumentaram. Voltou ao médico, que lhe deu uma bronca monumental.

— O senhor abandonou o tratamento?! Tá louco?!

Após uma nova bateria de exames, o médico o chamou ao consultório.

— Sr. Aristeu, sente-se. Quem lhe falou que seu tumor era maligno?

— O senhor! E disse que eu só tinha seis meses de vida!

O médico arregalou os olhos.

— Não, Aristeu! Seu tumor é benigno! Eu disse que você teria seis meses de tratamento!

Aristeu empalideceu.

— O quê?! Então eu não vou morrer?!

— Não... Mas agora vai precisar de mais seis meses de tratamento, porque seu quadro piorou.

A boca de Aristeu ficou seca.

— Doutor... O senhor não explicou direito. Fiz seguro de vida, estou atolado em dívidas, virei ladrão, quase morri com um tiro e... posso estar aidético! Passei doença pra minha patroa! E agora a polícia deve estar atrás de mim!

O médico coçou a cabeça.

— Ihhh, acho que a doença afetou sua mente... Vou encaminhá-lo a um psiquiatra.

Foi a gota d’água. Aristeu voou no doutor, para lhe dar uns tabefes, porém acabou no hospital todo quebrado. O Médico era lutador de Artes Marciais.

Mais tarde...

Gertrudes, por sua vez, acabou descobrindo toda a verdade, comunicou o sistema penal que além dos remédios para o trauma, ele tinha que tomar também os remédios, na qual, resultou em todos esses problemas. Aristeu virou um paciente exemplar... no hospital penitenciário.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*


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