Amâncio e a Paciência que se Esgotou
Amâncio era um cara muito na dele, sem maldade ou inimizades. Um sujeito bacana.
Certo dia, andando pela rua, um homem esbarrou nele, derrubando sua pasta. Os documentos voaram para todos os lados. O mais incrível era que, mesmo numa situação dessas, Amâncio ainda se desculpava, achando que a culpa era dele.
Seus amigos o faziam de gato e sapato. Pediam dinheiro emprestado e nunca pagavam. Pegavam seu carro e demoravam para devolver—isso quando não o devolviam amassado. Até com sua esposa mexiam. Amâncio, sempre generoso, adorava fazer favores sem esperar nada em troca. E quando falavam sobre sua mulher, ele simplesmente dizia:
— Eu não me incomodo quando a elogiam e dizem que ela é bonita ou gostosa. Pior seria se dissessem que ela é feia.
Mas havia um boato maldoso: diziam que Amâncio apanhava da esposa. Era um homem forte, com corpo atlético, mas aparecia vez ou outra com algumas lesões. Alegava que eram do futebol, mas ninguém acreditava. Riam dele, provocavam:
— O Amâncio apanha da mulher... Quem apanha de mulher é mariquinha!
Ele não gostava de ouvir isso, mas mantinha a classe e fingia não escutar. Era forte, mas também tinha um autocontrole invejável. Não se deixava levar por provocações.
Amava sua esposa e era um marido atencioso. Tudo que ela pedia, ele fazia. Era o companheiro ideal.
Pena que, por ser tão bom, muitos abusavam da sua boa vontade.
— Estou cansado dessa vida de ser bonzinho. Todo mundo passa a perna em mim — desabafou Amâncio com um amigo.
— Meu camarada, você precisa parar de ser fornecedor e virar consumidor — disse o amigo.
— Como assim?
— Quero dizer que você só fornece. Seus amigos te exploram... E até sua mulher você está fornecendo, Amâncio.
— O quê?! Que história é essa? Você está maluco? — respondeu ele, indignado.
— Se liga, meu amigo... Vai consumir outras mulheres por aí também — provocou Clarisbadeu.
Amâncio voltou para casa desapontado. Nunca havia considerado essa possibilidade. Mas agora não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça.
Passou a observar melhor sua esposa, acompanhando seus passos. E então descobriu a verdade.
Estava sendo traído. E com um de seus próprios amigos. O Ricardão. O mesmo que mais o ridicularizava, espalhando para todos que ele apanhava da mulher.
— Agora faz sentido... Ela deve comentar com ele sobre as brigas, e esse safado espalha para todo mundo.
Mas Amâncio manteve sua calma habitual. Esperou o momento certo.
No clube, encontrou a roda de amigos, e Ricardão estava no meio. Como de costume, o traidor foi o primeiro a zombar:
— Olha aí quem chegou! O maricão que apanha da mulher!
Todos riram.
Amâncio engoliu em seco e, com sua tranquilidade característica, disse:
— Preciso confessar uma coisa para vocês... De vez em quando, ela me dá uns catiripapos, sim.
A gargalhada foi geral. Alguns chegaram a cair no chão de tanto rir. Ricardão, triunfante, repetia:
— Eu não falei? Eu não falei?!
Amâncio se aproximou dele, falando cada vez mais baixo:
— E não é só isso... Eu fui muito judiado e traído.
As risadas continuavam.
— Ricardão, cuidado, ele vai te beijar! — alguém gritou.
Mas Amâncio ainda não tinha terminado:
— Como eu estava dizendo... Ela me trai com um de vocês. E ainda me bate muito. Mas se eu tivesse feito com ela o que vou fazer com vocês, ela não estaria mais nesse mundo.
O silêncio foi instantâneo. Todos se entreolharam. O clima ficou pesado.
Até que Ricardão, pálido, soltou um grito:
— Sujou! Aiiii... Socorro!
Foi tarde demais. Amâncio descontou tudo ali, na frente de todos. Ricardão levou uma surra tão grande que foi parar no hospital.
Curiosamente, seus amigos ainda não foram visitá-lo. Estão todos... desaparecidos.
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