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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ENTERRANDO O DEFUNTO ERRADO.


Enterrando o Defunto Errado

Aristeu e Gertrudes se arrumavam para ir ao enterro de um amigo. Aristeu, com sua lerdeza habitual, ainda estava no banheiro fazendo a barba quando Gertrudes apareceu impaciente.

— Anda logo, homem! Já estamos atrasados!

— Calma... Ai! — Ele se cortou com a lâmina. — Viu o que você fez? Me assustou!

— Deixa de ser mole. Já estou pronta faz mais de uma hora, e você nem banho tomou!

— Você fala demais e me atrapalha... Comigo tem que ser tudo devagar, gosto de fazer as coisas direito.

Duas horas depois, finalmente saíram de casa.

— Vê se acelera esse carro, já estamos muito atrasados!

— Filha, automóvel é comigo mesmo. Deixa comigo.

— É, né? Da última vez que você saiu apressado, arranhou a lateral do carro na garagem!

No caminho, caíram num buraco e estouraram um pneu. Depois, Aristeu avançou um sinal e levou uma multa. Quando finalmente chegaram ao cemitério, Gertrudes já estava bufando.

— Nunca mais! Da próxima vez, venho de táxi!

— Tá reclamando de quê? Tenho culpa se o pneu furou e o guarda me parou?

— Claro que tem! O pneu estourou porque você mirou no buraco! E o guarda te parou porque avançou o sinal de novo! Esse mês seu salário vai todo em multas!

— E você que falou o nome do cemitério errado? Fomos parar do outro lado da cidade!

Ao entrarem na capela, benzeram-se e foram cumprimentar os parentes, demonstrando seus profundos sentimentos. O caixão estava fechado porque o corpo já estava cheirando mal.

— Viu, Gertrudes? Você me apressa tanto e nem sinal de enterro!

— Não sei... Tá estranho. Não vejo ninguém conhecido.

— Vai ver a esposa dele passou mal e a família saiu pra socorrê-la...

Nesse momento, um grupo de evangélicos chegou e começou uma oração. Aristeu e Gertrudes rezaram fervorosamente pela alma do falecido.

Quando chegou o momento do enterro, havia poucos homens para carregar o caixão, e Aristeu, prestativo, segurou uma das alças.

— Se é pra dar o último adeus ao meu amigo, eu faço questão de ajudar.

Gertrudes, com dores nos pés, preferiu não acompanhar e ficou esperando perto da capela. Aristeu, emocionado, seguiu até a cova, que ficava quase no final do cemitério.

Quando voltou, os olhos vermelhos de tanto chorar, encontrou Gertrudes de braços cruzados e cara fechada.

— Que foi agora, mulher?

Ela bufou.

— O que foi?! Com essa tua lerdeza, simplesmente: velaste, rezaste, enterraste e ainda carregaste o caixão do defunto errado! Teu amigo já foi enterrado há horas!

Aristeu arregalou os olhos.

— O quê?!

Gertrudes pegou a bolsa e saiu pisando duro.

— Se vira, porque eu vou embora de táxi! E, se for pra casa, dorme no sofá!

Aristeu ficou parado, tentando entender o que tinha acontecido.

— Mas... Mas... Ah, que droga!

E saiu correndo atrás de Gertrudes.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO* 


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