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ALEXANDRE M. BRITO
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Quando comecei na praça, não tinha dinheiro para comprar um carro novo. O que eu tinha dava para comprar apenas a "autonomia ou a licença" para ser taxista... e um fusca bem velho. O carro era tão velho, mas tão velho, que só vivia enguiçado. Se meu fusca falasse, só teria histórias tristes para contar.
O carro tinha um buraco no assoalho que me causava muitos aborrecimentos. Certa vez, um passageiro enfiou o pé ali e, muito revoltado, saiu ameaçando me denunciar e não me pagou pela corrida. Fora as senhoras de sandálias, que cortaram os pés ao entrar.
- E se eu pegar um tétano? — perguntou uma delas, em tom de ameaça.
A culpa era delas, que arrastavam o tapete que eu coloquei para cobrir o buraco. Mas, continuando...
Quando eu passava a quarta marcha, tinha que ficar segurando o câmbio, senão ele escapulia. Para piorar, se pegasse um buraco ou passasse numa trepidação do asfalto, as portas se abriam. Eu não sabia se segurava o câmbio ou as portas — dependia da próxima curva. Às vezes, tinha que reduzir a marcha e segurar as portas, para evitar que elas se escancarassem.
- Carro de doido — disse um passageiro, rindo.
O automóvel era tão barulhento que parecia uma bateria de escola de samba. Quase todos os dias, eu tinha que sair de casa empurrado por causa de problemas no arranque ou na bateria fraca.
A maioria dos passageiros o rejeitava. Mulheres bonitas, nem pensar. Quanto aos que me restavam, a grande maioria era para subir os morros do Rio de Janeiro. Alguns porque saíam do mercado com sacolas de compras, outros porque eram viciados querendo comprar drogas. Eles normalmente não me diziam para onde queriam ir, mas sim o trajeto. Quando percebia, já estava subindo morro acima.
- Amigo, faz favor, dobra a segunda à esquerda e depois a primeira à direita. É uma pequena subida, não tem problema nenhum...
Era o que sobrou para mim, porque os taxistas com "carrões" não queriam levá-los.
Uma das poucas passageiras bonitas que peguei deu um grito tão forte e me disse que um rato havia passado em seus pés. Coitada, ficou desesperada. Chegando em casa, botei veneno para o rato, e o desgraçado foi morrer justamente numa parte do carro que ninguém conseguia alcançar. Só sentíamos o mau cheiro. Tive que ficar uns quinze dias sem trabalhar, porque fedia demais e todos os passageiros reclamavam.
Depois que o cheiro melhorou, voltei à labuta. Peguei outro passageiro, que estava sem camisa e com a cara muito estranha. Ele disse que precisava pegar a mãe no hospital. Claro, levei. Passageiro escasso é passageiro aproveitado.
Ele pediu para parar em frente a uma farmácia, esperando umas pessoas. Aguardei alguns minutos, quando, de repente, vieram dois caras correndo e pediram para eu sair dali. Saí cantando pneu. Um pouco mais à frente, numa rua cheia de quebra-molas, tive que diminuir a velocidade. O cara da frente se apavorou e puxou uma arma. Em resumo, eles haviam assaltado a farmácia e eu, sem querer, virei piloto de fuga. Pelo menos, pagaram a corrida e ainda disseram que eu fiz tudo direitinho, por isso merecia uma "merendinha". Não quiseram o troco! Do jeito que eu estava apavorado, nem queria aceitar o pagamento, mas eles "fizeram questão de pagar"... eram ladrões honestos!
Saí dali tremendo que nem vara verde, prometendo nunca mais andar com aquele maldito carro azarado. Mas estava duro que nem "coco" e sem saber o que fazer, porque a "lata velha" só me causava desgosto. Eu estava traumatizado, mas, sendo teimoso como era, voltei ao trabalho. Foi quando peguei uma família: dois homens, uma mulher e uma criança. Pela conversa deles, logo percebi que não eram boas pessoas. Eles estavam armados e só falavam sobre favela, drogas e armas.
Por sorte, parecia que tinham simpatizado comigo, porque começaram a brincar, dizendo que meu carro estava "caidinho" e que podia desmontar a qualquer momento. Riam à toa. No retrovisor, eu via a criança de joelhos, tentando arrancar o selo de vistoria do taxi, que estava no vidro traseiro. Eu, sem graça de chamar a atenção dela e com medo de algo dar errado, decidi dar um "sustinho" nela, apertando o freio. Ela caiu no chão do carro.
Levei uma bronca tremenda da mãe, que foi defendida por um dos homens, que mandou a mulher se calar. Quando estávamos chegando ao destino, no morro, os caras falavam com várias pessoas, pareciam ser conhecidos de todos na comunidade. Pareciam até candidatos a políticos.
Mais à frente, tomamos um baita susto. Apareceram bandidos apontando armas para a gente. Pois é... eles levaram uma bronca pior que a que eu havia levado. A mulher que me deu bronca era a "Primeira Dama do Morro". Um dos homens no carro era o "Dono do Morro", o chefe dos bandidos.
Eu, quieto, quase me borrando de medo, não falava nada. Chegamos ao pico do morro, e lá estava um monte de malandros armados, com armas cada vez maiores. Os homens me pagaram a corrida com uma boa gorjeta, mas ainda me colocaram uma condição: eu teria que tomar uma cerveja com eles. Eu, que já estava quase me cagando de medo, aceitei. Quem era eu naquele momento para dizer não?
Gertrudes estava fazendo compras com sua prima pelas ruas de São Paulo, quando, de repente, o telefone tocou:
- Gertruuudes... onde você está?
- Estou na Avenida Paulista. E você, onde está?
- Acabei de sair do metrô. Como faço para chegar aí?
- Sei lá... fala com a Lindalva aqui, ela te explica.
Após meia hora de conversa ao celular, elas desligaram e voltaram às compras.
- Esse teu marido é enrolado, hein! Custa a entender as coisas.
- Você não conhece ele direito. O Aristeu é um caso sério, mas sabe o que mais me irrita nele? Ele é um comilão!
- Prima, ninguém está satisfeito com nada, né? Quem dera que meu marido comesse melhor, ele está tão magrinho.
- Pois é, mas o Aristeu... Sabe o que ele fez no outro dia?... Espera um minuto, o telefone está tocando novamente. Alô, fala Aristeu! O que foi agora?
- Gertrudes, eu estou perdido.
- Olha a placa da rua e vê o nome.
- Ihhh, vim parar na 25 de Março.
- Tu és muito enrolado! Fala com a prima aqui. Como é que ele foi parar na 25 de Março?
Ela explicou, explicou... e mais meia hora ao telefone se passou, porque Aristeu nunca entendia de primeira.
- Agora ele disse que entendeu. Mas, prima, o que você estava dizendo mesmo?
- Ah, eu ia contar o que ele fez noutro dia. Comeu todos os meus bombons e, com medo de eu brigar, colocou uma nota de vinte reais dentro da caixa de bombons, que ainda estava na geladeira, achando que isso ia amenizar minha bronca. Ele é demais!
- Não acredito, prima! E não teve um dia que ele comeu a sobremesa toda que você fez para a titia e depois ficou passando mal?
- Teve... Mas nesse dia, fiquei tão furiosa que coloquei laxante na bebida dele. Ele não almoçou nem com a mamãe porque não saía do banheiro. Mas ele não sabe disso, hein! Coitado, é tão desligado que nem imagina esse meu lado vingativo.
- Você teve coragem de fazer isso, prima?
- Às vezes ele me tira do sério. O telefone está tocando de novo... Alô!!
- Gertrudes, vim parar na estação do metrô de novo. Desisto, vou embora. Aproveito que estou aqui em frente, é só pegar o metrô de volta.
Isso, Aristeu, vai ver televisão na casa da Lindalva, só assim você não enche o saco e desligou.
Ihhhh... Lindalva acho melhor a gente também voltar para casa, porque, mais tarde, quando chegarmos não vai ter comida nenhuma na geladeira, o Glutão vai comer tudo.
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Faltavam três dias para o casamento e Agripino já estava começando a ficar tenso. Ele, que sempre foi muito tímido, não conseguia parar de pensar no momento em que teria que entrar na igreja e encarar o padre, com toda aquela gente olhando. Conversou com seu amigo Adegesto Pataca sobre o quanto estava nervoso, e mal podia esperar para que aquele dia chegasse e terminasse logo.
Foi quando Adegesto teve a brilhante ideia de sair todas as noites para tomar umas e outras, até o dia do casamento. Ele sugeriu também fazer uma despedida de solteiro com os amigos mais chegados, para aliviar a pressão.
E assim, Agripino começou a beber todos os dias. Afinal, ele estava prestes a se casar, e precisava se acalmar. Quando chegou a véspera do grande dia, Adegesto foi até a casa de Agripino para começar a despedida de solteiro. Juntaram-se aos amigos e partiram para os lugares mais badalados da cidade.
Primeiro, foram para um restaurante, depois para uma boate e, por fim, acabaram numa sáuna. Já tarde da noite, quando todos estavam se preparando para ir embora, Agripino, totalmente embriagado, disse que ficaria mais um pouco.
Os amigos, preocupados, avisaram que naquele lugar, qualquer mulher daria em cima dele, desde que ele tivesse dinheiro para pagar, e decidiram partir. Mas Agripino, completamente fora de si, decidiu que ficaria e tentaria algo com a mulher que o atraiu.
No dia do casamento, a preocupação começou a tomar conta. A noiva já havia chegado atrasada, o que é normal. O que não é normal é o noivo chegar com atraso, e foi o que aconteceu. Aí...o público começou a comentar.
Adegesto estava muito preocupado. Ele sabia que Agripino havia bebido demais e, a essa altura, se arrependeu de tê-lo deixado sozinho.
De repente, Agripino apareceu, dirigindo seu carro, todo amarrotado, andando de maneira estranha, como se estivesse com dificuldades até para caminhar. Ele encontrou os amigos e, com um tom de derrota, falou:
Na vida do crime, havia dois bandidos de alta periculosidade, mas que, para a criançada daquela pequena cidade, eram mais do que uma piada. Os dois costumavam se esconder em uma manilha perto de um esgoto, onde dificilmente alguém se aproximama, pois o cheiro era insuportável.
— Bodão, isso aqui hoje está um horror! Acho que vou vomitar — disse Pedrão, um dos bandidos.
— Vai vomitar logo agora que eu ia preparar o nosso lanchinho? — retrucou Bodão.
— Lanchinho? Que lanchinho? Não sei como você consegue comer com esse cheiro!
— Aquele embrulho que nós roubamos do garotinho saindo da padaria, deve ser mortadela. E tem também aquele pão que você surrupiou da garupa da bicicleta daquela menina — falou Bodão.
— Bodão, sabe quanto tempo tem isso? Sete dias! Você esqueceu que só hoje conseguimos nos livrar daqueles garotos que nos trancaram no galinheiro da casa da mãe de um deles?
— É mesmo… Por isso você está passando mal. Está todo cagado! Quem mandou dormir embaixo do poleiro das galinhas? Nem galinha a gente consegue roubar mais, Pedrão!
— Raios de moleques! Eu vou enforcar um por um — disse Pedrão.
— Você não consegue matar nem uma barata. É todo atrapalhado!
— Olha como fala, hein! E você que é um tremendo de um azarado, tudo o que rouba dá errado.
— Cala essa boca e vamos comer. O pão está um pouquinho duro, mas dá para comer. Abre logo esse embrulho — falou Bodão.
Pedrão abriu o embrulho devagarzinho, parecia adivinhar que algo estava errado.
— Ah… Pelo amor de Deus! Agora vou vomitar — e jogou o pacote longe.
— O que foi, Pedrão, que catinga é essa?
— Seu desgraçado! Eu te falei, tudo o que você rouba dá errado. Aquilo era um rato podre!
— Rato!? Aquela pestinha vai me pagar!
— Bodão, estamos sem moral nesse bairro. Nem um pirulito a gente consegue roubar mais... Acho que vou me aposentar.
Na realidade, essa dupla era de alta periculosidade em relação a eles mesmos, tudo dava errado devido as suas extremas atrapalhadas, corriam risco a todo instante.
— Pedrão, você está ficando amarelo... Ih, acho que ele desmaiou… Ou deve estar dormindo? Bem, de qualquer forma, vou deixar ele descansar, tem andado muito nervoso ultimamente. Vou aproveitar e fazer um ganho para podermos jantar hoje. Afinal, ninguém é de ferro, não é? Já tem tempo que não janto.
Bodão saiu da manilha e foi para a porta de um colégio próximo esperar uma vítima para dar o bote. Foi quando apareceu uma menina de aproximadamente quinze anos, andando em sua direção.
— Essa vai ser uma presa fácil... Vou pegar o celular e a mochila dela. Pode ser também que tenha algum dinheiro ou alguma merenda — pensou Bodão.
Bodão colocou as mãos para trás e disse para a menina que estava armado e mandou que o entregasse tudo. Porém, o que ele não sabia era que sua sorte estava prestes a mudar. Como seu amigo já tinha avisado, ele era um tremendo azarado.
Naquele momento, apareceu uma patrulha… mas não era qualquer patrulha! Era a patrulha dos garotos insanos do colégio, que já estavam à procura de Bodão. Armados com ovos, tomates podres e tintas velhas, deram-lhe um tremendo flagrante e o rodearam.
Coitado de Bodão!
Quando Pedrão acordou, sentiu falta de seu parceiro e, como estava com muita fome, saiu para "trabalhar". Avistou um garotinho sozinho com uma sacola na mão. Sem pensar muito, saiu correndo em sua direção, atravessou a rua… e foi atropelado.
Coitado do Pedrão!
Mais tarde, no hospital:
— Oi, Pedrão... Você por aqui também?!
— É, amigo, pelo menos aqui temos o que comer, não é verdade?
— E o mais importante, aqui aqueles pestinhas não aparecem.
— A enfermeira já me deu até um banho, porque não consigo me mexer. Tudo dói...
— Só assim você toma banho... Mas já era hora, não é, amigo? Você estava muito fedorento!
O que eles não esperavam é que lá fora já tinha um grupo de garotos planejando como invadir o hospital e jogar pó de mico em suas camas.