Atrapalhados ao Extremo
Na vida do crime, havia dois bandidos de alta periculosidade, mas que, para a criançada daquela pequena cidade, eram mais do que uma piada. Os dois costumavam se esconder em uma manilha perto de um esgoto, onde dificilmente alguém se aproximama, pois o cheiro era insuportável.
— Bodão, isso aqui hoje está um horror! Acho que vou vomitar — disse Pedrão, um dos bandidos.
— Vai vomitar logo agora que eu ia preparar o nosso lanchinho? — retrucou Bodão.
— Lanchinho? Que lanchinho? Não sei como você consegue comer com esse cheiro!
— Aquele embrulho que nós roubamos do garotinho saindo da padaria, deve ser mortadela. E tem também aquele pão que você surrupiou da garupa da bicicleta daquela menina — falou Bodão.
— Bodão, sabe quanto tempo tem isso? Sete dias! Você esqueceu que só hoje conseguimos nos livrar daqueles garotos que nos trancaram no galinheiro da casa da mãe de um deles?
— É mesmo… Por isso você está passando mal. Está todo cagado! Quem mandou dormir embaixo do poleiro das galinhas? Nem galinha a gente consegue roubar mais, Pedrão!
— Raios de moleques! Eu vou enforcar um por um — disse Pedrão.
— Você não consegue matar nem uma barata. É todo atrapalhado!
— Olha como fala, hein! E você que é um tremendo de um azarado, tudo o que rouba dá errado.
— Cala essa boca e vamos comer. O pão está um pouquinho duro, mas dá para comer. Abre logo esse embrulho — falou Bodão.
Pedrão abriu o embrulho devagarzinho, parecia adivinhar que algo estava errado.
— Ah… Pelo amor de Deus! Agora vou vomitar — e jogou o pacote longe.
— O que foi, Pedrão, que catinga é essa?
— Seu desgraçado! Eu te falei, tudo o que você rouba dá errado. Aquilo era um rato podre!
— Rato!? Aquela pestinha vai me pagar!
— Bodão, estamos sem moral nesse bairro. Nem um pirulito a gente consegue roubar mais... Acho que vou me aposentar.
Na realidade, essa dupla era de alta periculosidade em relação a eles mesmos, tudo dava errado devido as suas extremas atrapalhadas, corriam risco a todo instante.
— Pedrão, você está ficando amarelo... Ih, acho que ele desmaiou… Ou deve estar dormindo? Bem, de qualquer forma, vou deixar ele descansar, tem andado muito nervoso ultimamente. Vou aproveitar e fazer um ganho para podermos jantar hoje. Afinal, ninguém é de ferro, não é? Já tem tempo que não janto.
Bodão saiu da manilha e foi para a porta de um colégio próximo esperar uma vítima para dar o bote. Foi quando apareceu uma menina de aproximadamente quinze anos, andando em sua direção.
— Essa vai ser uma presa fácil... Vou pegar o celular e a mochila dela. Pode ser também que tenha algum dinheiro ou alguma merenda — pensou Bodão.
Bodão colocou as mãos para trás e disse para a menina que estava armado e mandou que o entregasse tudo. Porém, o que ele não sabia era que sua sorte estava prestes a mudar. Como seu amigo já tinha avisado, ele era um tremendo azarado.
Naquele momento, apareceu uma patrulha… mas não era qualquer patrulha! Era a patrulha dos garotos insanos do colégio, que já estavam à procura de Bodão. Armados com ovos, tomates podres e tintas velhas, deram-lhe um tremendo flagrante e o rodearam.
Coitado de Bodão!
Quando Pedrão acordou, sentiu falta de seu parceiro e, como estava com muita fome, saiu para "trabalhar". Avistou um garotinho sozinho com uma sacola na mão. Sem pensar muito, saiu correndo em sua direção, atravessou a rua… e foi atropelado.
Coitado do Pedrão!
Mais tarde, no hospital:
— Oi, Pedrão... Você por aqui também?!
— É, amigo, pelo menos aqui temos o que comer, não é verdade?
— E o mais importante, aqui aqueles pestinhas não aparecem.
— A enfermeira já me deu até um banho, porque não consigo me mexer. Tudo dói...
— Só assim você toma banho... Mas já era hora, não é, amigo? Você estava muito fedorento!
O que eles não esperavam é que lá fora já tinha um grupo de garotos planejando como invadir o hospital e jogar pó de mico em suas camas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário