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sexta-feira, 7 de março de 2025

SE MEU FUSCA FALASSE.


  


Quando comecei na praça, não tinha dinheiro para comprar um carro novo. O que eu tinha dava para comprar apenas a "autonomia ou a licença" para ser taxista... e um fusca bem velho. O carro era tão velho, mas tão velho, que só vivia enguiçado. Se meu fusca falasse, só teria histórias tristes para contar.

O carro tinha um buraco no assoalho que me causava muitos aborrecimentos. Certa vez, um passageiro enfiou o pé ali e, muito revoltado, saiu ameaçando me denunciar e não me pagou pela corrida. Fora as senhoras de sandálias, que cortaram os pés ao entrar.

- E se eu pegar um tétano? — perguntou uma delas, em tom de ameaça.
A culpa era delas, que arrastavam o tapete que eu coloquei para cobrir o buraco. Mas, continuando...

Quando eu passava a quarta marcha, tinha que ficar segurando o câmbio, senão ele escapulia. Para piorar, se pegasse um buraco ou passasse numa trepidação do asfalto, as portas se abriam. Eu não sabia se segurava o câmbio ou as portas — dependia da próxima curva. Às vezes, tinha que reduzir a marcha e segurar as portas, para evitar que elas se escancarassem.

- Carro de doido — disse um passageiro, rindo.

O automóvel era tão barulhento que parecia uma bateria de escola de samba. Quase todos os dias, eu tinha que sair de casa empurrado por causa de problemas no arranque ou na bateria fraca.

A maioria dos passageiros o rejeitava. Mulheres bonitas, nem pensar. Quanto aos que me restavam, a grande maioria era para subir os morros do Rio de Janeiro. Alguns porque saíam do mercado com sacolas de compras, outros porque eram viciados querendo comprar drogas. Eles normalmente não me diziam para onde queriam ir, mas sim o trajeto. Quando percebia, já estava subindo morro acima.

- Amigo, faz favor, dobra a segunda à esquerda e depois a primeira à direita. É uma pequena subida, não tem problema nenhum...

Era o que sobrou para mim, porque os taxistas com "carrões" não queriam levá-los.

Uma das poucas passageiras bonitas que peguei deu um grito tão forte e me disse que um rato havia passado em seus pés. Coitada, ficou desesperada. Chegando em casa, botei veneno para o rato, e o desgraçado foi morrer justamente numa parte do carro que ninguém conseguia alcançar. Só sentíamos o mau cheiro. Tive que ficar uns quinze dias sem trabalhar, porque fedia demais e todos os passageiros reclamavam.

Depois que o cheiro melhorou, voltei à labuta. Peguei outro passageiro, que estava sem camisa e com a cara muito estranha. Ele disse que precisava pegar a mãe no hospital. Claro, levei. Passageiro escasso é passageiro aproveitado.

Ele pediu para parar em frente a uma farmácia, esperando umas pessoas. Aguardei alguns minutos, quando, de repente, vieram dois caras correndo e pediram para eu sair dali. Saí cantando pneu. Um pouco mais à frente, numa rua cheia de quebra-molas, tive que diminuir a velocidade. O cara da frente se apavorou e puxou uma arma. Em resumo, eles haviam assaltado a farmácia e eu, sem querer, virei piloto de fuga. Pelo menos, pagaram a corrida e ainda disseram que eu fiz tudo direitinho, por isso merecia uma "merendinha". Não quiseram o troco! Do jeito que eu estava apavorado, nem queria aceitar o pagamento, mas eles "fizeram questão de pagar"... eram ladrões honestos!

Saí dali tremendo que nem vara verde, prometendo nunca mais andar com aquele maldito carro azarado. Mas estava duro que nem "coco" e sem saber o que fazer, porque a "lata velha" só me causava desgosto. Eu estava traumatizado, mas, sendo teimoso como era, voltei ao trabalho. Foi quando peguei uma família: dois homens, uma mulher e uma criança. Pela conversa deles, logo percebi que não eram boas pessoas. Eles estavam armados e só falavam sobre favela, drogas e armas.

Por sorte, parecia que tinham simpatizado comigo, porque começaram a brincar, dizendo que meu carro estava "caidinho" e que podia desmontar a qualquer momento. Riam à toa. No retrovisor, eu via a criança de joelhos, tentando arrancar o selo de vistoria do taxi, que estava no vidro traseiro. Eu, sem graça de chamar a atenção dela e com medo de algo dar errado, decidi dar um "sustinho" nela, apertando o freio. Ela caiu no chão do carro.

Levei uma bronca tremenda da mãe, que foi defendida por um dos homens, que mandou a mulher se calar. Quando estávamos chegando ao destino, no morro, os caras falavam com várias pessoas, pareciam ser conhecidos de todos na comunidade. Pareciam até candidatos a políticos.

Mais à frente, tomamos um baita susto. Apareceram bandidos apontando armas para a gente. Pois é... eles levaram uma bronca pior que a que eu havia levado. A mulher que me deu bronca era a "Primeira Dama do Morro". Um dos homens no carro era o "Dono do Morro", o chefe dos bandidos.

Eu, quieto, quase me borrando de medo, não falava nada. Chegamos ao pico do morro, e lá estava um monte de malandros armados, com armas cada vez maiores. Os homens me pagaram a corrida com uma boa gorjeta, mas ainda me colocaram uma condição: eu teria que tomar uma cerveja com eles. Eu, que já estava quase me cagando de medo, aceitei. Quem era eu naquele momento para dizer não?


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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