Uma passageira entrou no meu táxi. Estava, digamos assim, "camuflada" com: óculos escuros, um chapéu igual ao da Carmen Miranda, um capote que mais parecia aquele do Dunga, ex-técnico da seleção Brasileira, e botas até o joelho. Muito estranha… mas também muito bonita.
Ela disse seu destino e começou a chorar. Sem saber o que fazer, e ao mesmo tempo, curioso, também fiquei sem saber se partia ou se perguntava o motivo do chororô. Decidi perguntar se ela estava passando mal.
— Não… — respondeu, enxugando as lágrimas. — Choro por outro motivo…
Não querendo falar mais nada, ficou em silêncio.
Meio persistente, arrisquei:
— Senhora, como dizia Roberto Carlos naquela música… “Taxista é um analista urbano”, pode confiar e desabafar.
Levei um baita fora. Não colou.
Chegando ao destino, ela pediu que eu aguardasse um pouco, pois iria pegar um amigo. Nesse momento, já havia parado de chorar e parecia muito tensa.
Esperei cerca de meia hora e perguntei se ele viria mesmo.
— Sim, ele já está chegando… — disse, fingindo falar ao celular.
Mas nada dele aparecer.
Quando se passou quase uma hora, avisei que teria um compromisso e não poderia esperar mais. Foi quando ela puxou uma nota de cem reais e colocou na minha mão.
— O compromisso nem é tão importante assim… Posso esperar o tempo que for necessário! — disse eu, sorrindo.
De repente, um carro de vidros escuros saiu do prédio em frente. Ela arregalou os olhos e pediu para eu segui-lo.
— É o seu amigo? — perguntei.
Muito nervosa, acabou confessando:
— Estou desconfiada do meu marido… Acho que ele está me traindo. E agora vi uma mulher dentro do carro com ele!
Estranhei, pois os vidros eram tão escuros que não dava para ver nada. Mas segui mesmo assim.
O sujeito dirigia rápido e estava difícil alcançá-lo. Até que o trânsito começou a ficar mais lento, e consegui colar nele. Mas, justo quando ia vê-lo melhor, um carro entrou na minha frente, me atrapalhando. Em seguida, o semáforo fechou.
A doida surtou.
— Seu morrinha! Seu roda presa! Tartaruga de táxi!
Começou a me xingar de tudo quanto era nome.
Fiquei revoltado.
— Olha, senhora, não vou mais seguir aquele carro.
Então, ela puxou mais uma nota de cem reais e enfiou no meu bolso.
Respirei fundo.
— Aquele outro carro me atrapalhou, mas pode deixar… A partir de agora, nem semáforo me segura!
Saí cantando pneu, tentando recuperar a distância. Quase atropelei um cachorro, raspei a roda no meio-fio e caí num bueiro. Mas finalmente consegui emparelhar com o carro do "marido infiel".
A mulher botou a cabeça para fora e começou a berrar:
— Para, seu safado! Hoje você vai apanhar, seu filho disso, filho daquilo, seu mariquinha!
Gritava tanto que até aprendi alguns palavrões novos.
E ainda me intimou:
— Dá uma fechada nele!
— A senhora tá doida? Isso é perigoso demais!
Então, abriu a bolsa e pegou duzentos reais.
Não pensei duas vezes.
Taquei o carro na frente do outro, e fomos parar em cima de um canteiro passando por cima do meio fio.
De repente, a porta do carro se abriu. Saiu um moreno forte pra cacete, mais forte que o Minotauro e o Anderson Silva juntos… e ainda com um porrete na mão!
Primeiro achei que fosse o motorista ou segurança. Mas, pela cara de pânico da mulher, percebi que a gente estava encrencado.
Ela ficou branca como vela e sussurrou:
— Aquele… não é meu marido.
Depois berrou desesperada:
— Sai fora daqui, pelamordedeus!
Nem esperei a gorjeta que ela sempre colava no meu bolso. Só acelerei e sumimos dali.
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