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sexta-feira, 7 de março de 2025

O OTÁRIO DA HISTÓRIA


O Otário da História

— E aí, piloto! Arrumei meu primeiro trampo, hoje começo na labuta. Então, solicito a ajuda do “meretríssimo” taxista pra botar uma velô nesse carango aí, valeu? Tenho que chegar ao centro da cidade em dez minutos, tá ligado!?

O cara era todo metido a malandro, lembrava o "Agostinho", da Grande Família. Aparentava ter uns trinta anos e nunca tinha trabalhado??? Sim... porque ele mesmo disse que estava indo para seu primeiro emprego. Estranho, né?

Disse a ele que em dez minutos seria impossível, pois o trânsito estava intenso.

— Pô, piloto! Quero ver tua capacidade, bota uma velô... Ei, pera aí, pera aí, pera aí! Dá um break, mano… Vou ali naquela birosca comprar cigarro.

Mas, ao invés de comprar um maço, o sujeito pegou apenas um cigarro avulso. Assim que voltou ao carro, avisei que, desse jeito, ficaria difícil chegar no horário combinado. Mal terminei de falar, e lá veio ele de novo:

— Pára, pára, pára! Vamos dar um bonde pra aquele parceiro ali.

O tal parceiro nem quis papo. Acho que já conhecia a peça e sabia que, no fim das contas, sobraria pra ele pagar a corrida.

— Que babaca! Prefere ir a pé… Irmão, dá um tempo ali naquele "pé sujo", tenho que dar um recado para aquele otário ali.

O "otário" era o dono de outro bar.

Enquanto ele entrava, fiquei observando. O cara era muito abusado. Pelo jeito, estava pedindo dinheiro ao dono do bar. E, nisso, mais de meia hora já tinha se passado. Ainda queria que eu chegasse em dez minutos!

Quando voltou, reclamei que, desse jeito, não daria. Ele pedia para parar toda hora.

— Então o negócio é relaxar… Vou acender um cigarrinho — disse ele, tranquilão.

Tive que chamá-lo à atenção, pois o ar-condicionado estava ligado.

— Foi mal, coroa! Não precisa esculachar!

Eu já estava sacando a situação… O sujeito não conseguiu nenhum otário pra pagar a corrida, possivelmente tentou pedir dinheiro ao dono do último bar e também não teve sucesso. Agora estava inquieto, coçando-se, conferindo os bolsos, pigarreando.

Tive que perguntar:

— Tá com algum problema?

Ele respondeu, despreocupado:

— Até o momento, não.

Não entendi direito, mas segui dirigindo.

Depois de um tempão rodando, chegamos ao destino — com duas horas de atraso. Ele pediu que eu esperasse enquanto ia falar com um senhor sentado num banquinho.

Fiquei de olho. Vi os dois gesticulando, apontando os dedos um para o outro, e, de vez em quando, o sujeito apontava para o meu carro.

O tempo passou… e nada dele voltar.

Foi quando percebi, o cara tinha sumido!

Desci do carro e fui até o senhor para perguntar por ele. O velhinho, segurando um bloquinho, respondeu:

— Hoje seria o primeiro dia de trabalho daquele rapaz aqui, como ajudante. Mas o safado nem começou e já estava me pedindo adiantamento! Chegou com duas horas de atraso, filou cigarro, apontou para o seu carro e disse que o senhor pagaria o jogo do bicho que ele fez! Ainda veio falar um monte de gírias, sei lá… não entendi nada. Então, mandei-o embora.

Foi aí que entendi…

O otário era eu.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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