A Farmácia-Boteco do Seu Joaquim
O boteco do Seu Joaquim era um verdadeiro "centro de soluções". Tinha de tudo, desde farinha até melado. Mas o forte mesmo era a "farmácia" de bebidas.
— Seu Joaquim, estou com uma diarreia que está um horror!
— Tome uma genebra, meu bom senhor.
— Seu Joaquim, por favor, tem aquele remédio pra resfriado?
— É comigo mesmo! Vou fazer um coquetel e logo você estará curado.
— Seu Joaquim, eu queria aquele remedinho pra dor de cabeça...
— Amigo, não enlouqueça! Agora tenho um à base de ervas... O nome é "paratudo". É só acrescentar uma cachacinha que sua cabecinha nunca mais vai doer.
No balcão do Seu Joaquim, cada problema tinha uma solução "medicinal":
Licor de menta para rouquidão.
Licor de mel para expectorar.
Jurubeba para o fígado.
E um cardápio inteiro de milagres alcoólicos.
Até que, certa noite, um freguês entrou aflito.
— Seu Joaquim, preciso falar com o senhor a sós!
— Pois não, amigo. Está com algum problema?
— Sim... Eu... Pifei.
— Pifou? Como assim? Desmaiou? Ah, mas eu tenho um remé...
— NÃO! Não é isso! Pifei... na cama, com minha amada.
— Ahhh! Mas por que não disse logo, homem?! Tome uma catuaba!
A fama dos "remédios" do Seu Joaquim crescia tanto que sua esposa, Dona Carmelita, já estava preocupada.
— Joaquim, já falei pra você parar com isso! Um dia, vai ter problema. Você não é médico!
— Problema? Que nada, mulher! Eu só dou a eles o que mais querem: bebida!
Nesse instante, um freguês interrompeu.
— Desculpe atrapalhar o papo, mas estou enjoado e com uma ressaca sem fim. Acho que vou tomar uma água tônica...
— Água tônica?! Tá maluco?! Não sabe que pra curar ressaca tem que tomar outra pra rebater? Vou abrir uma cervejinha pro senhor!
Mas, um dia, a "farmácia-boteco" do Seu Joaquim não abriu. Os fregueses, sem opção, foram ao bar do concorrente.
— O boteco do Seu Joaquim não abriu hoje... O que será que aconteceu?
— Ouvi dizer que ele passou mal e foi ao médico.
— Logo hoje que minha pressão caiu! Precisava tanto de um remedinho daqueles...
O dono do outro bar aproveitou pra alfinetar.
— Vocês não enxergam que esse cara é um charlatão? Se ele passou mal, por que não tomou dos próprios remédios?
— Verdade! Outro dia ele me receitou catuaba, dizendo que minha esposa ia ficar encantada... Me deu foi uma dor de barriga danada!
— Ah, ele me paga!
Na manhã seguinte, antes de Seu Joaquim abrir o boteco, os fregueses já estavam todos esperando na porta. Dona Carmelita espiou pelo basculante e estranhou.
— Joaquim, tô achando esquisito... Tem um bando de gente esperando. Nunca aconteceu isso.
— Mulher, esqueceu que não abrimos ontem? Estão todos sedentos!
Quando abriu a porta, os fregueses entraram em silêncio, encarando Seu Joaquim.
— Seu Joaquim, por que não abriu ontem?
— Passei mal, homem!
— E por que não tomou um dos seus remédios?
— Ué, já falei, passei mal!
— Mas o senhor sempre diz que suas bebidas curam tudo…
— Eu... é... Bom...eu não bebo.
— O senhor não bebe, né?
O silêncio tomou conta do boteco. Um dos fregueses estalou os dedos.
— Pessoal... Vamos dar um jeito nisso!
Antes que Seu Joaquim pudesse reagir, enfiaram-lhe pela goela todos os tipos de "remédios" que ele vendia. Licor de menta, jurubeba, catuaba... Tudo misturado!
Uma semana depois, o bar do concorrente estava lotado. Curioso, o dono perguntou a um freguês:
— Depois daquele dia, o Seu Joaquim nunca mais abriu o boteco. O que vocês fizeram com ele?
O homem deu de ombros.
— Ah, ele deve estar até hoje de ressaca.
— Mas ele não bebe!
— Pois é... Agora, nem remédio líquido ele aceita. Dizem que vomitou quando Dona Carmelita tentou dar um xarope pra tosse.
O dono do bar riu.
— Bem feito! Agora sim ele sabe o efeito dos próprios "remédios"!

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