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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

PISCA-PISCA SEM VERGONHA







Pisca, Pisca Sem Vergonha

Numa cidadezinha do interior, dona Ambrosina Alcoviteira da Silva, uma fofoqueira de carteirinha, andava intrigada. Ela havia notado que, pelo menos uma vez por semana, ao anoitecer, as luzes do sobradinho em frente à sua casa piscavam sem parar.

Curiosa, chamou a vizinha:

Esmeraldina, você já reparou que as luzes do sobrado do seu Anacleto piscam toda semana?

Dona Esmeraldina Tarada Duarte, que não ficava atrás em matéria de fuçar a vida alheia, arregalou os olhos:

Ué, amiga, nunca notei... Quem é seu Anacleto?

Como assim, Esmeraldina?! Você sabe da vida de todo mundo e não conhece o seu Anacleto Caído Pinto?!

Ahhh, lembrei! É aquele velhinho de cavanhaque branco, barriguinha de chope e canelinhas finas... Ai, adoro! Sabe, noutro dia ele me deu carona.

Ambrosina estranhou:

Carona? Mas ele não tem carro!

Bicicleta, amiga! Peguei carona na garupa daquela linda bicicleta azul. Fiquei agarradinha... Ai, ai... Eu só o chamo de "meu Rasputim".

Ambrosina revirou os olhos.

Essa velha tá caduca...

E saiu, deixando Esmeraldina suspirando à toa.

Mais tarde, toda arrumada, de sainha curta e taça de vinho na mão, Esmeraldina foi até a janela. Assim que as luzes do sobrado piscaram, ela piscou as suas de volta e saiu apressada, levando a garrafa de vinho.

Só tinha um detalhe: a esposa de Anacleto não foi à igreja naquela noite. O sobrado piscava porque a fiação estava ruim, e os disjuntores desarmavam o tempo todo.

No meio desse pisca-pisca, Esmeraldina entrou na casa de fininho, certa de que a noite prometia...

Enquanto isso, na cozinha, no escuro e cercados por velas, Anacleto tentava consertar os disjuntores. Sua esposa farejou o ar e sussurrou:

Velho... Sinto um cheiro estranho. É um misto de flores de cemitério com vela derretida... Que coisa horrível! Tô com um mau pressentimento.

No exato momento em que Anacleto religou a luz, Esmeraldina invadiu a cozinha, só de calcinha, peito encostado no umbigo e garrafa de vinho na mão:

Cletinho, meu Rasputim! Vem que eu sou toda sua...

Anacleto, pálido. A esposa, arregalada. O silêncio pairou por meio segundo.

Depois... gritaria, pancadaria, garrafada, vela voando pra todo lado.

Na manhã seguinte, no hospital da cidade, as enfermeiras comentavam:

Você viu aquele casal de velhos que deu entrada ontem? A mulher, cabeça quebrada, toda suja de vinho e fedendo a perfume barato. O homem, cheio de escoriações... E ainda tava entalado com uma vela!

A outra enfermeira riu:

Vi! Mas sabe o que achei mais estranho? Os dois estão na mesma enfermaria... e ficam apertando os interruptores da cama um pro outro, piscando e rindo como dois malucos!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


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