Era véspera de feriado, pleno verão, um calor escaldante, nem o ar condicionado do carro dava vazão. Tinha acabado de chegar ao ponto, quando um colega pediu-me que levasse um passageiro que acabara de ligar. Alegou que seu carro era pequeno... Então, passou-me o endereço e me desejou boa sorte.
Como meu carro tinha um bom porta malas, fui com maior prazer, achando que tratava-se só de algumas bagagens. Fui também pensando que pudesse ser uma ótima corrida, do tipo, aeroporto ou até mesmo uma viagem para Região dos Lagos por exemplo.
Chegando ao local avistei um cara não muito grande, mas com uma barriga enorme, num bar ao lado do endereço prescrito. O sujeito estava em pé com um copo de cachaça na mão e portava uma bolsa em baixo do braço com uma mala aos seus pés. Sem saber de nada, saí do taxi e fui tocar a campainha... Quando de repente, saiu um cara enorme de dentro da casa, com uma quantidade enorme de malas e foi dizendo logo que queriam ir para a rodoviária.
Disse a ele que talvez o carro não desse e que seria melhor chamarmos outro taxi para ajudar... nem que fosse só para levar as bagagens. Foi quando o sujeito, muito zangado, disse-me que a pessoa que atendera o telefone, dissera-lhe que iria mandar um carro grande. Portanto ele não queria pagar outro taxi. E ainda acrescentou que o sujeito que estava no bar também iria e pelo caminho ainda teríamos de pegar outra pessoa.
Após arrumarmos o carro com todas aquelas bagagens, onde até no teto do carro tivemos de amarrar bugigangas, conseguimos nos ajustar no interior do veiculo. Apesar de eu ter ficado mais confortado em relação a eles, passei sim por algumas dificuldades.
Saí dali muito revoltado, principalmente com o colega que me passou a corrida e não me avisou nada. Com os outros dois taxistas também estavam parados à minha frente no ponto. Ficaram todos na "surdina", fizeram "Ouvidos de mercador", ficaram na "moita". "Mui amigos", todos eles...
O taxi saiu abarrotado, pior era a catinga que vinha do sovaco do grandão. Além disso, aquele outro homem que estava em pé no bar também estava com um bafo de cana horroroso. Mais parecia um alambique, ruim de suportar. Para completar arrotava o tempo todo soltando aquele vapor terrível.
Minha preocupação naquele momento era em relação a outra pessoa que ainda iríamos pegar. Se ela fosse grande também não iria caber mesmo. Eu teria de tomar uma decisão, até porque, eu poderia levar uma multa ou mesmo o táxi sair com alguma avaria.
Chegando ao local, apareceu um magrinho todo perfumado. Pensei que estivesse no endereço errado, mas o grandão falou:
- Ôh...Cremilson! Cadê as malas?
- Pra que malas, se nós vamos ficar fora só três dias? Estou levando só essa mochila. - disse o magrinho.
Fiquei com pena do carinha, quando ele entrou no carro ficou esmagado, sumiu entre as bagagens.
Se meu estômago já estava embrulhado eu imaginava o do magrinho que estava coladinho a eles e com a cara no sovaco do "grandão metido". Os cheiros estavam se misturando. O perfume do pequeno, o aroma das axilas do grandão e o bafo de cana do pinguço. Foi um tremendo sufoco, porque haviam me pedido pra ligar o ar condicionado, o carro encontra-se todo fechado.
Até que não aguentei e disse-lhes que, por causa do peso, teria de desligar o ar para que o carro pudesse desenvolver mais, e automaticamente teria de abrir os vidros. O menorzinho gostou da ideia, mas o grandão não gostou, e falou:
- Pô, motorista, vai ficar um calor danado aqui dentro.
- Amigo se eu não desligar o ar esse carro não vai andar. Vamos com ar natural, mesmo. - disse a ele.
- Além do mais está um fedor danado aqui, acho que alguém pisou na merda. - disse o magrinho.
- Ihhh, foi eu quem pisou! - disse meio sem graça o pé de cana que estava caladinho.
Até então não havia sentido aquele novo cheiro, mas aproveitei o ensejo e parei o carro rapidinho, quase vomitando, e disse para ele olhar e ver se não havia sujado o tapete do taxi.
Foi quando o "grandão folgado", falou:
- Ele não tem obrigação de olhar se teu carro está sujo, não.
- Eu é que não tenho, amigo! Se eu abaixar a cabeça pra ver coco, vou acabar vomitando. - disse a ele.
Após aquela confusão, o "pé de cana" esfregou o pé na grama, mas aquela mistura de aromas fedorentos continuava.
Foi aí que peguei uma subida, o carro não aguentou e começou a pipocar, já estava com cheiro muito forte de queimado e começou a sair fumaça do motor. Nunca senti tanto prazer em ver meu carro enguiçado. Então, disse a eles que era final de linha porque o carro havia enguiçado.
Ficamos a pé na ladeira, tive de descer para chamar o reboque pelo telefone público que acabara de passar e eles tiveram de subir com aquelas malas por que ali era meio deserto e dificilmente passaria outro taxi.
Fim
ALEXANDRE M. BRITO

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