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segunda-feira, 18 de abril de 2022

UM DIA PARA NÃO SER LEMBRADO. Comigo no taxi



Um Dia Para Não Ser Lembrado

Sabe aquele dia que você não deveria sair de casa porque tudo dá errado? Pois é, vou contar o que me aconteceu...

Saí com minha esposa para nosso trajeto de sempre: levá-la ao trabalho e depois seguir com o táxi. Mas, de repente, o pneu furou.

Parei num posto de combustível para trocá-lo. O calor estava infernal, suei tanto que meus óculos embaçaram. Tirei e coloquei em cima do carro.

Depois da troca, saímos apressados porque minha esposa já estava atrasada.

Ao chegar à firma dela. Foi aí que perguntei pelos meus óculos.

— Ué! Você não pegou? — perguntou ela.

— Claro que não! Pensei que você ia pegar.

— Como assim?! O óculos é seu, a responsabilidade é sua!

Ficamos naquele jogo de empurra, e ainda levei bronca. Mas eu estava decidido a voltar para procurá-lo.

Ela tentou me convencer do contrário:

— A essa altura, já passaram por cima com o carro.

Não sei como, mas mulher tem um sexto sentido...

Mesmo assim, fui. Perguntei ao frentista do posto, ele não viu nada. Vasculhei o chão, nada dos óculos.

Voltei para o carro e saí dirigindo devagar, olhos fixos no asfalto, com esperança de achá-los. Foi quando entrei numa rua à direita e...

"PIIIIIIIIIIIIIIIII!"

Olhei pelo retrovisor. Um guarda de trânsito gesticulava furiosamente.

Só então percebi que tinha entrado na contramão! Até o dia anterior, aquela rua não era contramão... mas agora era.

E para piorar, vinha um ônibus na minha direção!

Sem pensar duas vezes, entrei na primeira rua à direita para sair logo da infração.

Parei o carro e fui tentar conversar com o policial. De cara, levei um sermão. Expliquei tudo o que tinha acontecido. Claro, ele não acreditou.

Olhou para um camelô e riu:

— O que as pessoas não inventam para escapar de multa, hein?

— Mas, seu guarda, eu juro! Eu não sabia da mudança da rua... Será que não dá para quebrar o galho? Tô cheio de pontos na carteira, isso vai me prejudicar...

Ele foi direto:

— Não dá. E não foi uma multa só, foram duas.

— Duas?!

— Essa outra rua que você dobrou também é contramão. Mas... a gente pode conversar.

"Aí tem...", pensei.

Tava na cara que ele queria propina. Mas e se eu falasse em dinheiro e ele não fosse corrupto? Eu que ia preso, né?!

Não precisou de muito suspense. Ele foi direto ao ponto:

— Faz uma doação aí... duzentão.

Sou contra a corrupção, mas naquele momento, se não chegasse a um acordo, ia me ferrar por causa da pontuação. Tentei negociar:

— Seu guarda, duzentos é muito... ainda nem peguei passageiro! Só tenho trinta reais...

Ele riu.

— Tá maluco?! Eu ainda tenho que dividir com um batalhão inteiro!

Acabamos fechando em cem reais. Mas quando perguntei que garantia eu tinha de que as multas não chegariam, ele se ofendeu:

— Você está desconfiando de uma autoridade?!

— Claro que não, doutor! Jamais "desconfiaria" do senhor...

Tive que ir ao banco sacar o dinheiro. Minha conta já estava negativa, então entrei no cheque especial. O que eu poderia fazer? Não tinha outro jeito.

Quando voltei, o oficial apertou minha mão e disse:

— Pode contar comigo pra qualquer coisa! Estou sempre por aqui.

O que o dinheiro não faz, né? Agora eu era “amigo” do cara...

Depois disso, desisti do dia. Já estava desanimado e com medo de mais imprevistos.

Afinal, em poucas horas:

✔ Furei um pneu.
✔ Perdi os óculos.
✔ Avancei dois sinais.
✔ Entrei na contramão.
✔ Fui achacado por um guarda.
✔ E ainda saí devendo juros bancário.

Mas tudo bem... como dizem: dos males, o menor.

Pelo menos, meu "amigo" foi bonzinho. Imagina se, além das multas, ele ainda resolvesse me multar por estar dirigindo sem óculos.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 





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