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sexta-feira, 15 de abril de 2022

COMER DEMAIS, DÁ NISSO...


Comer Demais Dá Nisso

Aristeu era um homem guloso. Não conseguia ficar longe da geladeira. A cada cinco minutos, lá estava ele, abrindo a porta, como se esperasse que algo novo surgisse ali.

O resultado? Estava sempre passando mal.

— Tô com uma azia danada, Gertrudes... Vai na farmácia comprar um antiácido. Tô cuspindo fogo que nem um dragão!

A esposa, já acostumada com os exageros dele, cruzou os braços:

— Você come muito, homem! Olha essa barriga... Parece um barril. Depois da feijoada do almoço, já beliscou um monte de coisas. Lanchar dez vezes num dia não é normal!

— Para de falar, mulher! Vai logo!

Antes de sair, Gertrudes avisou que ia demorar, pois passaria na padaria e faria umas compras.

— Então pega mais dinheiro e compra uns dez pãezinhos, trezentos gramas de mortadela e meia dúzia de latinhas de cerveja...

Ela suspirou, balançando a cabeça.

— Vai, esganado! O peixe morre pela boca.

Assim que a mulher saiu, Aristeu quase entrou dentro da geladeira. Comia tudo o que via pela frente, murmurando sozinho:

— Esse pudinzinho não tem problema, né? Tem leite, deve ser bom para o estômago...

— Hum... esse sorvetinho aqui também parece ótimo...

— E já que estou aqui... vou provar essa gelatina também.

Depois do banquete, caiu no chão da sala e dormiu como um anjo. Mas roncava como um porco.

Astolfo, o cachorro da casa, dormia ao lado do dono. Quando Gertrudes chegou, o bichinho fez aquela festa, mas logo voltou para junto do dorminhoco e começou a lamber o rosto dele, tentando acordá-lo.

— Para com isso, cachorro! — ralhou Gertrudes. — Pelo menos dormindo ele não come e não sente azia.

Passando cuidadosamente por cima do marido, foi até a geladeira pegar um copo d'água. Mas, ao abrir a porta, levou um susto.

Ai, pelamordedeus! O danado comeu toda a sobremesa! E eu ainda fui burra de comprar remédio pra ele!

O grito da esposa despertou o glutão.

— Hum... ai... além da azia, tô com uma dor de estômago horrível! Gertruuudes, eu vou morrer... Cadê o remédio?!

Escuta aqui, seu safado! Você comeu a sobremesa que eu fiz pro almoço de amanhã! Sendo assim... vai ficar sem remédio!

— Gertruuudes, eu tô morrendo! Me dá o remédio!

Mas Gertrudes estava uma fera. No dia seguinte, sua mãe viria almoçar, e agora teria que refazer a sobremesa do zero.

Foi até o mercado bufando.

— Seu Manuel, põe essa lista de compras na conta do Aristeu. Ele que pague!

O atendente franziu a testa.

— Ué, a senhora já não comprou tudo isso ontem?

Gertrudes arregalou os olhos.

Verdade! Ainda bem que o senhor me lembrou... Faltou o laxante! Vou passar na farmácia.

— Mas não foi isso que perguntei...

— Deixa pra lá, seu Manuel.

No dia seguinte...

Com a chegada da mãe de Gertrudes, foi aquela festa.

Minha filha! — A senhora agarrou e beijou a filha com carinho.

Astolfo sacudia o rabinho e pulava no colo da dona. Mas Aristeu... nada.

— Ué, tô sentindo falta de alguém... Cadê meu genrinho querido? Trouxe uma caixa de bombons pra ele!

Gertrudes sorriu de canto.

— Mamãe... seu genrinho hoje não acordou bem. Acho que bombom é a última coisa que ele vai querer.

O tempo passou. Conversaram, almoçaram... e Aristeu continuava sumido.

A sogra começou a se preocupar.

— Filha, tem algo errado... O Aristeu sem fome? Nem apareceu pra me dar um beijo? Será que ele está passando mal?

— Deixa ele, mamãe. Tá ótimo!

Foi quando um grito desesperado ecoou da casa.

GERTRUUUUDES, ACABOU O PAPEL!!!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


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