Um sujeito bem-apessoado entrou no meu táxi. Usava óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro, além de camisa e calça social. Assim que sentou, pediu:
— Me leva até uma sáuna.
Chegamos ao local, e ele disse para esperá-lo, que não demoraria.
Meia hora depois, voltou com um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se a festa tinha sido boa. Ele balançou a cabeça negativamente e respondeu:
— Não rolou nada com mulher.
— Ué! Então foi com homem? Isso é sáuna gay? — perguntei.
— Tá maluco? Eu gosto é de molhar o biscoito, não de queimar a rosca!
O cara era brincalhão, mas tinha umas piadas sem graça. Olhou para mim e perguntou:
— Você também gosta da fruta, ou é a própria fruta?
Respondi rápido:
— Gosto da fruta...
— Então vou te dar uma banana! — disse ele, rindo.
Fiquei meio sem graça, mas resolvi não dar trela. Depois, minha curiosidade falou mais alto, e perguntei:
— Não entendi... Você foi num lugar desses, demorou meia hora e não pegou nenhuma mulher?
— Mulheres eu tenho aos montes, é só estalar os dedos. Não preciso ir num lugar desses para isso.
O sujeito também era cheio de si...
— Bom, então é melhor mudar de assunto. Pra onde vamos agora? — perguntei.
— Toca pra Zona Sul.
Chegando ao destino, ele apontou para um bingo clandestino.
— Espera aí, vou ali rapidinho.
— Sabe que bingo é proibido, né? Esse aí é clandestino.
— Você parece meu pai, me dando conselho!
O tempo passou, ele não voltava, e eu acabei cochilando no carro. Foi quando levei um tapa na cabeça. Era o engraçadinho de volta.
— Você é abusado, hein! — reclamei.
Dessa vez, ele entrou calado. Como minha curiosidade era grande, perguntei:
— O que houve? Perdeu tudo no bingo?
— Toca pra frente, piloto! E para de fazer pergunta besta.
Voltamos para a Zona Norte. Ele pediu que eu parasse em frente a um prédio.
— Vai demorar? — perguntei.
— Acho que não, mas se eu demorar, o taxímetro não tá ligado? — respondeu com grosseria.
Fiquei preocupado. Se ele tivesse perdido todo o dinheiro no bingo, não teria como me pagar. E a corrida já estava cara, afinal, eu rodava com ele havia mais de quatro horas.
Passaram-se vinte minutos. De repente, ele veio correndo feito um louco.
— Anda, anda! Sai daqui agora!
— O que houve?
Antes que ele respondesse, um vaso pequeno de plantas voou da janela e acertou o capô do carro.
Saí cantando pneu, sem entender nada. Ainda nervoso, perguntei:
— Quem vai pagar esse prejuízo?
Ofegante, ele só dizia:
— Eu pago, eu pago...
Pegou o celular e tentou várias ligações, sem sucesso.
— Merda de celular! Quando mais se precisa, não funciona...
Ofereci o meu, mas ele recusou.
— Não precisa. Já estamos chegando.
Entramos num estacionamento. Ele saiu do carro e entrou num galpão. Como de costume, fiquei esperando. Logo, ouvi uns gritos e barulhos de discussão. Minutos depois, ele veio disparado de novo.
— Pelo amor de Deus, pisa fundo! Sai daqui agora!
Dessa vez, nem tive tempo de ficar curioso. O barulho de tiros me fez acelerar sem olhar pra trás.
— Isso foi tiro?! — perguntei, assustado.
— Você ainda acha??? Depois te explico!
— Parei contigo! Não vou mais a lugar nenhum! Faz favor de me pagar AGORA!
— Acelera isso aí! O cara tá vindo atrás da gente!
Corri que nem um louco, mas olhava pelo retrovisor e não via ninguém.
— Sabe o que eu acho? Você tá paranoico! Não tem carro nenhum atrás!
— Não para não! Se parar, ele me mata!
— Olha aqui, vou parar sim! Se vira e me paga logo essa corrida!
O falastrão devia estar com a cueca toda suja de medo... e também sem um centavo.
— Vamos voltar pra Zona Sul! Vou no meu banco sacar o dinheiro. Fica do lado daquele bingo...
— Cara, você é um 171! Você vai querer entrar naquele bingo de novo! Chega! Nós vamos é pra delegacia!
Depois do sufoco, resolvi ir pra casa. Só que, ao chegar, me deparei com a patroa toda arrumada, me esperando.
— Ué, vai sair? — perguntei.
— Seu cretino! Não vou mais sair coisa nenhuma! Você esqueceu que marcamos de ir fazer compras? Olha a hora que você chega!
— Amor, eu posso explicar...
— Explicar o quê?! Tá sempre dizendo que não tem dinheiro, mas anda comprando um monte de coisa pra você. Ou tá ganhando presentinho de outra mulher?
Pois é... levei uma bronca enorme. Antes tivesse ido para a delegacia com aquele sujeito! Pelo menos teria uma desculpa.
E o pior... depois de tudo, acabei pegando e usando alguns dos "pertences" do meu passageiro, já que ele não pagou a corrida: óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro.
Só que, no dia seguinte, descobri que era tudo falso.


