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sexta-feira, 7 de março de 2025

ARISTEU E SUA ALMA GÊMEA

Era uma sexta feira à noite, Aristeu estava em casa sozinho, sua esposa havia viajado. Encontrava-se chateado, porque não suporta fazer comida, mas adora comer. Já estava preparando um sanduíche, quando, a campainha tocou. Era Lombriga, seu amigo, cara de pau, que só aparecia quando Gertrudes não estava.
- Aristeu cadê a cerveja, vim tomar uma gelada com você.
- Não tem meu amigo, mas eu saio e compro.
- Já que você vai sair, eu vou também.
- Bem...eu não iria sair, mas você falou na cerveja...
Então o amigo deu a ideia de irem à Lapa tomar umas e outras.
Aristeu que também não dispensa uma, "loura gelada", prontamente aceitou. Pegaram seu carro e partiram.
- Se minha mulher descobrir que fui à Lapa, vai me matar.
- O que tem de mais tomarmos uma cerveja? Além disso, ela te deixou sem o jantar.
- É, mas se ela sabe que fui à Lapa com você vai ser pior ainda.
- Fica frio...não vai ter problema nenhum. A propósito, liguei para o Birigui...vamos pegá-lo.
- O Birigui vai? Não prestou...
- Não só ele, como o Fantão também.
- Estou ferrado!
Chegaram ao local destinado, estava tão cheio de gente, que resolveram ficar ao lado de fora de um bar, encostados numa bancada.
Tomaram cerveja sentindo o aroma da maconha, vendo alguns caras cheirando cocaína e outros caídos pelo chão. É um lugar aonde as pessoas vão se divertir sem limites e rola de tudo um pouco.
Aristeu levou um susto, quando olhou para o lado e viu dois homens se beijando. Ficou estático e todos olharam.
- O que é aquilo? Dois caras se beijando...
- E estão de mãos dadas. – disse Lombriga.
- Que pouca vergonha...eles merecem levar uma coça. – disse Fantão.
- Tu só pensas em bater, hein! – Birigui.
- Acho que estou ficando velho, porque ainda não me acostumei com essas modernidades. – Aristeu.
Continuaram a beber...Aristeu ainda pediu uma caipirinha.
- Vai ficar de pileque, hein!
Beberam muito...Aristeu, mais ainda, inclusive fez uma misturada danada de bebida e ficou de porre
Mais tarde, quando já estavam se preparando para irem embora, houve uma briga generalizada, o pau quebrou pra todos os lados.
- É melhor irmos embora logo, a chapa está esquentando, daqui a pouco vai chegar a polícia e pode sobrar pra a gente.
- Vamos, mas cadê o Aristeu? Sumiu nessa confusão. – Birigui.
- Será que ele foi pisoteado?
- A última vez que o vi, ele tinha ido ao banheiro.
Então começaram a procurar...rodaram tudo por ali e nada. A briga não parava e voava: cadeira; pau e pedra pra todos os lado.
Após, Lombriga levar uma garrafada; o Fantão levar um "tombo" no meio da rua e quase ser pisoteado e o Birigui levar um soco no olho, acharam Aristeu agarrado com uma mulher.
- Aquele cara não é ele?
- Onde?
- Aquele que está atrás da árvore com uma mulher.
- É ele...o safado se deu bem, não sei como conseguiu. Já estava falando enrolado de tão bêbado.
- A mulher pra ficar com ele nesse estado deve estar de porre também.
Foram resgatá-lo, porque estavam em um só carro e dependiam de sua carona pra voltar. Também o estado etílico de Aristeu não era dos melhores, ficaria muito perigoso deixar ele ir embora sozinho. Chegaram perto, quando levaram aquele susto.
- Nossa! O que é isso? – falou Lombriga apavorado.
- Cara, você está maluco? – disse Fantão.
- Aristeu a gente passando um sufoco danado. Estou aqui com o olho roxo, o Lombriga está com a cabeça quebrada e você aí...com essa Menina de tromba!? Nessa hora podíamos estar num hospital, sabia? – falou Birigui.
- Menina de tron...Tron... Menina de tromba? O que é isso!? Respeitem a moça. – falou Aristeu.
- Você esta de porre, seu Fanfarrão! – disse Fantão.
Naquele momento ficaram com medo de Fantão agredi-lo. Ele é muito estourado e violento. Então...decidiram arrastar Aristeu na marra, porque decididamente ele não queria ir embora.
- Você merece uma surra, seu depravado! Lombriga...pega a chave do carro, esse cara não vai mais dirigir, não. – falou Fantão.
Quando chegaram ao carro encontraram duas mulheres encostadas...também se beijando.
- Infelizmente vou atrapalhar vocês, terei de sair com o carro. – falou Lombriga.
- Elaaas te deeeram mooole, estão ri... ri...rindo pra você. Vaaamos arrastar essas du...duas também. – falou o Aristeu muito doido.
- Aristeu, o que você tem pra dar, elas não gostam. - disse Lombriga.
Logo após, ele começou a chorar.
- Vocês me puxaaaram e não de...de...deu nem tempo de pe...pegar o telefone daqueeela linda mulher. Logo ago...gora que encontreeei minha alma gêmea...
- Você está bêbado, seu tarado! Aquilo não era mulher, além do mais, você é casado com Gertrudes. Esqueceu?
- Gertruuudes! Quem é Gertruuudes?
Entraram no carro e as mulheres se afastaram, mas continuaram a se beijar e a se alisar.
- Vamos, tenho de ir. – disse Lombriga.
- Se você an...andar com esse carro eu te maaaato, eu quero ver aquela cena. – falou Aristeu.
- Pode andar com o carro, Lombriga. Você vai entrar na onda do Aristeu? Ele está muito bêbado. - falou Fantão.
- Estou tremendo até agora. Como vou explicar pra minha mulher, esse olho roxo. – dizia Birigui.
- Esquece isso...pior foi eu, que levei com aquela garrafa na cabeça. - falou Lombriga.
- E o tombo que levei? Aí...vamos dar uma coça no Aristeu aqui dentro. – falou Fantão brincando.
- Esse safado só fez besteira...desapareceu, depois beijou o travesti... – criticou Birigui.
- Mas eu po...posso dizer que arranjei uma Mina e vocês... não.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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SE MEU FUSCA FALASSE.


  


Quando comecei na praça, não tinha dinheiro para comprar um carro novo. O que eu tinha dava para comprar apenas a "autonomia ou a licença" para ser taxista... e um fusca bem velho. O carro era tão velho, mas tão velho, que só vivia enguiçado. Se meu fusca falasse, só teria histórias tristes para contar.

O carro tinha um buraco no assoalho que me causava muitos aborrecimentos. Certa vez, um passageiro enfiou o pé ali e, muito revoltado, saiu ameaçando me denunciar e não me pagou pela corrida. Fora as senhoras de sandálias, que cortaram os pés ao entrar.

- E se eu pegar um tétano? — perguntou uma delas, em tom de ameaça.
A culpa era delas, que arrastavam o tapete que eu coloquei para cobrir o buraco. Mas, continuando...

Quando eu passava a quarta marcha, tinha que ficar segurando o câmbio, senão ele escapulia. Para piorar, se pegasse um buraco ou passasse numa trepidação do asfalto, as portas se abriam. Eu não sabia se segurava o câmbio ou as portas — dependia da próxima curva. Às vezes, tinha que reduzir a marcha e segurar as portas, para evitar que elas se escancarassem.

- Carro de doido — disse um passageiro, rindo.

O automóvel era tão barulhento que parecia uma bateria de escola de samba. Quase todos os dias, eu tinha que sair de casa empurrado por causa de problemas no arranque ou na bateria fraca.

A maioria dos passageiros o rejeitava. Mulheres bonitas, nem pensar. Quanto aos que me restavam, a grande maioria era para subir os morros do Rio de Janeiro. Alguns porque saíam do mercado com sacolas de compras, outros porque eram viciados querendo comprar drogas. Eles normalmente não me diziam para onde queriam ir, mas sim o trajeto. Quando percebia, já estava subindo morro acima.

- Amigo, faz favor, dobra a segunda à esquerda e depois a primeira à direita. É uma pequena subida, não tem problema nenhum...

Era o que sobrou para mim, porque os taxistas com "carrões" não queriam levá-los.

Uma das poucas passageiras bonitas que peguei deu um grito tão forte e me disse que um rato havia passado em seus pés. Coitada, ficou desesperada. Chegando em casa, botei veneno para o rato, e o desgraçado foi morrer justamente numa parte do carro que ninguém conseguia alcançar. Só sentíamos o mau cheiro. Tive que ficar uns quinze dias sem trabalhar, porque fedia demais e todos os passageiros reclamavam.

Depois que o cheiro melhorou, voltei à labuta. Peguei outro passageiro, que estava sem camisa e com a cara muito estranha. Ele disse que precisava pegar a mãe no hospital. Claro, levei. Passageiro escasso é passageiro aproveitado.

Ele pediu para parar em frente a uma farmácia, esperando umas pessoas. Aguardei alguns minutos, quando, de repente, vieram dois caras correndo e pediram para eu sair dali. Saí cantando pneu. Um pouco mais à frente, numa rua cheia de quebra-molas, tive que diminuir a velocidade. O cara da frente se apavorou e puxou uma arma. Em resumo, eles haviam assaltado a farmácia e eu, sem querer, virei piloto de fuga. Pelo menos, pagaram a corrida e ainda disseram que eu fiz tudo direitinho, por isso merecia uma "merendinha". Não quiseram o troco! Do jeito que eu estava apavorado, nem queria aceitar o pagamento, mas eles "fizeram questão de pagar"... eram ladrões honestos!

Saí dali tremendo que nem vara verde, prometendo nunca mais andar com aquele maldito carro azarado. Mas estava duro que nem "coco" e sem saber o que fazer, porque a "lata velha" só me causava desgosto. Eu estava traumatizado, mas, sendo teimoso como era, voltei ao trabalho. Foi quando peguei uma família: dois homens, uma mulher e uma criança. Pela conversa deles, logo percebi que não eram boas pessoas. Eles estavam armados e só falavam sobre favela, drogas e armas.

Por sorte, parecia que tinham simpatizado comigo, porque começaram a brincar, dizendo que meu carro estava "caidinho" e que podia desmontar a qualquer momento. Riam à toa. No retrovisor, eu via a criança de joelhos, tentando arrancar o selo de vistoria do taxi, que estava no vidro traseiro. Eu, sem graça de chamar a atenção dela e com medo de algo dar errado, decidi dar um "sustinho" nela, apertando o freio. Ela caiu no chão do carro.

Levei uma bronca tremenda da mãe, que foi defendida por um dos homens, que mandou a mulher se calar. Quando estávamos chegando ao destino, no morro, os caras falavam com várias pessoas, pareciam ser conhecidos de todos na comunidade. Pareciam até candidatos a políticos.

Mais à frente, tomamos um baita susto. Apareceram bandidos apontando armas para a gente. Pois é... eles levaram uma bronca pior que a que eu havia levado. A mulher que me deu bronca era a "Primeira Dama do Morro". Um dos homens no carro era o "Dono do Morro", o chefe dos bandidos.

Eu, quieto, quase me borrando de medo, não falava nada. Chegamos ao pico do morro, e lá estava um monte de malandros armados, com armas cada vez maiores. Os homens me pagaram a corrida com uma boa gorjeta, mas ainda me colocaram uma condição: eu teria que tomar uma cerveja com eles. Eu, que já estava quase me cagando de medo, aceitei. Quem era eu naquele momento para dizer não?


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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PERDIDO EM SÃO PAULO


Gertrudes estava fazendo compras com sua prima pelas ruas de São Paulo, quando, de repente, o telefone tocou:

- Gertruuudes... onde você está?
- Estou na Avenida Paulista. E você, onde está?
- Acabei de sair do metrô. Como faço para chegar aí?
- Sei lá... fala com a Lindalva aqui, ela te explica.

Após meia hora de conversa ao celular, elas desligaram e voltaram às compras.

- Esse teu marido é enrolado, hein! Custa a entender as coisas.
- Você não conhece ele direito. O Aristeu é um caso sério, mas sabe o que mais me irrita nele? Ele é um comilão!
- Prima, ninguém está satisfeito com nada, né? Quem dera que meu marido comesse melhor, ele está tão magrinho.
- Pois é, mas o Aristeu... Sabe o que ele fez no outro dia?... Espera um minuto, o telefone está tocando novamente. Alô, fala Aristeu! O que foi agora?
- Gertrudes, eu estou perdido.
- Olha a placa da rua e vê o nome.
- Ihhh, vim parar na 25 de Março.
- Tu és muito enrolado! Fala com a prima aqui. Como é que ele foi parar na 25 de Março?

Ela explicou, explicou... e mais meia hora ao telefone se passou, porque Aristeu nunca entendia de primeira.

- Agora ele disse que entendeu. Mas, prima, o que você estava dizendo mesmo?
- Ah, eu ia contar o que ele fez noutro dia. Comeu todos os meus bombons e, com medo de eu brigar, colocou uma nota de vinte reais dentro da caixa de bombons, que ainda estava na geladeira, achando que isso ia amenizar minha bronca. Ele é demais!
- Não acredito, prima! E não teve um dia que ele comeu a sobremesa toda que você fez para a titia e depois ficou passando mal?
- Teve... Mas nesse dia, fiquei tão furiosa que coloquei laxante na bebida dele. Ele não almoçou nem com a mamãe porque não saía do banheiro. Mas ele não sabe disso, hein! Coitado, é tão desligado que nem imagina esse meu lado vingativo.
- Você teve coragem de fazer isso, prima?
- Às vezes ele me tira do sério. O telefone está tocando de novo... Alô!!

- Gertrudes, vim parar na estação do metrô de novo. Desisto, vou embora. Aproveito que estou aqui em frente, é só pegar o metrô de volta.

Isso, Aristeu, vai ver televisão na casa da Lindalva, só assim você não enche o saco e desligou.

Ihhhh... Lindalva acho melhor a gente também voltar para casa, porque, mais tarde, quando chegarmos não vai ter comida nenhuma na geladeira, o Glutão vai comer tudo.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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DESPEDIDA DE SOLTEIRO


Faltavam três dias para o casamento e Agripino já estava começando a ficar tenso. Ele, que sempre foi muito tímido, não conseguia parar de pensar no momento em que teria que entrar na igreja e encarar o padre, com toda aquela gente olhando. Conversou com seu amigo Adegesto Pataca sobre o quanto estava nervoso, e mal podia esperar para que aquele dia chegasse e terminasse logo.

Foi quando Adegesto teve a brilhante ideia de sair todas as noites para tomar umas e outras, até o dia do casamento. Ele sugeriu também fazer uma despedida de solteiro com os amigos mais chegados, para aliviar a pressão.

  • Claro! Um pouco de cerveja vai me ajudar a relaxar! – disse Agripino, aceitando a proposta sem pensar duas vezes.

E assim, Agripino começou a beber todos os dias. Afinal, ele estava prestes a se casar, e precisava se acalmar. Quando chegou a véspera do grande dia, Adegesto foi até a casa de Agripino para começar a despedida de solteiro. Juntaram-se aos amigos e partiram para os lugares mais badalados da cidade.

  • Onde vocês estão me levando? Não posso demorar, tenho que fazer um monte de coisas amanhã antes do casamento! – reclamou Agripino, mas sua preocupação logo foi esquecida quando o álcool começou a fazer efeito.

Primeiro, foram para um restaurante, depois para uma boate e, por fim, acabaram numa sáuna. Já tarde da noite, quando todos estavam se preparando para ir embora, Agripino, totalmente embriagado, disse que ficaria mais um pouco.

  • Vamos embora, Agripino, amanhã você tem que acordar cedo! – disse um dos amigos.
  • Daqui a pouco vou, mas olha aquele "avião" me dando mole, vou investir nela! – respondeu Agripino, visivelmente doidão.

Os amigos, preocupados, avisaram que naquele lugar, qualquer mulher daria em cima dele, desde que ele tivesse dinheiro para pagar, e decidiram partir. Mas Agripino, completamente fora de si, decidiu que ficaria e tentaria algo com a mulher que o atraiu.

  • Do jeito que ele está, amanhã não vai casar, não – comentou Adegesto para os amigos.

No dia do casamento, a preocupação começou a tomar conta. A noiva já havia chegado atrasada, o que é normal. O que não é normal é o noivo chegar com atraso, e foi o que aconteceu. Aí...o público começou a comentar.

  • Será que ele não vem? – perguntavam os convidados, uns aos outros.

Adegesto estava muito preocupado. Ele sabia que Agripino havia bebido demais e, a essa altura, se arrependeu de tê-lo deixado sozinho.

  • O cara bebeu muito! Não devia ter deixado ele sozinho naquele lugar... – lamentou Adegesto.
  • Será que ele deu em cima daquela mulher? – perguntou outro amigo.
  • Não acredito, ele é muito tímido para isso. – disse outro.

De repente, Agripino apareceu, dirigindo seu carro, todo amarrotado, andando de maneira estranha, como se estivesse com dificuldades até para caminhar. Ele encontrou os amigos e, com um tom de derrota, falou:

  • Vocês me colocaram numa furada...me deixaram sem dinheiro e acabei de sair da delegacia. Vocês são "mui" amigos.
Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 


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ATRAPALHADOS AO EXTREMO





Atrapalhados ao Extremo

Na vida do crime, havia dois bandidos de alta periculosidade, mas que, para a criançada daquela pequena cidade, eram mais do que uma piada. Os dois costumavam se esconder em uma manilha perto de um esgoto, onde dificilmente alguém se aproximama, pois o cheiro era insuportável.

Bodão, isso aqui hoje está um horror! Acho que vou vomitar — disse Pedrão, um dos bandidos.

— Vai vomitar logo agora que eu ia preparar o nosso lanchinho? — retrucou Bodão.

— Lanchinho? Que lanchinho? Não sei como você consegue comer com esse cheiro!

— Aquele embrulho que nós roubamos do garotinho saindo da padaria, deve ser mortadela. E tem também aquele pão que você surrupiou da garupa da bicicleta daquela menina — falou Bodão.

Bodão, sabe quanto tempo tem isso? Sete dias! Você esqueceu que só hoje conseguimos nos livrar daqueles garotos que nos trancaram no galinheiro da casa da mãe de um deles?

— É mesmo… Por isso você está passando mal. Está todo cagado! Quem mandou dormir embaixo do poleiro das galinhas? Nem galinha a gente consegue roubar mais, Pedrão!

— Raios de moleques! Eu vou enforcar um por um — disse Pedrão.

— Você não consegue matar nem uma barata. É todo atrapalhado!

— Olha como fala, hein! E você que é um tremendo de um azarado, tudo o que rouba dá errado.

— Cala essa boca e vamos comer. O pão está um pouquinho duro, mas dá para comer. Abre logo esse embrulho — falou Bodão.

Pedrão abriu o embrulho devagarzinho, parecia adivinhar que algo estava errado.

— Ah… Pelo amor de Deus! Agora vou vomitar — e jogou o pacote longe.

— O que foi, Pedrão, que catinga é essa?

— Seu desgraçado! Eu te falei, tudo o que você rouba dá errado. Aquilo era um rato podre!

Rato!? Aquela pestinha vai me pagar!

Bodão, estamos sem moral nesse bairro. Nem um pirulito a gente consegue roubar mais... Acho que vou me aposentar.

Na realidade, essa dupla era de alta periculosidade em relação a eles mesmos, tudo dava errado devido as suas extremas atrapalhadas, corriam risco a todo instante.

Pedrão, você está ficando amarelo... Ih, acho que ele desmaiou… Ou deve estar dormindo? Bem, de qualquer forma, vou deixar ele descansar, tem andado muito nervoso ultimamente. Vou aproveitar e fazer um ganho para podermos jantar hoje. Afinal, ninguém é de ferro, não é? Já tem tempo que não janto.

Bodão saiu da manilha e foi para a porta de um colégio próximo esperar uma vítima para dar o bote. Foi quando apareceu uma menina de aproximadamente quinze anos, andando em sua direção.

— Essa vai ser uma presa fácil... Vou pegar o celular e a mochila dela. Pode ser também que tenha algum dinheiro ou alguma merenda — pensou Bodão.

Bodão colocou as mãos para trás e disse para a menina que estava armado e mandou que o entregasse tudo. Porém, o que ele não sabia era que sua sorte estava prestes a mudar. Como seu amigo já tinha avisado, ele era um tremendo azarado.

Naquele momento, apareceu uma patrulha… mas não era qualquer patrulha! Era a patrulha dos garotos insanos do colégio, que já estavam à procura de Bodão. Armados com ovos, tomates podres e tintas velhas, deram-lhe um tremendo flagrante e o rodearam.

Coitado de Bodão!

Quando Pedrão acordou, sentiu falta de seu parceiro e, como estava com muita fome, saiu para "trabalhar". Avistou um garotinho sozinho com uma sacola na mão. Sem pensar muito, saiu correndo em sua direção, atravessou a rua… e foi atropelado.

Coitado do Pedrão!

Mais tarde, no hospital:

Oi, Pedrão... Você por aqui também?!

— É, amigo, pelo menos aqui temos o que comer, não é verdade?

— E o mais importante, aqui aqueles pestinhas não aparecem.

— A enfermeira já me deu até um banho, porque não consigo me mexer. Tudo dói...

— Só assim você toma banho... Mas já era hora, não é, amigo? Você estava muito fedorento!

O que eles não esperavam é que lá fora já tinha um grupo de garotos planejando como invadir o hospital e jogar pó de mico em suas camas.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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BEIJO DOCE E A TRAVESSURA DE BICHANO

Beijo Doce e a Travessura de Bichano

Era uma vez um beija-flor que morava em uma árvore de um sítio. Quando chegava o outono e o inverno, ele tinha muita dificuldade para sugar o néctar das flores, pois muitas murchavam e até morriam.

Lilica, a netinha dos donos do sítio, tinha um coração bondoso e percebeu a dificuldade daquele pequeno pássaro. Certo dia, foi até sua avó e disse:

— Vovó, estou com peninha daquele passarinho...

— Que passarinho, meu amor?

— Aquele que fica beijando as florezinhas.

— Ah, o beija-flor...

— Isso, isso, isso!

— Mas por que você está com peninha dele?

— Porque ele gosta de namorar as flores, fica beijando todas elas… Só que agora não vejo quase flores, e ele se cansa muito de procurar.

A avó sorriu e explicou:

— Estamos no outono, minha querida. É uma época em que muitas flores e folhas caem, mas, quando chegar a primavera, elas voltarão com mais força e beleza. Mas não se preocupe, vou comprar um bebedouro para ele. A gente coloca água com açúcar, e ele vai adorar.

— Oba! Obrigada, vovó!

E assim foi feito. Porém, a avó pendurou o bebedouro no telhado da varanda e se esqueceu de um pequeno detalhe: Bichano, o gatinho de estimação da família, adorava dormir lá em cima.

O beija-flor, que Lilica carinhosamente apelidara de Beijo Doce, passou a visitar o bebedouro várias vezes ao dia. Ele parecia estar agradecendo, tamanha era sua felicidade ao encontrar aquela água docinha.

Mas esse era o grande perigo.

Bichano, apesar de ser um gato dócil, começou a ficar cada vez mais interessado naquele passarinho, que voava de um lado para o outro bem na sua frente. No fundo, ele só queria brincar, mas... instinto de gato é instinto de gato.

Certo dia, depois de receber um carinho de Lilica, Bichano subiu no telhado e se escondeu atrás de umas folhas, esperando o momento certo para dar o bote. Ficou lá, quietinho, sem se mexer.

Não demorou muito e Beijo Doce apareceu para beber sua aguinha.

O gato, sem pensar duas vezes, saltou para pegá-lo!

Mas o beija-flor era ágil e, em um movimento rápido, desviou e escapou ileso.

Bichano, porém, esqueceu de um detalhe importante... estava no telhado!

Sem equilíbrio, perdeu o controle e caiu direto dentro do poço.

Lilica, que adorava observar o beija-flor, viu a cena e gritou:

— Vovó, corre! O Bichano caiu no poço!

A avó veio correndo e, sem perder tempo, amarrou uma corda em um balde e abaixou até onde o gatinho estava.

Bichano, todo molhado e arrepiado, se agarrou ao balde e foi puxado para cima.

Assim que saiu, sacudiu-se todo, espirrando água para todos os lados, enquanto Lilica ria aliviada.

— Viu, Bichano? Isso é o que acontece quando se tenta pegar um amigo!

Desde então, o gatinho nunca mais tentou capturar Beijo Doce, e os dois passaram a dividir a varanda em paz.

E Lilica, feliz, continuou cuidando do beija-flor, enquanto Bichano aprendeu a respeitar seu pequeno amigo de asas. Porém com um olhar sempre maldoso...

Fim.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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A PASSAGEIRA MISTERIOSA

A Passageira Misteriosa

Uma passageira entrou no meu táxi. Estava, digamos assim, "camuflada" com: óculos escuros, um chapéu igual ao da Carmen Miranda, um capote que mais parecia aquele do Dunga, ex-técnico da seleção Brasileira, e botas até o joelho. Muito estranha… mas também muito bonita.

Ela disse seu destino e começou a chorar. Sem saber o que fazer, e ao mesmo tempo, curioso, também fiquei sem saber se partia ou se perguntava o motivo do chororô. Decidi perguntar se ela estava passando mal.

— Não… — respondeu, enxugando as lágrimas. — Choro por outro motivo…

Não querendo falar mais nada, ficou em silêncio.

Meio persistente, arrisquei:

— Senhora, como dizia Roberto Carlos naquela música… “Taxista é um analista urbano”, pode confiar e desabafar.

Levei um baita fora. Não colou.

Chegando ao destino, ela pediu que eu aguardasse um pouco, pois iria pegar um amigo. Nesse momento, já havia parado de chorar e parecia muito tensa.

Esperei cerca de meia hora e perguntei se ele viria mesmo.

— Sim, ele já está chegando… — disse, fingindo falar ao celular.

Mas nada dele aparecer.

Quando se passou quase uma hora, avisei que teria um compromisso e não poderia esperar mais. Foi quando ela puxou uma nota de cem reais e colocou na minha mão.

— O compromisso nem é tão importante assim… Posso esperar o tempo que for necessário! — disse eu, sorrindo.

De repente, um carro de vidros escuros saiu do prédio em frente. Ela arregalou os olhos e pediu para eu segui-lo.

— É o seu amigo? — perguntei.

Muito nervosa, acabou confessando:

— Estou desconfiada do meu marido… Acho que ele está me traindo. E agora vi uma mulher dentro do carro com ele!

Estranhei, pois os vidros eram tão escuros que não dava para ver nada. Mas segui mesmo assim.

O sujeito dirigia rápido e estava difícil alcançá-lo. Até que o trânsito começou a ficar mais lento, e consegui colar nele. Mas, justo quando ia vê-lo melhor, um carro entrou na minha frente, me atrapalhando. Em seguida, o semáforo fechou.

A doida surtou.

— Seu morrinha! Seu roda presa! Tartaruga de táxi!

Começou a me xingar de tudo quanto era nome.

Fiquei revoltado.

— Olha, senhora, não vou mais seguir aquele carro.

Então, ela puxou mais uma nota de cem reais e enfiou no meu bolso.

Respirei fundo.

— Aquele outro carro me atrapalhou, mas pode deixar… A partir de agora, nem semáforo me segura!

Saí cantando pneu, tentando recuperar a distância. Quase atropelei um cachorro, raspei a roda no meio-fio e caí num bueiro. Mas finalmente consegui emparelhar com o carro do "marido infiel".

A mulher botou a cabeça para fora e começou a berrar:

— Para, seu safado! Hoje você vai apanhar, seu filho disso, filho daquilo, seu mariquinha!

Gritava tanto que até aprendi alguns palavrões novos.

E ainda me intimou:

— Dá uma fechada nele!

— A senhora tá doida? Isso é perigoso demais!

Então, abriu a bolsa e pegou duzentos reais.

Não pensei duas vezes.

Taquei o carro na frente do outro, e fomos parar em cima de um canteiro passando por cima do meio fio.

De repente, a porta do carro se abriu. Saiu um moreno forte pra cacete, mais forte que o Minotauro e o Anderson Silva juntos… e ainda com um porrete na mão!

Primeiro achei que fosse o motorista ou segurança. Mas, pela cara de pânico da mulher, percebi que a gente estava encrencado.

Ela ficou branca como vela e sussurrou:

— Aquele… não é meu marido.

Depois berrou desesperada:

— Sai fora daqui, pelamordedeus!

Nem esperei a gorjeta que ela sempre colava no meu bolso. Só acelerei e sumimos dali.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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LIVINHA E OS PEIXINHOS


Livinha e os Peixinhos

Livinha era uma menininha levada, faladeira e muito inteligente.

Certo dia, foi com sua mãe visitar a avó. Assim que chegaram, a menina avistou um aquário muito bonito e ficou encantada.

— Vovó, dessa eu bincá com os pessinhos? — perguntou, com os olhos vidrados nos peixinhos coloridos.

— Não pode, meu amor, senão eles morrem.

Livinha franziu a testa.

— Que é iiixo, vovó?

— Que isso, o quê, benzinho?

— Molem.

A avó sorriu, compreendendo a dúvida da neta.

— Ah… você quis dizer "morrem"! As pessoas e os animais, quando morrem, vão para o céu. Viram Anjinhos...

A menina arregalou os olhinhos.

— É… Vai nacher ajinha neles?

— Você quis dizer "vai nascer asinha neles", não é? É quase isso, minha netinha linda!

— Mamãe… eu tabém quelo ir pu xéu!

A mãe riu e a abraçou.

— Filhinha, tudo tem sua hora, meu amor.

Para distraí-la, pegou alguns brinquedos que trouxera e os deu para Livinha brincar, enquanto ia ajudar a terminar o almoço na cozinha. A menina se entretinha com os brinquedos, mas não tirava os olhos do aquário. Até que, brincando com massinha, sujou as mãos e quis lavá-las.

— Mamãe, quelo lavá a mãojinha.

— Filha, mamãe também está com as mãos sujas. Vai ali no tanque lavar as suas, tá bom?

A avó completou:

— Tem uma caixa de sabão em pó no banquinho, pode pegar.

Era tudo que Livinha queria! Independente como era, lavou as mãozinhas e, de repente, teve uma ideia.

— Cabei de lavá a mãojinha… agola vô, dei um banhinho na minha filhinha (a boneca). Há… vô dei tabém um banhinho nos pessinhos. — sussurrou animada.

Alguns minutos se passaram e a mãe estranhou o silêncio.

— Mãe, você não acha que tá um silêncio sepulcral? Vou ver o que essa menina está aprontando.

Chegando perto do aquário tomou aquele susto, tinha espuma para todos os lados, incluindo o carpete da sala e todos os seus brinquedos que estavam ao chão. Quanto ao peixinhos morreram afogados... só que na espuma. 


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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FLORISBELA E O PARAÍSO




Florisbela e o Paraíso

Florisbela era uma menina muito pobre. Estava sentada no chão de sua casa, desenhando, quando sua mãe a surpreendeu com um convite inesperado:

— Filha, vamos ao cinema?

Com os olhos cheios de lágrimas, a menina perguntou:

— Mas, mamãe… ontem a senhora disse que não tinha dinheiro nem para comprar comida. Como conseguiu o dinheiro para irmos ao cinema?

— Um amigo da mamãe nos deu duas entradas. Além de você ir ao cinema pela primeira vez, quero te mostrar uma coisa. Ele me disse que o filme se passa em um lugar muito bonito, chamado Paraíso. Quero que você conheça esse lugar, porque foi lá que eu estive.

— Foi lá que você se inspirou no meu nome, né? Mas como você foi ao Paraíso, se disse que estava dormindo?

A mãe sorriu com tristeza.

— Foi lá que tudo começou… Eu estava andando com o seu Pai em um lugar escuro quando dois homens maus apareceram. Eles estavam armados. Fizeram muito mal à mim, e a ele, quase me mataram… Fui parar no hospital.

— Mas, mamãe, você foi parar no hospital ou no Paraíso?

— Dizem que, quando morremos, vamos para o Paraíso. Eu cheguei a ir, mas os médicos conseguiram me trazer de volta. Depois, descobri que Deus também queria que eu voltasse… e me deu o presente mais lindo que eu poderia receber: você, Florisbela!

A menina hesitou e então perguntou:

— E o papai? Onde ele está?

A mãe abaixou os olhos, pensativa.

— O papai ficou lá… não pôde voltar. Depois do que aconteceu comigo, a polícia chegou atirando, e ele foi atingido. Chegamos juntos ao Paraíso, mas Jesus o levou para outro plano. Ele não pôde retornar.

Florisbela suspirou.

— Mamãe… eu queria conhecer esse Paraíso também. Talvez lá a gente não passasse tanta fome…

A mãe acariciou seus cabelos e disse com firmeza:

— Não é assim, filha… Esquece isso. Além do mais, você ainda é muito novinha.

Chegando ao cinema, entraram na fila para comprar os ingressos. Mas, de repente, um barulho interrompeu o momento. Um assalto. O segurança do local reagiu, e um disparo ecoou no ar. A bala perdida encontrou a cabeça da menina.

A mãe, desesperada, correu para fora do cinema… e, tomada pelo desespero, atirou-se na frente do primeiro carro que passava.

Florisbela, que nunca havia conhecido o cinema, conheceu o Paraíso. E sua mãe, ao tentar reencontrá-la, acabou seguindo outro caminho… nunca mais a vendo, pois cometeu suicídio.

Nesta vida, ou em outras, precisamos passar por certas provações para que nosso espírito evolua. Sejam boas ou ruins, são experiências necessárias. Mas nunca pelo caminho do suicídio, pois isso nos faz retroceder e sofrer ainda mais.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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O OTÁRIO DA HISTÓRIA


O Otário da História

— E aí, piloto! Arrumei meu primeiro trampo, hoje começo na labuta. Então, solicito a ajuda do “meretríssimo” taxista pra botar uma velô nesse carango aí, valeu? Tenho que chegar ao centro da cidade em dez minutos, tá ligado!?

O cara era todo metido a malandro, lembrava o "Agostinho", da Grande Família. Aparentava ter uns trinta anos e nunca tinha trabalhado??? Sim... porque ele mesmo disse que estava indo para seu primeiro emprego. Estranho, né?

Disse a ele que em dez minutos seria impossível, pois o trânsito estava intenso.

— Pô, piloto! Quero ver tua capacidade, bota uma velô... Ei, pera aí, pera aí, pera aí! Dá um break, mano… Vou ali naquela birosca comprar cigarro.

Mas, ao invés de comprar um maço, o sujeito pegou apenas um cigarro avulso. Assim que voltou ao carro, avisei que, desse jeito, ficaria difícil chegar no horário combinado. Mal terminei de falar, e lá veio ele de novo:

— Pára, pára, pára! Vamos dar um bonde pra aquele parceiro ali.

O tal parceiro nem quis papo. Acho que já conhecia a peça e sabia que, no fim das contas, sobraria pra ele pagar a corrida.

— Que babaca! Prefere ir a pé… Irmão, dá um tempo ali naquele "pé sujo", tenho que dar um recado para aquele otário ali.

O "otário" era o dono de outro bar.

Enquanto ele entrava, fiquei observando. O cara era muito abusado. Pelo jeito, estava pedindo dinheiro ao dono do bar. E, nisso, mais de meia hora já tinha se passado. Ainda queria que eu chegasse em dez minutos!

Quando voltou, reclamei que, desse jeito, não daria. Ele pedia para parar toda hora.

— Então o negócio é relaxar… Vou acender um cigarrinho — disse ele, tranquilão.

Tive que chamá-lo à atenção, pois o ar-condicionado estava ligado.

— Foi mal, coroa! Não precisa esculachar!

Eu já estava sacando a situação… O sujeito não conseguiu nenhum otário pra pagar a corrida, possivelmente tentou pedir dinheiro ao dono do último bar e também não teve sucesso. Agora estava inquieto, coçando-se, conferindo os bolsos, pigarreando.

Tive que perguntar:

— Tá com algum problema?

Ele respondeu, despreocupado:

— Até o momento, não.

Não entendi direito, mas segui dirigindo.

Depois de um tempão rodando, chegamos ao destino — com duas horas de atraso. Ele pediu que eu esperasse enquanto ia falar com um senhor sentado num banquinho.

Fiquei de olho. Vi os dois gesticulando, apontando os dedos um para o outro, e, de vez em quando, o sujeito apontava para o meu carro.

O tempo passou… e nada dele voltar.

Foi quando percebi, o cara tinha sumido!

Desci do carro e fui até o senhor para perguntar por ele. O velhinho, segurando um bloquinho, respondeu:

— Hoje seria o primeiro dia de trabalho daquele rapaz aqui, como ajudante. Mas o safado nem começou e já estava me pedindo adiantamento! Chegou com duas horas de atraso, filou cigarro, apontou para o seu carro e disse que o senhor pagaria o jogo do bicho que ele fez! Ainda veio falar um monte de gírias, sei lá… não entendi nada. Então, mandei-o embora.

Foi aí que entendi…

O otário era eu.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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quarta-feira, 5 de março de 2025

O PINTOR DAS ESTRELAS


O Pintor das Estrelas

Havia uma pequena vila escondida entre montanhas, onde morava um velho pintor chamado Gaspar. Diziam que ele possuía um dom raro: suas pinturas ganhavam vida. Mas com o tempo, as pessoas da vila começaram a achar que eram apenas histórias, pois Gaspar não pintava mais para os outros, apenas para si mesmo.

Um dia, um menino chamado Elias bateu à porta do pintor.

— Senhor Gaspar, pode pintar algo para mim? Quero dar um presente para minha mãe, que está doente.

Gaspar sorriu e o convidou a entrar. Pegou uma tela em branco e perguntou:

— O que você gostaria que eu pintasse?

— Uma noite cheia de estrelas. Minha mãe diz que, quando olha para as estrelas, sente esperança.

O velho pintor começou a trabalhar. Seus pincéis se moviam como se dançassem, e Elias assistia maravilhado. Quando a pintura ficou pronta, Gaspar deu um último toque especial: soprou sobre a tela.

E então, diante dos olhos do menino, as estrelas brilharam de verdade.

Elias correu para casa e entregou o quadro à mãe. Naquela noite, mesmo doente, ela sorriu ao ver as pequenas luzes piscando na tela.

A notícia se espalhou, e os moradores perceberam que o dom de Gaspar nunca se foi. Ele apenas esperava alguém que realmente acreditasse na magia.

Desde então, o velho pintor passou a criar novas pinturas encantadas, sempre para aqueles que viam o mundo com o coração.

Moral da história: A magia nunca desaparece, ela só espera por alguém que acredite.


Fim

Autor Desconhecido 


*ALEXANDRE M. BRITO* 




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