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sexta-feira, 7 de março de 2025

FLORISBELA E O PARAÍSO




Florisbela e o Paraíso

Florisbela era uma menina muito pobre. Estava sentada no chão de sua casa, desenhando, quando sua mãe a surpreendeu com um convite inesperado:

— Filha, vamos ao cinema?

Com os olhos cheios de lágrimas, a menina perguntou:

— Mas, mamãe… ontem a senhora disse que não tinha dinheiro nem para comprar comida. Como conseguiu o dinheiro para irmos ao cinema?

— Um amigo da mamãe nos deu duas entradas. Além de você ir ao cinema pela primeira vez, quero te mostrar uma coisa. Ele me disse que o filme se passa em um lugar muito bonito, chamado Paraíso. Quero que você conheça esse lugar, porque foi lá que eu estive.

— Foi lá que você se inspirou no meu nome, né? Mas como você foi ao Paraíso, se disse que estava dormindo?

A mãe sorriu com tristeza.

— Foi lá que tudo começou… Eu estava andando com o seu Pai em um lugar escuro quando dois homens maus apareceram. Eles estavam armados. Fizeram muito mal à mim, e a ele, quase me mataram… Fui parar no hospital.

— Mas, mamãe, você foi parar no hospital ou no Paraíso?

— Dizem que, quando morremos, vamos para o Paraíso. Eu cheguei a ir, mas os médicos conseguiram me trazer de volta. Depois, descobri que Deus também queria que eu voltasse… e me deu o presente mais lindo que eu poderia receber: você, Florisbela!

A menina hesitou e então perguntou:

— E o papai? Onde ele está?

A mãe abaixou os olhos, pensativa.

— O papai ficou lá… não pôde voltar. Depois do que aconteceu comigo, a polícia chegou atirando, e ele foi atingido. Chegamos juntos ao Paraíso, mas Jesus o levou para outro plano. Ele não pôde retornar.

Florisbela suspirou.

— Mamãe… eu queria conhecer esse Paraíso também. Talvez lá a gente não passasse tanta fome…

A mãe acariciou seus cabelos e disse com firmeza:

— Não é assim, filha… Esquece isso. Além do mais, você ainda é muito novinha.

Chegando ao cinema, entraram na fila para comprar os ingressos. Mas, de repente, um barulho interrompeu o momento. Um assalto. O segurança do local reagiu, e um disparo ecoou no ar. A bala perdida encontrou a cabeça da menina.

A mãe, desesperada, correu para fora do cinema… e, tomada pelo desespero, atirou-se na frente do primeiro carro que passava.

Florisbela, que nunca havia conhecido o cinema, conheceu o Paraíso. E sua mãe, ao tentar reencontrá-la, acabou seguindo outro caminho… nunca mais a vendo, pois cometeu suicídio.

Nesta vida, ou em outras, precisamos passar por certas provações para que nosso espírito evolua. Sejam boas ou ruins, são experiências necessárias. Mas nunca pelo caminho do suicídio, pois isso nos faz retroceder e sofrer ainda mais.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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O OTÁRIO DA HISTÓRIA


O Otário da História

— E aí, piloto! Arrumei meu primeiro trampo, hoje começo na labuta. Então, solicito a ajuda do “meretríssimo” taxista pra botar uma velô nesse carango aí, valeu? Tenho que chegar ao centro da cidade em dez minutos, tá ligado!?

O cara era todo metido a malandro, lembrava o "Agostinho", da Grande Família. Aparentava ter uns trinta anos e nunca tinha trabalhado??? Sim... porque ele mesmo disse que estava indo para seu primeiro emprego. Estranho, né?

Disse a ele que em dez minutos seria impossível, pois o trânsito estava intenso.

— Pô, piloto! Quero ver tua capacidade, bota uma velô... Ei, pera aí, pera aí, pera aí! Dá um break, mano… Vou ali naquela birosca comprar cigarro.

Mas, ao invés de comprar um maço, o sujeito pegou apenas um cigarro avulso. Assim que voltou ao carro, avisei que, desse jeito, ficaria difícil chegar no horário combinado. Mal terminei de falar, e lá veio ele de novo:

— Pára, pára, pára! Vamos dar um bonde pra aquele parceiro ali.

O tal parceiro nem quis papo. Acho que já conhecia a peça e sabia que, no fim das contas, sobraria pra ele pagar a corrida.

— Que babaca! Prefere ir a pé… Irmão, dá um tempo ali naquele "pé sujo", tenho que dar um recado para aquele otário ali.

O "otário" era o dono de outro bar.

Enquanto ele entrava, fiquei observando. O cara era muito abusado. Pelo jeito, estava pedindo dinheiro ao dono do bar. E, nisso, mais de meia hora já tinha se passado. Ainda queria que eu chegasse em dez minutos!

Quando voltou, reclamei que, desse jeito, não daria. Ele pedia para parar toda hora.

— Então o negócio é relaxar… Vou acender um cigarrinho — disse ele, tranquilão.

Tive que chamá-lo à atenção, pois o ar-condicionado estava ligado.

— Foi mal, coroa! Não precisa esculachar!

Eu já estava sacando a situação… O sujeito não conseguiu nenhum otário pra pagar a corrida, possivelmente tentou pedir dinheiro ao dono do último bar e também não teve sucesso. Agora estava inquieto, coçando-se, conferindo os bolsos, pigarreando.

Tive que perguntar:

— Tá com algum problema?

Ele respondeu, despreocupado:

— Até o momento, não.

Não entendi direito, mas segui dirigindo.

Depois de um tempão rodando, chegamos ao destino — com duas horas de atraso. Ele pediu que eu esperasse enquanto ia falar com um senhor sentado num banquinho.

Fiquei de olho. Vi os dois gesticulando, apontando os dedos um para o outro, e, de vez em quando, o sujeito apontava para o meu carro.

O tempo passou… e nada dele voltar.

Foi quando percebi, o cara tinha sumido!

Desci do carro e fui até o senhor para perguntar por ele. O velhinho, segurando um bloquinho, respondeu:

— Hoje seria o primeiro dia de trabalho daquele rapaz aqui, como ajudante. Mas o safado nem começou e já estava me pedindo adiantamento! Chegou com duas horas de atraso, filou cigarro, apontou para o seu carro e disse que o senhor pagaria o jogo do bicho que ele fez! Ainda veio falar um monte de gírias, sei lá… não entendi nada. Então, mandei-o embora.

Foi aí que entendi…

O otário era eu.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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quarta-feira, 5 de março de 2025

O PINTOR DAS ESTRELAS


O Pintor das Estrelas

Havia uma pequena vila escondida entre montanhas, onde morava um velho pintor chamado Gaspar. Diziam que ele possuía um dom raro: suas pinturas ganhavam vida. Mas com o tempo, as pessoas da vila começaram a achar que eram apenas histórias, pois Gaspar não pintava mais para os outros, apenas para si mesmo.

Um dia, um menino chamado Elias bateu à porta do pintor.

— Senhor Gaspar, pode pintar algo para mim? Quero dar um presente para minha mãe, que está doente.

Gaspar sorriu e o convidou a entrar. Pegou uma tela em branco e perguntou:

— O que você gostaria que eu pintasse?

— Uma noite cheia de estrelas. Minha mãe diz que, quando olha para as estrelas, sente esperança.

O velho pintor começou a trabalhar. Seus pincéis se moviam como se dançassem, e Elias assistia maravilhado. Quando a pintura ficou pronta, Gaspar deu um último toque especial: soprou sobre a tela.

E então, diante dos olhos do menino, as estrelas brilharam de verdade.

Elias correu para casa e entregou o quadro à mãe. Naquela noite, mesmo doente, ela sorriu ao ver as pequenas luzes piscando na tela.

A notícia se espalhou, e os moradores perceberam que o dom de Gaspar nunca se foi. Ele apenas esperava alguém que realmente acreditasse na magia.

Desde então, o velho pintor passou a criar novas pinturas encantadas, sempre para aqueles que viam o mundo com o coração.

Moral da história: A magia nunca desaparece, ela só espera por alguém que acredite.


Fim

Autor Desconhecido 


*ALEXANDRE M. BRITO* 




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sábado, 25 de maio de 2024

AQUI SE FAZ, AQUI SE RECEBE

AQUI SE FAZ, AQUI SE RECEBE

Uma mulher muito rica furou o pneu do seu carro importado numa estradinha de barro de uma cidade do interior. Ela ficou sem saber o que fazer, porque a bateria do seu celular havia descarregado e, além disso, o chão estava muito enlameado.

Passava por ali um caipira muito pobre, montado em uma mula, que se propôs a ajudá-la. Aquele bondoso homem se abaixou e trocou o pneu para aquela elegante senhora, saindo, é claro, todo sujo de lama.

Ela, pensativa, achava que aquele sujeito pobre, que estava com roupas rasgadas, lhe cobraria uma fortuna, aproveitando-se da situação. Mas não tinha importância; afinal, ela tinha muito dinheiro e poderia pagar o que fosse cobrado. Naquele momento, ela só queria sair daquele lugar.

Ao término do serviço, ela perguntou-lhe o preço. Ele disse que não custaria nada, pois, a partir do momento em que ele oferecera um favor, não poderia cobrar. Disse também que havia sido um prazer ajudá-la e a aconselhou a sair logo dali, porque já ia escurecer e aquele lugar era perigoso.

A mulher saiu dali boquiaberta, afinal, hoje em dia, dificilmente acontece algo assim. As pessoas querem é passar por cima das outras e tirar proveito de tudo o que for possível.

Apesar de ter chovido, o dia estava quente, e ela parou mais adiante num boteco para se refrescar. Pediu uma água mineral, conversou bastante com a dona do estabelecimento e lhe contou o ocorrido. Ficou também bastante comovida com a história de vida daquela mulher, que estava grávida, com um filho doente e era muito pobre. Naquele lugar, tudo era muito difícil, inclusive a maternidade.

A dona do comércio pediu licença, porque seu filho deu um choramingo. Ele estava deitado em uma esteira no chão de um quartinho ao fundo.

Ao voltar, encontrou um embrulho de papel e, dentro dele, havia um bilhetinho com uma grande quantia de dinheiro. O bilhete dizia: "Passei a dar mais importância às pessoas fora do meu convívio. E descobri também que existem pessoas abençoadas por Deus, assim como a senhora. O que eu puder fazer, daqui por diante, por pessoas necessitadas, farei. O que aprendi hoje levou cinquenta anos para acontecer."

Seu marido chegou preocupado, porque a lavoura não estava boa e eles estavam precisando muito de dinheiro. Viu algumas pessoas saindo com bolsas de mantimentos. Olhou para o céu, rezou e falou para sua esposa:

Graças a Deus! Nossa venda aqui está melhorando... Não é, mulher?

Não, meu amor! Estou doando mantimentos para pessoas muito necessitadas.

O quê? Vamos ter de fechar o armazém... Porque não temos como pagar nossas dívidas, nosso filho está muito doente e o que vai nascer não tem enxoval. Seu berço será uma rede ou a própria esteira. Mas se você ajudou pessoas que estavam realmente precisando, eu não me importo.

Vou te explicar: Hoje conheci uma senhora. Ela conversou muito comigo, fez várias perguntas e, quando foi embora, deixou esse bilhete com essa quantia em dinheiro. Meu amor, com esse valor, dá para fazermos o parto e o enxoval do neném. E ainda sobra para comprarmos o remédio para nosso filho e pagarmos nossas dívidas. Estou muito feliz! Ah! Já ia esquecendo, ela disse que furou o pneu do carro a dois quilômetros daqui. Eu só não entendi uma coisa: ela fez muitas perguntas sobre você, como você era, onde trabalhava e até a cor da roupa que você estava usando hoje.

Aquele simples, porém "grande homem", ajoelhou-se ao chão, chorou e agradeceu mais uma vez a Deus por ter lhe dado tamanha "sabedoria que é a bondade".


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


segunda-feira, 18 de abril de 2022

QUEM TEM C...TEM MEDO

Quem Tem C... Tem Medo

Um sujeito bem-apessoado entrou no meu táxi. Usava óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro, além de camisa e calça social. Assim que sentou, pediu:

— Me leva até uma sáuna. 

Chegamos ao local, e ele disse para esperá-lo, que não demoraria.

Meia hora depois, voltou com um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se a festa tinha sido boa. Ele balançou a cabeça negativamente e respondeu:

— Não rolou nada com mulher.

— Ué! Então foi com homem? Isso é sáuna gay? — perguntei.

— Tá maluco? Eu gosto é de molhar o biscoito, não de queimar a rosca!

O cara era brincalhão, mas tinha umas piadas sem graça. Olhou para mim e perguntou:

— Você também gosta da fruta, ou é a própria fruta?

Respondi rápido:

— Gosto da fruta...

— Então vou te dar uma banana! — disse ele, rindo.

Fiquei meio sem graça, mas resolvi não dar trela. Depois, minha curiosidade falou mais alto, e perguntei:

— Não entendi... Você foi num lugar desses, demorou meia hora e não pegou nenhuma mulher?

— Mulheres eu tenho aos montes, é só estalar os dedos. Não preciso ir num lugar desses para isso.

O sujeito também era cheio de si...

— Bom, então é melhor mudar de assunto. Pra onde vamos agora? — perguntei.

— Toca pra Zona Sul.

Chegando ao destino, ele apontou para um bingo clandestino.

— Espera aí, vou ali rapidinho.

— Sabe que bingo é proibido, né? Esse aí é clandestino.

— Você parece meu pai, me dando conselho!

O tempo passou, ele não voltava, e eu acabei cochilando no carro. Foi quando levei um tapa na cabeça. Era o engraçadinho de volta.

— Você é abusado, hein! — reclamei.

Dessa vez, ele entrou calado. Como minha curiosidade era grande, perguntei:

— O que houve? Perdeu tudo no bingo?

— Toca pra frente, piloto! E para de fazer pergunta besta.

Voltamos para a Zona Norte. Ele pediu que eu parasse em frente a um prédio.

— Vai demorar? — perguntei.

— Acho que não, mas se eu demorar, o taxímetro não tá ligado? — respondeu com grosseria.

Fiquei preocupado. Se ele tivesse perdido todo o dinheiro no bingo, não teria como me pagar. E a corrida já estava cara, afinal, eu rodava com ele havia mais de quatro horas.

Passaram-se vinte minutos. De repente, ele veio correndo feito um louco.

— Anda, anda! Sai daqui agora!

— O que houve?

Antes que ele respondesse, um vaso pequeno de plantas voou da janela e acertou o capô do carro.

Saí cantando pneu, sem entender nada. Ainda nervoso, perguntei:

— Quem vai pagar esse prejuízo?

Ofegante, ele só dizia:

— Eu pago, eu pago...

Pegou o celular e tentou várias ligações, sem sucesso.

— Merda de celular! Quando mais se precisa, não funciona...

Ofereci o meu, mas ele recusou.

— Não precisa. Já estamos chegando.

Entramos num estacionamento. Ele saiu do carro e entrou num galpão. Como de costume, fiquei esperando. Logo, ouvi uns gritos e barulhos de discussão. Minutos depois, ele veio disparado de novo.

— Pelo amor de Deus, pisa fundo! Sai daqui agora!

Dessa vez, nem tive tempo de ficar curioso. O barulho de tiros me fez acelerar sem olhar pra trás.

— Isso foi tiro?! — perguntei, assustado.

— Você ainda acha??? Depois te explico!

— Parei contigo! Não vou mais a lugar nenhum! Faz favor de me pagar AGORA!

— Acelera isso aí! O cara tá vindo atrás da gente!

Corri que nem um louco, mas olhava pelo retrovisor e não via ninguém.

— Sabe o que eu acho? Você tá paranoico! Não tem carro nenhum atrás!

— Não para não! Se parar, ele me mata!

— Olha aqui, vou parar sim! Se vira e me paga logo essa corrida!

O falastrão devia estar com a cueca toda suja de medo... e também sem um centavo.

— Vamos voltar pra Zona Sul! Vou no meu banco sacar o dinheiro. Fica do lado daquele bingo...

— Cara, você é um 171! Você vai querer entrar naquele bingo de novo! Chega! Nós vamos é pra delegacia!

Depois do sufoco, resolvi ir pra casa. Só que, ao chegar, me deparei com a patroa toda arrumada, me esperando.

— Ué, vai sair? — perguntei.

— Seu cretino! Não vou mais sair coisa nenhuma! Você esqueceu que marcamos de ir fazer compras? Olha a hora que você chega!

— Amor, eu posso explicar...

— Explicar o quê?! Tá sempre dizendo que não tem dinheiro, mas anda comprando um monte de coisa pra você. Ou tá ganhando presentinho de outra mulher?

Pois é... levei uma bronca enorme. Antes tivesse ido para a delegacia com aquele sujeito! Pelo menos teria uma desculpa.

E o pior... depois de tudo, acabei pegando e usando alguns dos "pertences" do meu passageiro, já que ele não pagou a corrida: óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro.

Só que, no dia seguinte, descobri que era tudo falso.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO