- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.
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domingo, 24 de novembro de 2013
DONA ELIETE E OS ANIMAIS
- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O DIA DA COLONOSCOPIA
O DIA DA COLONOSCOPIA
Havia chegado o dia – aquele que prometia ser longo e péssimo. Um dia que ficaria marcado, porque, quando fazemos algo que não nos agrada, o tempo custa a passar. E foi exatamente o que aconteceu.
Bem, esse também foi o dia "D"... O dia "de" eu ter perdido a virgindade anal. Não para um pênis, muito menos para o dedo de um médico, mas sim para uma máquina. Máquina essa que nem sabe fazer um carinho ou, muito menos, sussurrar ao pé do ouvido.
Naquela manhã interminável, acordei cedo. Ou melhor, levantei da cama, porque, de tão tenso, não havia conseguido dormir direito. A noite fora longa, cheia de pesadelos e pensamentos sobre o que estava prestes a acontecer.
Eu era leigo no assunto, e o médico pouco me explicou. Disse apenas que seria algo parecido com o exame de endoscopia, só que "por trás". Também recomendou que eu fosse em jejum. Fiquei nervoso. Pensava que pudesse doer... ou, pior ainda, que eu pudesse gostar. Se doesse, como eu iria trabalhar sentado no meu táxi no dia seguinte? E se eu gostasse? Tantos homens adoram ser penetrados porque experimentaram uma vez... e gostaram.
"Será que vou virar gay?", pensava eu.
Para evitar qualquer constrangimento, tomei um banho caprichado. Com a buchinha que havia comprado na feira, esfreguei tudo. Usei até condicionador de cabelo e pasta de dentes, para não correr o risco de ter um "mau hálito anal". Até perfume passei, mas não sabia que ardia tanto... Vesti minha melhor cueca – ou pelo menos a que não tinha furos –, uma calça desbotada e uma camisa de malha justa, com os dizeres "Bad Boy", e fui à luta. Nessas horas, temos que demonstrar masculinidade, mesmo sabendo que, em breve, iriam me entubar pelo rabo.
Entrei no carro de um amigo taxista, que iria me levar aquele lugar "malditoso". Para minha surpresa, ele soltou uma gargalhada e perguntou:
— Tu vais fazer o exame pelo umbigo?
Não entendi a brincadeira, mas logo ele explicou:
— Cara, você tá de baby look!
Às vezes gosto de tomar umas cervejinhas, e minha barriga está um pouco saliente. A camisa apertada deixou meu umbigo completamente à mostra.
Cheguei à clínica mais nervoso ainda. Além de ser esculachado a viagem inteira, eu sabia o que me esperava no dia seguinte, no ponto de táxi. Conhecia o tamanho da língua do meu "amigo".
Uma atendente pediu que eu esperasse em um quarto. Mesmo dizendo que não precisava de companhia, meu amigo insistiu em ficar comigo.
Esperei por um longo tempo, com fome e sede, até que uma enfermeira apareceu:
— Coloca esse roupão aqui e fique sem nada por baixo. Depois, beba todo o líquido dessas três garrafas. Tem que tomar tudo, hein! Daqui a pouco volto para colocar o soro.
— Soro? Mas que soro? Ninguém me falou nada sobre soro!
O líquido era horrível, mas eu estava com sede, então beber foi fácil. O difícil foi o que veio depois.
Fui colocar o roupão e, para evitar mais constrangimento, saí do banheiro com a bunda encostada na parede, porque a parte de trás do roupão era completamente aberta. Meu "mui amigo" já estava pronto para tirar fotos de todos os ângulos. Além de linguarudo, o cara era um paparazzo amador.
Cada vez que eu ia ao banheiro, ia acompanhado de dois encostos: meu amigo, ansioso por um "furo de reportagem", e o pedestal do soro. Descobri, por outra enfermeira, que o exame seria só à tarde. Me mandaram chegar cedo apenas para a preparação.
Perguntei à Enfermeira como seria o procedimento:
--- Primeiro eles vão lhe aplicar uma anestesia. Na verdade não é anestesia, e sim, um "sossega leão".
— Sossega Leão? Mas que sossega leão é esse, minha senhora? O Médico não me falarou nada disso!
— Você vai dormir — disse ela.
O alívio inicial foi substituído por um novo medo. Afinal, já tinha ouvido histórias de pessoas que morreram sob efeito de anestesia, na qual, eu ainda achava que era.
Meu amigo se despediu dizendo que voltaria à tarde para me buscar. Fiquei aliviado. Pelo menos não precisaria mais me arrastar pelas paredes. Mas o vazio da solidão me trouxe outro pavor: e se eu morresse? Peguei o celular e comecei a mandar mensagens de despedida para a família e alguns amigos.
"Te amo", escrevi para todos.
O pior foi quando mandei mensagem para um amigo, agradecendo pela amizade e dizendo que ele não precisava mais pagar o que me devia. Ninguém entendeu nada...
Só não consegui me despedir da sogra porque, na hora de digitar, o médico entrou esbaforido no quarto.
— Quantas vezes você já foi ao banheiro? — perguntou.
— Doutor, eu não contei, mas acho que umas dez vezes.
— É pouco. Vou chamar a enfermeira.
Minutos depois, ouvi batidas na porta. Entrou uma enfermeira que eu ainda não conhecia. Linda, delicada. Segurava uma bisnaga misteriosa.
— Vira o bumbum... O senhor vai precisar de uma lavagem.
— O quê? Que lavagem? Não preciso de mais lavagem! Já lavei tudo muito bem, tanto aqui quanto em casa. Até condicionador, pasta de dentes e perfume eu passei!
— Não é por fora, meu senhor. É por dentro...
— Nem pensar! Quem mandou você fazer isso? Eu quero falar com o médico!
— Foi ele quem mandou, e agora está ocupado.
Fiquei arrasado. Além de me chamar de "senhor", ainda me enfiou aquele troço gelado sem me dar tempo de correr para o banheiro. Sujei a cama toda.
Por sorte, meu amigo não estava mais ali. Senão, teria mais um "furo de reportagem".
Depois desse episódio humilhante, quase vesti minhas roupas para ir embora. Mas aguentei firme. Concentrei-me, rezei e tentei me acalmar. Afinal, tem mulheres e até homens que lidam com coisas muito maiores a vida inteira e gostam!
De repente, entraram dois homens com uma maca.
— Vamos lá, chegou tua hora.
Já tão deprimido, achei que já estava morto. "Chegou minha hora de quê? De ser enterrado?"
— Pô, vocês não sabem bater na porta? E para que essa maca?
— São normas do hospital. O senhor tem que ir de maca...
— Não preciso ir de maca! E, por incrível que pareça, ainda estou vivo e andando! Além do mais, só vou fazer aquele exame... aquele que parece uma endoscopia... só que por baixo.
— Sim, mas acidentes acontecem. Seus intestinos podem ser perfurados.
— Aiii, meu Deus! Cadê o médico? Cadê meu amigo???
Tive que deitar na maca. Me levaram por corredores intermináveis. O anestesista fez algumas perguntas, aplicou uma injeção, e... apaguei.
Quando acordei, o médico estava ao meu lado.
— Tudo certo! O único problema foram os barulhos.
— Barulhos? Que barulhos, doutor?
— Rapaz, você ainda tinha gases lá dentro... e, nossa, como você ronca!
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
MISÉRIA, POESIA E TRISTEZA
ele não tinha saúde
terça-feira, 19 de novembro de 2013
CONFUSÃO NO ALTAR
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
O ENTERRO DO SEU MANOEL DA BIROSCA
O enterro do seu Manoel da Birosca iria ser na parte da tarde, mas o povo desde cedo encontrava-se em seu velório. Dona Maria Bigorna, sua esposa, era adepta de um bom prato e não ficava sem uma birita. Logo que seu marido faleceu ela encomendou bastantes bebidas e salgados, e malandramente, divulgou para seus fregueses. Os “amigos” e frequentadores da birosca do senhor Manoel, sabendo disso, lotaram o velório daquele bondoso senhor. Estavam muito empolgados, afinal, nunca tinham visto um enterro tão festivo e regado a comes e bebes. Porém estavam “preocupados” pela demora da, senhora Bigorna. Então, seu Alair do Pé Inchado, comentou com seus amigos:
- Cadê dona Bigorna que não aparece, hein? Tô cheio de sede e ela está demorando muito...Onde será que ela se enfiou?
- Do jeito que ela bebe, esse velório vai ser uma festa. – Falou Biricutico empolgado.
- É, amigos eu já fui lá no bar tomar uma e fiquei duro, tive de pagar a vista. Que falta o seu Manoel faz, não é mesmo pessoal? Com ele a gente pendurava. – Disse seu José Du Calote.
Na realidade ninguém pagava nada ao seu Manoel, o enrolavam sempre. Dona Bigorna sabia e se estressava muito com eles por causa daquilo. Depois que a metade da clientela encontrava-se de porre e a outra ainda estava nos bares dos arredores, chegou Dona Maria Bigorna, chorosa, mas com os salgados e as bebidas que prometera... Estava acompanhada dos seus cinco filhos: Pedrão do Bope; Paulão Senta a Pua; Marcão Tijolada; Ricardão Capoeira e Serginho Mengão, da “torcida raça rubro negra”. De repente o velório lotou, parecia que tinham vindo pelo cheiro dos salgados e das bebidas... Conversa vai, conversa vem, João Deprê ao ver os filhos do seu Manoel, comentou com os amigos:
- Eu estou com um mau pressentimento, não devia ter voltado lá do bar.
- Está maluco? Você iria perder esse tremendo velório? Relaxa e toma mais um copo, pelo menos aqui é de graça... E a nossa dívida com Seu Manoel também acabou, ele morreu... Vamos comemorar, minha gente! – disse Enfadonho Talagada.
- Fala baixo... Nós não estamos comemorando nada. Você já está bêbado? Viu o tamanho dos filhos dele? – falou Deprê.
- Vi, sim, e daí? Vai dizer que também não posso dizer que sou Vascaíno? Vascooo, Vascooo, Vascooo... – respondeu Talagada.
Todos rapidamente saíram de perto de Talagada, porque sabiam da fama dos filhos Flamenguistas do Seu Manoel.
Mais tarde, após estarem todos de barriga cheia e de ter rolado muita bagunça, inclusive, quase derrubaram o caixão, os filhos de Dona Maria Bigorna amontoaram-se na porta e não deixaram que mais ninguém saísse. Seu João Deprê ainda tentou escapar e disse que queria ir ao banheiro, mas Ricardão Capoeira não deixou... Alegou que a oração já iria começar e queria que todos ficassem, porque sua mãe faria uma homenagem a seu pai. Então, Anastácio Dupó Traçado da silva, perguntou ao Deprê:
- O que houve, você está com cara de preocupado?
- Ai, meu Deus do céu... Vai acontecer alguma coisa de ruim e eu estou apertado para ir ao banheiro. Eu devia tão pouco ao Seu Manoel... Só uns mil reais.
- Por que você está falando isso? A dívida agora acabou... Olha, parece que Dona Bigorna vai começar com a homenagem.
Dona Maria Bigorna, após pedir a palavra, pegou na bolsa um caderno com uma lista imensa de fiados e declamou:
- Tenho a certeza de que o meu Marido faleceu por causa disso aqui...
Seu José Du Calote jogou-se pela janela que era no quinto andar, caiu em cima do roseiral... Se furou e se quebrou todo, mas conseguiu escapar. Todos juntos começaram a rezar, uns até a chorar, mas ela firme continuou:
- Manoel se vivo fosse iria gostar de ver o que vai acontecer agora...
Seu Deprê teve um ataque de histeria, mas ela não ligou.
- Nesse caderno consta o nome de pessoas que diziam ser nossos amigos, principalmente do Manoel...
Enfadonho Talagada, Biricuticu e mais umas dez pessoas tiveram um mal súbito. Anastácio Dupó que encontrava-se ao fundo, mesmo sendo procurado da justiça, preferiu pegar o celular e ligar para polícia. Falando baixinho, disse que iria se entregar, mas que viessem logo.
E Dona Maria continuou:
- Pessoas que só vieram aqui, por interesse na bebida e na comida, onde, não vi uma lágrima se quer...
- Olha meus olhos, Dona Bigorna, vermelhos de tanto chorar. Por sinal, esse enterro sai ou não sai? – perguntou seu Ataláio Jurubêbo
- Seus olhos estão vermelhos por causa da cachaça, seu Ataláio. O Senhor está chorando agora, não sei porque motivo...
Nesse chove e não molha, nessa lengalenga, Dupó, olhou pela janela e gritou:
- A Polícia vem aí!!!
Os filhos de Dona Maria sumiram, foi um corre-corre generalizado, gente rolando pela escada, gente se escondendo atrás do caixão e o Anastácio Dupó indo em cana.
Mas tarde, após o enterro, um coveiro comentou com o outro:
- Eu nunca vi um enterro tão vazio, só tinha a viúva. Esse cara devia ser muito ruim.
- Eu não entendi, o velório estava cheio de gente, mas ninguém quis assistir ao enterro. A viúva ficava o tempo todo falando ao Marido que fez as suas vontades... Deu uma festa em seu velório, não brigaria mais com seus amigos e nem iria mais cobrá-los as dívidas. Ela também falou que não entendeu o motivo do tumulto, porque só queria dizer-lhes umas verdades. E que não sabe porque os filhos também sumiram.



