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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM PALHAÇO NA CIDADE



Um Palhaço na Cidade

Aquele cara era "o tal". Era também o assunto do momento naquela cidade pacata. Uma cidadezinha simples, onde o povo não tinha muitas opções de entretenimento além de bares e biroscas. Não era um lugar turístico, e seus habitantes não estavam acostumados com gente que ostentasse riqueza.

Um circo havia chegado, e com ele, um sujeito muito elegante: joias, roupas e sapatos de marca. O comentário geral era que ele deveria ser o dono do circo. Como o barzinho do Seu Severino era o mais próximo, ele passou a frequentá-lo.

— Seu Severino, o senhor já comprou o uísque de marca que o moço do circo pediu? — perguntou Josenildo, ajudante do bar.

— Já comprei, sim. Mas deu um trabalho danado! Tive que ir até a cidade vizinha e, ainda assim, só encontrei o nacional.

— Ihhh, Seu Severino… O homem é chique demais, não vai gostar disso.

— Deixa comigo… Cadê aquela garrafa velha com o rótulo rasgado de uísque importado que o falecido Rufino esqueceu aqui?

— Seu Severino, o senhor é demais! Dizem que quanto mais velho, melhor o uísque… Se a garrafa é velha e o rótulo está rasgado, ele vai achar que é um uísque raríssimo.

— Pois é. Agora enche logo essa garrafa de uísque nacional antes que ele apareça.

Nesse momento, o homem entrou no bar.

— Boa tarde, doutor! Seu Severino já está pegando o seu uísque! — disse Josenildo, disfarçando.

— Ótimo, vou tomar só uma dose e depois almoçar. Qual o cardápio de hoje?

— Olha, moço, aqui não temos cardápio, não. É PF mesmo. Tem ensopado de carne com batatas ou frango com quiabo.

— O senhor não tem um peixe, tipo… salmão com alcaparras?

— Eu nem sei o que é isso, meu bom senhor… Mas posso anotar e Seu Severino providenciará.

— Está bem, me sirva qualquer coisa então. Pode ser o ensopado. Ah, por favor, avise ao dono que hoje não deu pra eu ir ao banco. Amanhã eu acerto a conta, ok?

— Não se preocupe, doutor! Seu Severino nem esquenta com isso.

O homem aproveitou-se da gentileza e tomou umas dez cervejas, além da garrafa inteira daquele "uísque" falso. Saiu cambaleando, mais bêbado que peru de Natal.

No dia seguinte, Josenildo perguntou de novo:

— Seu Severino, o senhor já comprou aquele negócio lá… o peixe com "alcatar"?

— Seu burro! É salmão com alcaparras! E vê se não promete mais nada para ninguém! Esse sujeito só pede coisa cara e difícil de achar, e até agora não pagou nada!

— Mas o senhor comprou?

— Claro que não! Comprei cação e três pés de alface.

— Foi isso que ele pediu?

— Não, mas a gente dá um jeito. Ele paga o preço do salmão e come cação.

Minutos depois, o homem voltou ao bar.

— Boa tarde!

— Boa tarde, moço! Seu Severino já está aprontando seu cação com alface...

— Cação? Eu pedi salmão com alcaparras!

— Desculpe, moço, falei errado. O peixe ele até achou, mas o outro negócio, as... as alcapar... Ele não achou.

— Quer dizer que vou comer salmão com alface? Tá bom, então me traga uma dose daquele uísque.

— Então... O senhor tomou a garrafa toda ontem...

— Serve uma cachaçinha?

— Cachaça?! Você está louco? Eu sou homem de tomar cachaça?! Por que não compraram meu uísque?! Me traz uma cerveja mesmo.

— É pra já, doutor!

— Ah, e amanhã eu quero caviar.

— Nossa! Essa comida eu já ouvi falar, mas nunca vi, não, senhor…

— Vá pegar logo minha comida!

Mais tarde, Josenildo avisou ao patrão:

— Seu Severino, o moço do circo disse que amanhã quer comer caviar.

— O quê?! Eu te disse pra não prometer mais nada! Agora vou ter que ir até o Mercado do outro lado do rio! Vamos fechar mais cedo.

— Oba! Vamos sair mais cedo!? Acho que vou ao circo.

— Vamos sair mais cedo, sim, mas vou descontar do seu salário.

No dia seguinte, a esposa doente de Seu Severino ajudava na cozinha, pois ele ainda não havia voltado da longa jornada atrás do caviar. Então, o sujeito apareceu.

— Boa tarde! Seu Severino saiu para procurar seu pedido e ainda não voltou… O senhor quer esperar ou prefere um prato feito com macarrão, arroz, feijão e salada de alface?

— O quê?! Como vou esperar? Você já viu a hora?! Traga-me uma dose de uísque.

— Não tem, não senhor. Seu Severino não comprou… E acho que eu esqueci de lembrá-lo.

— Esqueceu?! Você é muito enrolado! Não volto mais aqui! A partir de hoje, só vou no concorrente. Adeus!

E saiu batendo o pé.

Minutos depois, Seu Severino chegou esbaforido, molhado, mas sorrindo.

— Achei! Achei o caviar! Vou direto pra cozinha preparar!

— Seu Severino…

— Agora não posso! Vou cozinhar o caviar e cobrar o triplo do preço!

— Seu Severino, acho que não precisa ter pressa, não…

— Ué, por quê? Ele vai chegar mais tarde?

— Não… Ele não vai chegar. Foi pro concorrente.

— O quê?! Mas ele pediu o caviar!

— Pois é… Mas o senhor demorou. E sem uísque, ele resolveu ir embora.

— Droga! Bom, pelo menos ele pagou a conta, né?

— Então… Eu esqueci de cobrar.

— O QUÊ?! SOME DAQUI! Vai atrás desse cara! E só volta com o dinheiro da conta!

Passaram-se alguns dias, e Seu Severino recebeu uma carta de Josenildo. Ela dizia:

"Seu Severino, como o senhor disse pra eu só voltar com o dinheiro da conta, ainda não consegui recuperar. Então, preferi escrever esta carta."

"Descobri que o sujeito não é dono do circo… É um mero PALHAÇO. Ele até me deu um relógio de ouro pela dívida, mas, quando vendi pro ourives, ele desfez o negócio e disse que era falso! Como eu disse que o relógio era seu, ele falou que vai chamar a polícia. CUIDADO!"

"E tem mais… Tudo o que o palhaço ostentava era falso. Agora ele está comendo no concorrente e, ironicamente, pagando tudo em dinheiro. O mais engraçado? Ele não pede nada caro. Come o que tem na casa."

"A propósito, estou trabalhando aqui no concorrente… Um forte abraço, Seu Severino."

FIM.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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domingo, 24 de novembro de 2013

DONA ELIETE E OS ANIMAIS


- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.

Era uma senhora com a idade bastante avançada que havia passado por determinadas situações e decidido deixar os prazeres da vida para se dedicar com afinco aos animais, inclusive largado ao corpo docente onde ficara anos a lecionar. Aceitava todo e qualquer tipo de animal, mesmo estando saudável ou doente. Podiam estar machucados ou atropelados e mesmo estando entre a vida e a morte ela chamava os amigos veterinários que muito a ajudavam. Ela os chamavam de Almas Caridosas!
Seu amor e carinho pelos animais era tamanho, assim como, a revolta que tinha com pessoas sem escrúpulos e que maltratavam os peludos. Por isso todos que iam em sua casa escutavam aquela frase acima.
Antes de aceitar um animal saudável ela fazia um tremendo "questionário", um monte de perguntas para seus donos do tipo: - Por que motivo os faziam querer desfazer-se dos bichinhos?
E muitas das vezes a vi dando bronca em quem simplesmente “queria se desfazer do animal” sem nenhuma justificativa.
- Vocês adquirem animais só por vaidades, não é? Isso aqui que você está me trazendo, não é brinquedinho, não, que quando fica velho ou quebrado pode ser jogado fora. O animal também tem sentimentos onde seu amor maior será sempre pelo dono. Pode ser rico ou pobre que ele estará sempre ao seu lado e mesmo que passe fome ele não te abandonará. Coisa que você não está fazendo nesse momento.
Ela tinha um estremo mau humor em relação as pessoas. Acho que para ela todos desconhecidos eram iguais. Mas com os bichos, não, era bem diferente. Eles o tiravam tudo que fosse possível, inclusive sua vida social, uma vida normal de um simples ser humano. Seu salário de aposentada era pequeno, muita das vezes, todos passavam por necessidades, onde a maior prejudicada era ela mesma. Deixava até de comprar coisas de uso pessoal, assim como: roupas, sapatos, bolsas, etc. Quase não ia a médico e nem se tratava porque os animais estavam sempre em primeiro lugar.
Haviam algumas empresas ou pessoas que a ajudavam, com: jornais velhos; restos de comida; remédios e às vezes dinheiro. Como na época ainda não existia ou era muito caro comprar ração, eu mesmo, a mando de minha mãe levava todo final de semana cabeça, pescoço e pé de galinha que o dono do aviário lá de perto da minha casa guardava aos dias úteis. Mesmo assim, às vezes não era o suficiente, tamanha quantidade de animais.
Dona Eliete andava com roupas rasgadas, não usava mais perfume, muito menos ia ao salão. Muitas das vezes eu via piolho descendo em sua testa ou até mesmo carrapato em seu vestido. E também já estava aparecendo feridas em sua pele. Parecia estar se igualando a eles, em sua: simplicidade; aparência; no olhar e na pureza de um animal. Assim como os animais, quando aparecia um estranho, ela se retraia e ficava muito desconfiada. Mas se a pessoa trouxesse algum tipo de ajuda, ou mesmo, uma palavra de amizade e carinho, Dona Eliete, fazia aquela festa e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Muitos domingos a vi na feira, “na hora da xepa” catando restos de comidas e pedindo ajuda aos feirantes. Pessoas que não a conheciam a chamavam de Louca ou Mendiga sem saber a imensidão daquele coração; daquela dedicação; daquele amor e o quanto foi importante seu trabalho em relação aos animais. Aquela mulher foi única, nunca vi e nem conheci ninguém igual...
Depois casei e fui morar num bairro distante e perdi o contato. Mais tarde, fiquei sabendo que construíram um prédio ao lado de sua casa e que os moradores reclamavam muito do barulho e do cheiro dos animais. Entraram na justiça contra ela pedindo o afastamento dos animais daquele local. Também soube que ela morrera, não fiquei sabendo o motivo. Deve ter sido de desgosto porque além de ter abdicado sua vida como um ser humano normal e ter vivido como um animal, ela era feliz pelo que fazia e por estar ao lado deles.
Algo de bom ficou em mim, aprendi que a maior riqueza não está a vista dos nossos olhos, não precisamos ostentar valores materiais e que nossa maior herança está dentro de nós.
Agora quando passo em frente a sua casa sinto uma nostalgia e uma tristeza muito grande pela sua ausência, pelo que aprendi e pelos animais que também ajudei a resgatar. Quantos aos animais não sei onde foram parar... No "prédio maldito" ninguém soube ou não quiseram me falar. Devem ter ido parar na SUIPA...


Obs: Esse caso se passou na Zona Norte do Rio de Janeiro, mais precisamente no Bairro do Engenho de Dentro onde Dona Eliete morava.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 







sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O DIA DA COLONOSCOPIA

O DIA DA COLONOSCOPIA

Havia chegado o dia – aquele que prometia ser longo e péssimo. Um dia que ficaria marcado, porque, quando fazemos algo que não nos agrada, o tempo custa a passar. E foi exatamente o que aconteceu.

Bem, esse também foi o dia "D"... O dia "de" eu ter perdido a virgindade anal. Não para um pênis, muito menos para o dedo de um médico, mas sim para uma máquina. Máquina essa que nem sabe fazer um carinho ou, muito menos, sussurrar ao pé do ouvido.

Naquela manhã interminável, acordei cedo. Ou melhor, levantei da cama, porque, de tão tenso, não havia conseguido dormir direito. A noite fora longa, cheia de pesadelos e pensamentos sobre o que estava prestes a acontecer.

Eu era leigo no assunto, e o médico pouco me explicou. Disse apenas que seria algo parecido com o exame de endoscopia, só que "por trás". Também recomendou que eu fosse em jejum. Fiquei nervoso. Pensava que pudesse doer... ou, pior ainda, que eu pudesse gostar. Se doesse, como eu iria trabalhar sentado no meu táxi no dia seguinte? E se eu gostasse? Tantos homens adoram ser penetrados porque experimentaram uma vez... e gostaram.

"Será que vou virar gay?", pensava eu.

Para evitar qualquer constrangimento, tomei um banho caprichado. Com a buchinha que havia comprado na feira, esfreguei tudo. Usei até condicionador de cabelo e pasta de dentes, para não correr o risco de ter um "mau hálito anal". Até perfume passei, mas não sabia que ardia tanto... Vesti minha melhor cueca – ou pelo menos a que não tinha furos –, uma calça desbotada e uma camisa de malha justa, com os dizeres "Bad Boy", e fui à luta. Nessas horas, temos que demonstrar masculinidade, mesmo sabendo que, em breve, iriam me entubar pelo rabo.

Entrei no carro de um amigo taxista, que iria me levar aquele lugar "malditoso". Para minha surpresa, ele soltou uma gargalhada e perguntou:

— Tu vais fazer o exame pelo umbigo?

Não entendi a brincadeira, mas logo ele explicou:

— Cara, você tá de baby look!

Às vezes gosto de tomar umas cervejinhas, e minha barriga está um pouco saliente. A camisa apertada deixou meu umbigo completamente à mostra.

Cheguei à clínica mais nervoso ainda. Além de ser esculachado a viagem inteira, eu sabia o que me esperava no dia seguinte, no ponto de táxi. Conhecia o tamanho da língua do meu "amigo".

Uma atendente pediu que eu esperasse em um quarto. Mesmo dizendo que não precisava de companhia, meu amigo insistiu em ficar comigo.

Esperei por um longo tempo, com fome e sede, até que uma enfermeira apareceu:

— Coloca esse roupão aqui e fique sem nada por baixo. Depois, beba todo o líquido dessas três garrafas. Tem que tomar tudo, hein! Daqui a pouco volto para colocar o soro.

Soro? Mas que soro? Ninguém me falou nada sobre soro!

O líquido era horrível, mas eu estava com sede, então beber foi fácil. O difícil foi o que veio depois.

Fui colocar o roupão e, para evitar mais constrangimento, saí do banheiro com a bunda encostada na parede, porque a parte de trás do roupão era completamente aberta. Meu "mui amigo" já estava pronto para tirar fotos de todos os ângulos. Além de linguarudo, o cara era um paparazzo amador.

Cada vez que eu ia ao banheiro, ia acompanhado de dois encostos: meu amigo, ansioso por um "furo de reportagem", e o pedestal do soro. Descobri, por outra enfermeira, que o exame seria só à tarde. Me mandaram chegar cedo apenas para a preparação.

Perguntei à Enfermeira como seria o procedimento:

---  Primeiro eles vão lhe aplicar uma anestesia. Na verdade não é anestesia, e sim, um "sossega leão".

— Sossega Leão? Mas que sossega leão é esse, minha senhora? O Médico não me falarou nada disso!

— Você vai dormir — disse ela.

O alívio inicial foi substituído por um novo medo. Afinal, já tinha ouvido histórias de pessoas que morreram sob efeito de anestesia, na qual, eu ainda achava que era.

Meu amigo se despediu dizendo que voltaria à tarde para me buscar. Fiquei aliviado. Pelo menos não precisaria mais me arrastar pelas paredes. Mas o vazio da solidão me trouxe outro pavor: e se eu morresse? Peguei o celular e comecei a mandar mensagens de despedida para a família e alguns amigos.

"Te amo", escrevi para todos.

O pior foi quando mandei mensagem para um amigo, agradecendo pela amizade e dizendo que ele não precisava mais pagar o que me devia. Ninguém entendeu nada...

Só não consegui me despedir da sogra porque, na hora de digitar, o médico entrou esbaforido no quarto.

Quantas vezes você já foi ao banheiro? — perguntou.

Doutor, eu não contei, mas acho que umas dez vezes.

É pouco. Vou chamar a enfermeira.

Minutos depois, ouvi batidas na porta. Entrou uma enfermeira que eu ainda não conhecia. Linda, delicada. Segurava uma bisnaga misteriosa.

Vira o bumbum... O senhor vai precisar de uma lavagem.

O quê? Que lavagem? Não preciso de mais lavagem! Já lavei tudo muito bem, tanto aqui quanto em casa. Até condicionador, pasta de dentes e perfume eu passei!

Não é por fora, meu senhor. É por dentro...

Nem pensar! Quem mandou você fazer isso? Eu quero falar com o médico!

Foi ele quem mandou, e agora está ocupado.

Fiquei arrasado. Além de me chamar de "senhor", ainda me enfiou aquele troço gelado sem me dar tempo de correr para o banheiro. Sujei a cama toda.

Por sorte, meu amigo não estava mais ali. Senão, teria mais um "furo de reportagem".

Depois desse episódio humilhante, quase vesti minhas roupas para ir embora. Mas aguentei firme. Concentrei-me, rezei e tentei me acalmar. Afinal, tem mulheres e até homens que lidam com coisas muito maiores a vida inteira e gostam!

De repente, entraram dois homens com uma maca.

Vamos lá, chegou tua hora.

Já tão deprimido, achei que já estava morto. "Chegou minha hora de quê? De ser enterrado?"

Pô, vocês não sabem bater na porta? E para que essa maca?

São normas do hospital. O senhor tem que ir de maca...

Não preciso ir de maca! E, por incrível que pareça, ainda estou vivo e andando! Além do mais, só vou fazer aquele exame... aquele que parece uma endoscopia... só que por baixo.

Sim, mas acidentes acontecem. Seus intestinos podem ser perfurados.

Aiii, meu Deus! Cadê o médico? Cadê meu amigo???

Tive que deitar na maca. Me levaram por corredores intermináveis. O anestesista fez algumas perguntas, aplicou uma injeção, e... apaguei.

Quando acordei, o médico estava ao meu lado.

Tudo certo! O único problema foram os barulhos.

Barulhos? Que barulhos, doutor?

Rapaz, você ainda tinha gases lá dentro... e, nossa, como você ronca!


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MISÉRIA, POESIA E TRISTEZA



Um sujeito maltrapilho, sujo e sem a maioria dos dentes da frente ficava a pedir esmolas em frente à casa do seu Manoel. Sua esposa bastante chateada com aquilo vivia a reclamar:
- O Manoel você tem que tomar uma providência, esse cara fedorento em frente à nossa casa fica deixando restos de comida pelo chão, qualquer dia vai ficar cheio de ratos por aqui.
- Calma Mulher! Vou falar com ele.
Então seu Manoel saiu para conversar com homem. Chegando ao local encontrou-o lendo um velho livro de poesias, e disse:
- Moço o senhor pode sair de frente da minha casa? Está muito sujo e estamos sentindo esse cheiro lá dentro.
O homem respondeu:

- Meu caro, amigo,
estou ao relento
porque ninguém me dá abrigo,
ajuda e sustento.

- Por que o senhor não procura um albergue? Na minha porta é que não pode ficar...

- Estou aqui por uma causa nobre,
por isso não me esnobe,
só trago o amor,
meu bom, senhor.

- Que amor? Você está me atrapalhando!

- Atrapalhando!?
Eu só estou explanando
a minha situação
sem abstenção.

- Logo vi... O senhor não é dessa cidade.


- Eu vim lá do sertão,

do sertão do Maranhão,

lá não tinha nem calçado,

mas esse era o meu fado,

ficar de pé no chão.


Até o pão faltava,

meu filho então chorava,

tamanha necessidade

vivíamos de caridade.


Mas foi aí que meu pai me disse:

- Deixe de tolice

e vá a outra cidade procurar

um emprego e casa pra morar.


O senhor Manoel já estava ficando comovido com aquela situação, então, exclamou mais uma vez:
- O senhor não sabe que chegar a uma cidade grande sem ter ninguém da família para ajudá-lo fica muito difícil? E o que tem feito depois que chegou? Já conseguiu algum emprego e onde está seu filho?


- Cheguei à grande cidade

sem saber o que fazer,

mas a minha realidade

é não ter o que comer.


Durmo ao relento,

procuro meu sustento

pedindo esmola,

mas o que me consola

é o pensamento

de saber que meu filho

não é mais maltrapilho,

com uma rica família ele está...


- Ué, mas ele encontra-se aqui nessa cidade? Perguntou Sr. Manoel.


- Sim, e sei que está muito bem... Por isso não vou mais além,

me abrigarei na igreja,

porque não quero, que assim, ele me veja.

Sairei, sim, de frente da casa dele,

mas antes queria lhe agradecer o tanto que faz por ele...


&


Meu Deus!!!

O senhor é o genitor do meu filho?!

Entre, não haverá empecilho,

não irei desprezá-lo,

só quero abrigá-lo

e lhe dar um pouco de conforto,

porque nosso filho está morto.


Fiz o que pude,

ele não tinha saúde

e hoje encontra-se no céu.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 



terça-feira, 19 de novembro de 2013

CONFUSÃO NO ALTAR

CONFUSÃO NO ALTAR 

Aristeu já estava há horas enchendo a paciência dos fregueses no bar do seu Manoel. Seu estado etílico não era dos melhores, mas isso não o impediu de pedir mais uma dose. Diante da negativa do dono, insistiu:

— Só mais uma, seu Manoel! A saideira, prometo que depois vou pra casa dormir.

Tanto fez que conseguiu convencer o dono a servi-lo. Mas, no instante em que levou o copo à boca, ouviu um grito estridente:

— Aaaai, meu Deus! Seu cretino, está bebendo de novo!? Esqueceu que vai me levar a um casamento?!

Era Gertrudes, sua esposa, furiosa.

— Vou levar, sim, mulher... Mas deixa eu terminar esse copinho aqui, depois tiro um cochilo e a gente vai, ok?

— Cochilo?! Já estamos atrasados! Vamos agora, seu cachorro sem vergonha!

— Isso mesmo, Dona Gertrudes! Leva esse traste pra casa! — concordou seu Manoel, aliviado.

De volta para casa, Gertrudes impôs ordem:

— Banho já! E escova esses dentes direito pra tirar esse bafo de cachaça!

Depois de muito custo, se arrumaram e saíram. Mas a jornada até a igreja foi um desastre: Aristeu arranhou o carro na saída da garagem, parou no meio do caminho alegando que precisava ir ao banheiro — mas na verdade tomou mais uma dose — e, no estacionamento, bateu nos carros da frente e de trás antes de finalmente conseguir estacionar.

Assim que chegaram, Gertrudes saiu do carro às pressas.

— Espera, mulher, vamos entrar juntos!

— Nem pensar! Você só me faz passar vergonha.

Gertrudes entrou sozinha e sentou-se ao lado de uma amiga.

— Oi, amiga! Tudo bem? Você parece nervosa.

— Tô, sim! Meu marido está num porre só. Não quero ficar perto dele.

Poucos minutos depois, um estrondo ecoou pela igreja. O padre interrompeu a cerimônia e todos olharam para trás. Aristeu estava caído no chão, depois de tropeçar no degrau e derrubar o pedestal de flores.

— Viu só, amiga? E eu achando que ele já estava sentado!

A cerimônia prosseguiu, mas não por muito tempo. Um burburinho começou entre os convidados, seguido por risadinhas. O padre fez cara feia, tentando manter a ordem. Gertrudes, desconfiada, olhou para trás e se deparou com seu marido dormindo profundamente — e roncando alto.

Furiosa, levantou-se e foi acordá-lo:

— Vou te matar, homem! Está todo mundo olhando! E ainda está ouvindo esse radinho de pilha dentro da igreja?!

— Não está vendo, mulher? Estou com fones de ouvido!

O padre retomou a cerimônia, visivelmente irritado. Tudo seguia bem até o momento de reflexão, quando os convidados receberam a hóstia. Foi aí que um grito ensurdecedor ecoou pelo salão:

— GOOOOOOL DO MENGÃO!!!

O padre se assustou tanto que deixou a hóstia cair. O noivo, um vascaíno roxo, ficou vermelho de raiva.

— Calma, Tenório, não faça nada! Você vai estragar nosso casamento! — tentou acalmá-lo a noiva.

Mas parecia que ela já previa o pior, porque, ao final da cerimônia, o padre fez a pergunta tradicional:

— Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre.

Aristeu levantou-se cambaleando, pegou o microfone e disse:

— Senhoras e senhores... Não tenho nada contra este casamento! Só queria dar um testemunho como amigo da família.

O salão ficou em silêncio. Gertrudes gelou.

— Conheço bem a Maria! Vi sua juventude complicada… Hoje é uma mulher moderna, usa sainha curta e fala muito palavrão — mas quem não fala, né? Tem muitos amigos e conhece gente influente. Todos os dias chega de carona em um carro diferente... E só carrão, hein!

O noivo franziu a testa.

— E o Tenório? Ah, dele sou suspeito pra falar! Nos encontramos sempre pelos bares da vida. Rapaz distinto, sempre de roupa de grife e carrão importado. Nunca o vi trabalhando, mas sei que ajuda muito suas primas... Sempre dá presentinhos pra elas lá na casa da luz vermelha. E que primas, hein, Tenório?!

A noiva arregalou os olhos.

— Que história é essa de primas, Tenório?! 

— E você, Maria?! Todo dia chegando de carona em um carro diferente?!

O caos estava instaurado. Gritos, xingamentos, empurrões. O casamento virou um ringue. O padre desmaiou. Os convidados fugiram.

E Aristeu? Bom… Ele ainda queria tomar um gole daquele "vinho santo", mas acabou apanhando tanto que foi parar no hospital. Ainda delirando, achava que estava na festa, brindando com champanhe.

— Tim-tim, pessoal! Viva os noivos!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


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