Translate

domingo, 30 de maio de 2021

UM DOIDO EM MEU TAXI



Era mais um dia tranquilo de trabalho...estava eu trafegando com meu taxi numa via de mão única, me encontrava pelo lado esquerdo da pista, quando, um cidadão, também pela esquerda, fez sinal. Do lado direito da pista havia um ponto de ônibus. Quando parei, notei que houve um engano, ele olhava por cima do taxi em direção ao ônibus.
Engatei a primeira marcha para andar com o carro, foi quando, a porta traseira se abriu...o sujeito entrou e ficou calado. Cumprimentei-o, saí com taxi e nada de o cara falar, então tive de perguntar o seu destino. Ele falou pra eu "tocar" em frente.

Rodamos alguns quilômetros e o homem não falava nada. Eu já estava ficando meio tenso, achando que pudesse tratar-se de um assalto, quando resolvi perguntar, de novo, o seu destino. De repente o cara começou a gargalhar, e disse:

- Não sei...leve-me para sua casa...
- Não entendi, senhor. Como assim?
- Então... vamos passear. - falou ele, rindo sem parar.
- Passear!? O senhor tá me tirando?
Estava pensando, de duas, uma...ou o cara era louco, ou o cara era gay. Então ele respondeu:
- Eu não, acontece, que eu não fiz sinal e o senhor parou. - e ria pra valer.
- Tudo bem que parei, mas se foi um engano, o senhor também não devia ter entrado...
Eu já estava ficando invocado, parecia papo de bêbado, foi quando avistei uma viatura policial e parei perto. Então, falei:
- Olha aqui...não estou de brincadeira, irei chamar a polícia.
Ele melhorou rápido, parou de rir e parecia ter ficado nervoso...me disse o destino da corrida e também me pediu para andar rápido.
A essa altura, eu já estava muito nervoso, sem saber qual seria a intenção daquele sujeito.
Quando chegamos ao local, lembrei-me, que ali havia uma boca de fumo. Ele por sua vez, me pediu para entrar com o carro num beco. Parei o carro, e disse a ele, que ali eu não entraria. O cara ficou furioso...
Nesse negócio de entra e não entra...ele então me disse para esperá-lo, e foi andando em direção ao beco. Foi ai que vi como estava ventando lá fora...de tão doido, tombava para um lado, tombava para o outro...
O sujeito além de doido, era drogado, então achei melhor, sair fora daquele local. Arranquei com o carro, sai quase voando, mas levei prejuízo, porque não havia cobrado antecipadamente o dinheiro da corrida. Escutei uns gritos, olhei pelo retrovisor e ainda acenei para ele dando-lhe um até logo...O cara ficou lá gritando desesperadamente, eu não estava nem aí pra ele, só queria sair daquele lugar.
Passado alguns minutos, peguei outro passageiro, que achou uma carteira no banco de trás e me entregou, era a carteira daquele doido. Então, falei:
- Meu Deeeuus! Roubei o maluco sem querer...
O passageiro não entendeu nada. Fiquei sem saber como devolver a carteira do cara, só sabia que o dia que me encontrasse iria sair faísca ou talvez quisesse me matar.
Abri a carteira...quando foi meu espanto... o doido só tinha fotos de mulheres peladas, e guimbas de cigarros. E não tinha uma nota sequer, pra pagar a corrida. Dancei mais uma vez.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM PALHAÇO NA CIDADE



Um Palhaço na Cidade

Aquele cara era "o tal". Era também o assunto do momento naquela cidade pacata. Uma cidadezinha simples, onde o povo não tinha muitas opções de entretenimento além de bares e biroscas. Não era um lugar turístico, e seus habitantes não estavam acostumados com gente que ostentasse riqueza.

Um circo havia chegado, e com ele, um sujeito muito elegante: joias, roupas e sapatos de marca. O comentário geral era que ele deveria ser o dono do circo. Como o barzinho do Seu Severino era o mais próximo, ele passou a frequentá-lo.

— Seu Severino, o senhor já comprou o uísque de marca que o moço do circo pediu? — perguntou Josenildo, ajudante do bar.

— Já comprei, sim. Mas deu um trabalho danado! Tive que ir até a cidade vizinha e, ainda assim, só encontrei o nacional.

— Ihhh, Seu Severino… O homem é chique demais, não vai gostar disso.

— Deixa comigo… Cadê aquela garrafa velha com o rótulo rasgado de uísque importado que o falecido Rufino esqueceu aqui?

— Seu Severino, o senhor é demais! Dizem que quanto mais velho, melhor o uísque… Se a garrafa é velha e o rótulo está rasgado, ele vai achar que é um uísque raríssimo.

— Pois é. Agora enche logo essa garrafa de uísque nacional antes que ele apareça.

Nesse momento, o homem entrou no bar.

— Boa tarde, doutor! Seu Severino já está pegando o seu uísque! — disse Josenildo, disfarçando.

— Ótimo, vou tomar só uma dose e depois almoçar. Qual o cardápio de hoje?

— Olha, moço, aqui não temos cardápio, não. É PF mesmo. Tem ensopado de carne com batatas ou frango com quiabo.

— O senhor não tem um peixe, tipo… salmão com alcaparras?

— Eu nem sei o que é isso, meu bom senhor… Mas posso anotar e Seu Severino providenciará.

— Está bem, me sirva qualquer coisa então. Pode ser o ensopado. Ah, por favor, avise ao dono que hoje não deu pra eu ir ao banco. Amanhã eu acerto a conta, ok?

— Não se preocupe, doutor! Seu Severino nem esquenta com isso.

O homem aproveitou-se da gentileza e tomou umas dez cervejas, além da garrafa inteira daquele "uísque" falso. Saiu cambaleando, mais bêbado que peru de Natal.

No dia seguinte, Josenildo perguntou de novo:

— Seu Severino, o senhor já comprou aquele negócio lá… o peixe com "alcatar"?

— Seu burro! É salmão com alcaparras! E vê se não promete mais nada para ninguém! Esse sujeito só pede coisa cara e difícil de achar, e até agora não pagou nada!

— Mas o senhor comprou?

— Claro que não! Comprei cação e três pés de alface.

— Foi isso que ele pediu?

— Não, mas a gente dá um jeito. Ele paga o preço do salmão e come cação.

Minutos depois, o homem voltou ao bar.

— Boa tarde!

— Boa tarde, moço! Seu Severino já está aprontando seu cação com alface...

— Cação? Eu pedi salmão com alcaparras!

— Desculpe, moço, falei errado. O peixe ele até achou, mas o outro negócio, as... as alcapar... Ele não achou.

— Quer dizer que vou comer salmão com alface? Tá bom, então me traga uma dose daquele uísque.

— Então... O senhor tomou a garrafa toda ontem...

— Serve uma cachaçinha?

— Cachaça?! Você está louco? Eu sou homem de tomar cachaça?! Por que não compraram meu uísque?! Me traz uma cerveja mesmo.

— É pra já, doutor!

— Ah, e amanhã eu quero caviar.

— Nossa! Essa comida eu já ouvi falar, mas nunca vi, não, senhor…

— Vá pegar logo minha comida!

Mais tarde, Josenildo avisou ao patrão:

— Seu Severino, o moço do circo disse que amanhã quer comer caviar.

— O quê?! Eu te disse pra não prometer mais nada! Agora vou ter que ir até o Mercado do outro lado do rio! Vamos fechar mais cedo.

— Oba! Vamos sair mais cedo!? Acho que vou ao circo.

— Vamos sair mais cedo, sim, mas vou descontar do seu salário.

No dia seguinte, a esposa doente de Seu Severino ajudava na cozinha, pois ele ainda não havia voltado da longa jornada atrás do caviar. Então, o sujeito apareceu.

— Boa tarde! Seu Severino saiu para procurar seu pedido e ainda não voltou… O senhor quer esperar ou prefere um prato feito com macarrão, arroz, feijão e salada de alface?

— O quê?! Como vou esperar? Você já viu a hora?! Traga-me uma dose de uísque.

— Não tem, não senhor. Seu Severino não comprou… E acho que eu esqueci de lembrá-lo.

— Esqueceu?! Você é muito enrolado! Não volto mais aqui! A partir de hoje, só vou no concorrente. Adeus!

E saiu batendo o pé.

Minutos depois, Seu Severino chegou esbaforido, molhado, mas sorrindo.

— Achei! Achei o caviar! Vou direto pra cozinha preparar!

— Seu Severino…

— Agora não posso! Vou cozinhar o caviar e cobrar o triplo do preço!

— Seu Severino, acho que não precisa ter pressa, não…

— Ué, por quê? Ele vai chegar mais tarde?

— Não… Ele não vai chegar. Foi pro concorrente.

— O quê?! Mas ele pediu o caviar!

— Pois é… Mas o senhor demorou. E sem uísque, ele resolveu ir embora.

— Droga! Bom, pelo menos ele pagou a conta, né?

— Então… Eu esqueci de cobrar.

— O QUÊ?! SOME DAQUI! Vai atrás desse cara! E só volta com o dinheiro da conta!

Passaram-se alguns dias, e Seu Severino recebeu uma carta de Josenildo. Ela dizia:

"Seu Severino, como o senhor disse pra eu só voltar com o dinheiro da conta, ainda não consegui recuperar. Então, preferi escrever esta carta."

"Descobri que o sujeito não é dono do circo… É um mero PALHAÇO. Ele até me deu um relógio de ouro pela dívida, mas, quando vendi pro ourives, ele desfez o negócio e disse que era falso! Como eu disse que o relógio era seu, ele falou que vai chamar a polícia. CUIDADO!"

"E tem mais… Tudo o que o palhaço ostentava era falso. Agora ele está comendo no concorrente e, ironicamente, pagando tudo em dinheiro. O mais engraçado? Ele não pede nada caro. Come o que tem na casa."

"A propósito, estou trabalhando aqui no concorrente… Um forte abraço, Seu Severino."

FIM.


*ALEXANDRE M. BRITO*




Links:

RECANTO DOS CONTOS 

recantodoscontosecausos.blogspot.com


RECANTO DAS POESIAS 

recantodaspoesiasblog.blogspot.com



domingo, 24 de novembro de 2013

DONA ELIETE E OS ANIMAIS


- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.

Era uma senhora com a idade bastante avançada que havia passado por determinadas situações e decidido deixar os prazeres da vida para se dedicar com afinco aos animais, inclusive largado ao corpo docente onde ficara anos a lecionar. Aceitava todo e qualquer tipo de animal, mesmo estando saudável ou doente. Podiam estar machucados ou atropelados e mesmo estando entre a vida e a morte ela chamava os amigos veterinários que muito a ajudavam. Ela os chamavam de Almas Caridosas!
Seu amor e carinho pelos animais era tamanho, assim como, a revolta que tinha com pessoas sem escrúpulos e que maltratavam os peludos. Por isso todos que iam em sua casa escutavam aquela frase acima.
Antes de aceitar um animal saudável ela fazia um tremendo "questionário", um monte de perguntas para seus donos do tipo: - Por que motivo os faziam querer desfazer-se dos bichinhos?
E muitas das vezes a vi dando bronca em quem simplesmente “queria se desfazer do animal” sem nenhuma justificativa.
- Vocês adquirem animais só por vaidades, não é? Isso aqui que você está me trazendo, não é brinquedinho, não, que quando fica velho ou quebrado pode ser jogado fora. O animal também tem sentimentos onde seu amor maior será sempre pelo dono. Pode ser rico ou pobre que ele estará sempre ao seu lado e mesmo que passe fome ele não te abandonará. Coisa que você não está fazendo nesse momento.
Ela tinha um estremo mau humor em relação as pessoas. Acho que para ela todos desconhecidos eram iguais. Mas com os bichos, não, era bem diferente. Eles o tiravam tudo que fosse possível, inclusive sua vida social, uma vida normal de um simples ser humano. Seu salário de aposentada era pequeno, muita das vezes, todos passavam por necessidades, onde a maior prejudicada era ela mesma. Deixava até de comprar coisas de uso pessoal, assim como: roupas, sapatos, bolsas, etc. Quase não ia a médico e nem se tratava porque os animais estavam sempre em primeiro lugar.
Haviam algumas empresas ou pessoas que a ajudavam, com: jornais velhos; restos de comida; remédios e às vezes dinheiro. Como na época ainda não existia ou era muito caro comprar ração, eu mesmo, a mando de minha mãe levava todo final de semana cabeça, pescoço e pé de galinha que o dono do aviário lá de perto da minha casa guardava aos dias úteis. Mesmo assim, às vezes não era o suficiente, tamanha quantidade de animais.
Dona Eliete andava com roupas rasgadas, não usava mais perfume, muito menos ia ao salão. Muitas das vezes eu via piolho descendo em sua testa ou até mesmo carrapato em seu vestido. E também já estava aparecendo feridas em sua pele. Parecia estar se igualando a eles, em sua: simplicidade; aparência; no olhar e na pureza de um animal. Assim como os animais, quando aparecia um estranho, ela se retraia e ficava muito desconfiada. Mas se a pessoa trouxesse algum tipo de ajuda, ou mesmo, uma palavra de amizade e carinho, Dona Eliete, fazia aquela festa e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Muitos domingos a vi na feira, “na hora da xepa” catando restos de comidas e pedindo ajuda aos feirantes. Pessoas que não a conheciam a chamavam de Louca ou Mendiga sem saber a imensidão daquele coração; daquela dedicação; daquele amor e o quanto foi importante seu trabalho em relação aos animais. Aquela mulher foi única, nunca vi e nem conheci ninguém igual...
Depois casei e fui morar num bairro distante e perdi o contato. Mais tarde, fiquei sabendo que construíram um prédio ao lado de sua casa e que os moradores reclamavam muito do barulho e do cheiro dos animais. Entraram na justiça contra ela pedindo o afastamento dos animais daquele local. Também soube que ela morrera, não fiquei sabendo o motivo. Deve ter sido de desgosto porque além de ter abdicado sua vida como um ser humano normal e ter vivido como um animal, ela era feliz pelo que fazia e por estar ao lado deles.
Algo de bom ficou em mim, aprendi que a maior riqueza não está a vista dos nossos olhos, não precisamos ostentar valores materiais e que nossa maior herança está dentro de nós.
Agora quando passo em frente a sua casa sinto uma nostalgia e uma tristeza muito grande pela sua ausência, pelo que aprendi e pelos animais que também ajudei a resgatar. Quantos aos animais não sei onde foram parar... No "prédio maldito" ninguém soube ou não quiseram me falar. Devem ter ido parar na SUIPA...


Obs: Esse caso se passou na Zona Norte do Rio de Janeiro, mais precisamente no Bairro do Engenho de Dentro onde Dona Eliete morava.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 







sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O DIA DA COLONOSCOPIA

O DIA DA COLONOSCOPIA

Havia chegado o dia – aquele que prometia ser longo e péssimo. Um dia que ficaria marcado, porque, quando fazemos algo que não nos agrada, o tempo custa a passar. E foi exatamente o que aconteceu.

Bem, esse também foi o dia "D"... O dia "de" eu ter perdido a virgindade anal. Não para um pênis, muito menos para o dedo de um médico, mas sim para uma máquina. Máquina essa que nem sabe fazer um carinho ou, muito menos, sussurrar ao pé do ouvido.

Naquela manhã interminável, acordei cedo. Ou melhor, levantei da cama, porque, de tão tenso, não havia conseguido dormir direito. A noite fora longa, cheia de pesadelos e pensamentos sobre o que estava prestes a acontecer.

Eu era leigo no assunto, e o médico pouco me explicou. Disse apenas que seria algo parecido com o exame de endoscopia, só que "por trás". Também recomendou que eu fosse em jejum. Fiquei nervoso. Pensava que pudesse doer... ou, pior ainda, que eu pudesse gostar. Se doesse, como eu iria trabalhar sentado no meu táxi no dia seguinte? E se eu gostasse? Tantos homens adoram ser penetrados porque experimentaram uma vez... e gostaram.

"Será que vou virar gay?", pensava eu.

Para evitar qualquer constrangimento, tomei um banho caprichado. Com a buchinha que havia comprado na feira, esfreguei tudo. Usei até condicionador de cabelo e pasta de dentes, para não correr o risco de ter um "mau hálito anal". Até perfume passei, mas não sabia que ardia tanto... Vesti minha melhor cueca – ou pelo menos a que não tinha furos –, uma calça desbotada e uma camisa de malha justa, com os dizeres "Bad Boy", e fui à luta. Nessas horas, temos que demonstrar masculinidade, mesmo sabendo que, em breve, iriam me entubar pelo rabo.

Entrei no carro de um amigo taxista, que iria me levar aquele lugar "malditoso". Para minha surpresa, ele soltou uma gargalhada e perguntou:

— Tu vais fazer o exame pelo umbigo?

Não entendi a brincadeira, mas logo ele explicou:

— Cara, você tá de baby look!

Às vezes gosto de tomar umas cervejinhas, e minha barriga está um pouco saliente. A camisa apertada deixou meu umbigo completamente à mostra.

Cheguei à clínica mais nervoso ainda. Além de ser esculachado a viagem inteira, eu sabia o que me esperava no dia seguinte, no ponto de táxi. Conhecia o tamanho da língua do meu "amigo".

Uma atendente pediu que eu esperasse em um quarto. Mesmo dizendo que não precisava de companhia, meu amigo insistiu em ficar comigo.

Esperei por um longo tempo, com fome e sede, até que uma enfermeira apareceu:

— Coloca esse roupão aqui e fique sem nada por baixo. Depois, beba todo o líquido dessas três garrafas. Tem que tomar tudo, hein! Daqui a pouco volto para colocar o soro.

Soro? Mas que soro? Ninguém me falou nada sobre soro!

O líquido era horrível, mas eu estava com sede, então beber foi fácil. O difícil foi o que veio depois.

Fui colocar o roupão e, para evitar mais constrangimento, saí do banheiro com a bunda encostada na parede, porque a parte de trás do roupão era completamente aberta. Meu "mui amigo" já estava pronto para tirar fotos de todos os ângulos. Além de linguarudo, o cara era um paparazzo amador.

Cada vez que eu ia ao banheiro, ia acompanhado de dois encostos: meu amigo, ansioso por um "furo de reportagem", e o pedestal do soro. Descobri, por outra enfermeira, que o exame seria só à tarde. Me mandaram chegar cedo apenas para a preparação.

Perguntei à Enfermeira como seria o procedimento:

---  Primeiro eles vão lhe aplicar uma anestesia. Na verdade não é anestesia, e sim, um "sossega leão".

— Sossega Leão? Mas que sossega leão é esse, minha senhora? O Médico não me falarou nada disso!

— Você vai dormir — disse ela.

O alívio inicial foi substituído por um novo medo. Afinal, já tinha ouvido histórias de pessoas que morreram sob efeito de anestesia, na qual, eu ainda achava que era.

Meu amigo se despediu dizendo que voltaria à tarde para me buscar. Fiquei aliviado. Pelo menos não precisaria mais me arrastar pelas paredes. Mas o vazio da solidão me trouxe outro pavor: e se eu morresse? Peguei o celular e comecei a mandar mensagens de despedida para a família e alguns amigos.

"Te amo", escrevi para todos.

O pior foi quando mandei mensagem para um amigo, agradecendo pela amizade e dizendo que ele não precisava mais pagar o que me devia. Ninguém entendeu nada...

Só não consegui me despedir da sogra porque, na hora de digitar, o médico entrou esbaforido no quarto.

Quantas vezes você já foi ao banheiro? — perguntou.

Doutor, eu não contei, mas acho que umas dez vezes.

É pouco. Vou chamar a enfermeira.

Minutos depois, ouvi batidas na porta. Entrou uma enfermeira que eu ainda não conhecia. Linda, delicada. Segurava uma bisnaga misteriosa.

Vira o bumbum... O senhor vai precisar de uma lavagem.

O quê? Que lavagem? Não preciso de mais lavagem! Já lavei tudo muito bem, tanto aqui quanto em casa. Até condicionador, pasta de dentes e perfume eu passei!

Não é por fora, meu senhor. É por dentro...

Nem pensar! Quem mandou você fazer isso? Eu quero falar com o médico!

Foi ele quem mandou, e agora está ocupado.

Fiquei arrasado. Além de me chamar de "senhor", ainda me enfiou aquele troço gelado sem me dar tempo de correr para o banheiro. Sujei a cama toda.

Por sorte, meu amigo não estava mais ali. Senão, teria mais um "furo de reportagem".

Depois desse episódio humilhante, quase vesti minhas roupas para ir embora. Mas aguentei firme. Concentrei-me, rezei e tentei me acalmar. Afinal, tem mulheres e até homens que lidam com coisas muito maiores a vida inteira e gostam!

De repente, entraram dois homens com uma maca.

Vamos lá, chegou tua hora.

Já tão deprimido, achei que já estava morto. "Chegou minha hora de quê? De ser enterrado?"

Pô, vocês não sabem bater na porta? E para que essa maca?

São normas do hospital. O senhor tem que ir de maca...

Não preciso ir de maca! E, por incrível que pareça, ainda estou vivo e andando! Além do mais, só vou fazer aquele exame... aquele que parece uma endoscopia... só que por baixo.

Sim, mas acidentes acontecem. Seus intestinos podem ser perfurados.

Aiii, meu Deus! Cadê o médico? Cadê meu amigo???

Tive que deitar na maca. Me levaram por corredores intermináveis. O anestesista fez algumas perguntas, aplicou uma injeção, e... apaguei.

Quando acordei, o médico estava ao meu lado.

Tudo certo! O único problema foram os barulhos.

Barulhos? Que barulhos, doutor?

Rapaz, você ainda tinha gases lá dentro... e, nossa, como você ronca!


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



Links:
RECANTO DOS CONTOS 
recantodoscontosecausos.blogspot.com

RECANTO DAS POESIAS 
recantodaspoesiasblog.blogspot.com


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MISÉRIA, POESIA E TRISTEZA



Um sujeito maltrapilho, sujo e sem a maioria dos dentes da frente ficava a pedir esmolas em frente à casa do seu Manoel. Sua esposa bastante chateada com aquilo vivia a reclamar:
- O Manoel você tem que tomar uma providência, esse cara fedorento em frente à nossa casa fica deixando restos de comida pelo chão, qualquer dia vai ficar cheio de ratos por aqui.
- Calma Mulher! Vou falar com ele.
Então seu Manoel saiu para conversar com homem. Chegando ao local encontrou-o lendo um velho livro de poesias, e disse:
- Moço o senhor pode sair de frente da minha casa? Está muito sujo e estamos sentindo esse cheiro lá dentro.
O homem respondeu:

- Meu caro, amigo,
estou ao relento
porque ninguém me dá abrigo,
ajuda e sustento.

- Por que o senhor não procura um albergue? Na minha porta é que não pode ficar...

- Estou aqui por uma causa nobre,
por isso não me esnobe,
só trago o amor,
meu bom, senhor.

- Que amor? Você está me atrapalhando!

- Atrapalhando!?
Eu só estou explanando
a minha situação
sem abstenção.

- Logo vi... O senhor não é dessa cidade.


- Eu vim lá do sertão,

do sertão do Maranhão,

lá não tinha nem calçado,

mas esse era o meu fado,

ficar de pé no chão.


Até o pão faltava,

meu filho então chorava,

tamanha necessidade

vivíamos de caridade.


Mas foi aí que meu pai me disse:

- Deixe de tolice

e vá a outra cidade procurar

um emprego e casa pra morar.


O senhor Manoel já estava ficando comovido com aquela situação, então, exclamou mais uma vez:
- O senhor não sabe que chegar a uma cidade grande sem ter ninguém da família para ajudá-lo fica muito difícil? E o que tem feito depois que chegou? Já conseguiu algum emprego e onde está seu filho?


- Cheguei à grande cidade

sem saber o que fazer,

mas a minha realidade

é não ter o que comer.


Durmo ao relento,

procuro meu sustento

pedindo esmola,

mas o que me consola

é o pensamento

de saber que meu filho

não é mais maltrapilho,

com uma rica família ele está...


- Ué, mas ele encontra-se aqui nessa cidade? Perguntou Sr. Manoel.


- Sim, e sei que está muito bem... Por isso não vou mais além,

me abrigarei na igreja,

porque não quero, que assim, ele me veja.

Sairei, sim, de frente da casa dele,

mas antes queria lhe agradecer o tanto que faz por ele...


&


Meu Deus!!!

O senhor é o genitor do meu filho?!

Entre, não haverá empecilho,

não irei desprezá-lo,

só quero abrigá-lo

e lhe dar um pouco de conforto,

porque nosso filho está morto.


Fiz o que pude,

ele não tinha saúde

e hoje encontra-se no céu.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO