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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM PALHAÇO NA CIDADE



Um Palhaço na Cidade

Aquele cara era "o tal". Era também o assunto do momento naquela cidade pacata. Uma cidadezinha simples, onde o povo não tinha muitas opções de entretenimento além de bares e biroscas. Não era um lugar turístico, e seus habitantes não estavam acostumados com gente que ostentasse riqueza.

Um circo havia chegado, e com ele, um sujeito muito elegante: joias, roupas e sapatos de marca. O comentário geral era que ele deveria ser o dono do circo. Como o barzinho do Seu Severino era o mais próximo, ele passou a frequentá-lo.

— Seu Severino, o senhor já comprou o uísque de marca que o moço do circo pediu? — perguntou Josenildo, ajudante do bar.

— Já comprei, sim. Mas deu um trabalho danado! Tive que ir até a cidade vizinha e, ainda assim, só encontrei o nacional.

— Ihhh, Seu Severino… O homem é chique demais, não vai gostar disso.

— Deixa comigo… Cadê aquela garrafa velha com o rótulo rasgado de uísque importado que o falecido Rufino esqueceu aqui?

— Seu Severino, o senhor é demais! Dizem que quanto mais velho, melhor o uísque… Se a garrafa é velha e o rótulo está rasgado, ele vai achar que é um uísque raríssimo.

— Pois é. Agora enche logo essa garrafa de uísque nacional antes que ele apareça.

Nesse momento, o homem entrou no bar.

— Boa tarde, doutor! Seu Severino já está pegando o seu uísque! — disse Josenildo, disfarçando.

— Ótimo, vou tomar só uma dose e depois almoçar. Qual o cardápio de hoje?

— Olha, moço, aqui não temos cardápio, não. É PF mesmo. Tem ensopado de carne com batatas ou frango com quiabo.

— O senhor não tem um peixe, tipo… salmão com alcaparras?

— Eu nem sei o que é isso, meu bom senhor… Mas posso anotar e Seu Severino providenciará.

— Está bem, me sirva qualquer coisa então. Pode ser o ensopado. Ah, por favor, avise ao dono que hoje não deu pra eu ir ao banco. Amanhã eu acerto a conta, ok?

— Não se preocupe, doutor! Seu Severino nem esquenta com isso.

O homem aproveitou-se da gentileza e tomou umas dez cervejas, além da garrafa inteira daquele "uísque" falso. Saiu cambaleando, mais bêbado que peru de Natal.

No dia seguinte, Josenildo perguntou de novo:

— Seu Severino, o senhor já comprou aquele negócio lá… o peixe com "alcatar"?

— Seu burro! É salmão com alcaparras! E vê se não promete mais nada para ninguém! Esse sujeito só pede coisa cara e difícil de achar, e até agora não pagou nada!

— Mas o senhor comprou?

— Claro que não! Comprei cação e três pés de alface.

— Foi isso que ele pediu?

— Não, mas a gente dá um jeito. Ele paga o preço do salmão e come cação.

Minutos depois, o homem voltou ao bar.

— Boa tarde!

— Boa tarde, moço! Seu Severino já está aprontando seu cação com alface...

— Cação? Eu pedi salmão com alcaparras!

— Desculpe, moço, falei errado. O peixe ele até achou, mas o outro negócio, as... as alcapar... Ele não achou.

— Quer dizer que vou comer salmão com alface? Tá bom, então me traga uma dose daquele uísque.

— Então... O senhor tomou a garrafa toda ontem...

— Serve uma cachaçinha?

— Cachaça?! Você está louco? Eu sou homem de tomar cachaça?! Por que não compraram meu uísque?! Me traz uma cerveja mesmo.

— É pra já, doutor!

— Ah, e amanhã eu quero caviar.

— Nossa! Essa comida eu já ouvi falar, mas nunca vi, não, senhor…

— Vá pegar logo minha comida!

Mais tarde, Josenildo avisou ao patrão:

— Seu Severino, o moço do circo disse que amanhã quer comer caviar.

— O quê?! Eu te disse pra não prometer mais nada! Agora vou ter que ir até o Mercado do outro lado do rio! Vamos fechar mais cedo.

— Oba! Vamos sair mais cedo!? Acho que vou ao circo.

— Vamos sair mais cedo, sim, mas vou descontar do seu salário.

No dia seguinte, a esposa doente de Seu Severino ajudava na cozinha, pois ele ainda não havia voltado da longa jornada atrás do caviar. Então, o sujeito apareceu.

— Boa tarde! Seu Severino saiu para procurar seu pedido e ainda não voltou… O senhor quer esperar ou prefere um prato feito com macarrão, arroz, feijão e salada de alface?

— O quê?! Como vou esperar? Você já viu a hora?! Traga-me uma dose de uísque.

— Não tem, não senhor. Seu Severino não comprou… E acho que eu esqueci de lembrá-lo.

— Esqueceu?! Você é muito enrolado! Não volto mais aqui! A partir de hoje, só vou no concorrente. Adeus!

E saiu batendo o pé.

Minutos depois, Seu Severino chegou esbaforido, molhado, mas sorrindo.

— Achei! Achei o caviar! Vou direto pra cozinha preparar!

— Seu Severino…

— Agora não posso! Vou cozinhar o caviar e cobrar o triplo do preço!

— Seu Severino, acho que não precisa ter pressa, não…

— Ué, por quê? Ele vai chegar mais tarde?

— Não… Ele não vai chegar. Foi pro concorrente.

— O quê?! Mas ele pediu o caviar!

— Pois é… Mas o senhor demorou. E sem uísque, ele resolveu ir embora.

— Droga! Bom, pelo menos ele pagou a conta, né?

— Então… Eu esqueci de cobrar.

— O QUÊ?! SOME DAQUI! Vai atrás desse cara! E só volta com o dinheiro da conta!

Passaram-se alguns dias, e Seu Severino recebeu uma carta de Josenildo. Ela dizia:

"Seu Severino, como o senhor disse pra eu só voltar com o dinheiro da conta, ainda não consegui recuperar. Então, preferi escrever esta carta."

"Descobri que o sujeito não é dono do circo… É um mero PALHAÇO. Ele até me deu um relógio de ouro pela dívida, mas, quando vendi pro ourives, ele desfez o negócio e disse que era falso! Como eu disse que o relógio era seu, ele falou que vai chamar a polícia. CUIDADO!"

"E tem mais… Tudo o que o palhaço ostentava era falso. Agora ele está comendo no concorrente e, ironicamente, pagando tudo em dinheiro. O mais engraçado? Ele não pede nada caro. Come o que tem na casa."

"A propósito, estou trabalhando aqui no concorrente… Um forte abraço, Seu Severino."

FIM.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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domingo, 24 de novembro de 2013

DONA ELIETE E OS ANIMAIS


- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.

Era uma senhora com a idade bastante avançada que havia passado por determinadas situações e decidido deixar os prazeres da vida para se dedicar com afinco aos animais, inclusive largado ao corpo docente onde ficara anos a lecionar. Aceitava todo e qualquer tipo de animal, mesmo estando saudável ou doente. Podiam estar machucados ou atropelados e mesmo estando entre a vida e a morte ela chamava os amigos veterinários que muito a ajudavam. Ela os chamavam de Almas Caridosas!
Seu amor e carinho pelos animais era tamanho, assim como, a revolta que tinha com pessoas sem escrúpulos e que maltratavam os peludos. Por isso todos que iam em sua casa escutavam aquela frase acima.
Antes de aceitar um animal saudável ela fazia um tremendo "questionário", um monte de perguntas para seus donos do tipo: - Por que motivo os faziam querer desfazer-se dos bichinhos?
E muitas das vezes a vi dando bronca em quem simplesmente “queria se desfazer do animal” sem nenhuma justificativa.
- Vocês adquirem animais só por vaidades, não é? Isso aqui que você está me trazendo, não é brinquedinho, não, que quando fica velho ou quebrado pode ser jogado fora. O animal também tem sentimentos onde seu amor maior será sempre pelo dono. Pode ser rico ou pobre que ele estará sempre ao seu lado e mesmo que passe fome ele não te abandonará. Coisa que você não está fazendo nesse momento.
Ela tinha um estremo mau humor em relação as pessoas. Acho que para ela todos desconhecidos eram iguais. Mas com os bichos, não, era bem diferente. Eles o tiravam tudo que fosse possível, inclusive sua vida social, uma vida normal de um simples ser humano. Seu salário de aposentada era pequeno, muita das vezes, todos passavam por necessidades, onde a maior prejudicada era ela mesma. Deixava até de comprar coisas de uso pessoal, assim como: roupas, sapatos, bolsas, etc. Quase não ia a médico e nem se tratava porque os animais estavam sempre em primeiro lugar.
Haviam algumas empresas ou pessoas que a ajudavam, com: jornais velhos; restos de comida; remédios e às vezes dinheiro. Como na época ainda não existia ou era muito caro comprar ração, eu mesmo, a mando de minha mãe levava todo final de semana cabeça, pescoço e pé de galinha que o dono do aviário lá de perto da minha casa guardava aos dias úteis. Mesmo assim, às vezes não era o suficiente, tamanha quantidade de animais.
Dona Eliete andava com roupas rasgadas, não usava mais perfume, muito menos ia ao salão. Muitas das vezes eu via piolho descendo em sua testa ou até mesmo carrapato em seu vestido. E também já estava aparecendo feridas em sua pele. Parecia estar se igualando a eles, em sua: simplicidade; aparência; no olhar e na pureza de um animal. Assim como os animais, quando aparecia um estranho, ela se retraia e ficava muito desconfiada. Mas se a pessoa trouxesse algum tipo de ajuda, ou mesmo, uma palavra de amizade e carinho, Dona Eliete, fazia aquela festa e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Muitos domingos a vi na feira, “na hora da xepa” catando restos de comidas e pedindo ajuda aos feirantes. Pessoas que não a conheciam a chamavam de Louca ou Mendiga sem saber a imensidão daquele coração; daquela dedicação; daquele amor e o quanto foi importante seu trabalho em relação aos animais. Aquela mulher foi única, nunca vi e nem conheci ninguém igual...
Depois casei e fui morar num bairro distante e perdi o contato. Mais tarde, fiquei sabendo que construíram um prédio ao lado de sua casa e que os moradores reclamavam muito do barulho e do cheiro dos animais. Entraram na justiça contra ela pedindo o afastamento dos animais daquele local. Também soube que ela morrera, não fiquei sabendo o motivo. Deve ter sido de desgosto porque além de ter abdicado sua vida como um ser humano normal e ter vivido como um animal, ela era feliz pelo que fazia e por estar ao lado deles.
Algo de bom ficou em mim, aprendi que a maior riqueza não está a vista dos nossos olhos, não precisamos ostentar valores materiais e que nossa maior herança está dentro de nós.
Agora quando passo em frente a sua casa sinto uma nostalgia e uma tristeza muito grande pela sua ausência, pelo que aprendi e pelos animais que também ajudei a resgatar. Quantos aos animais não sei onde foram parar... No "prédio maldito" ninguém soube ou não quiseram me falar. Devem ter ido parar na SUIPA...


Obs: Esse caso se passou na Zona Norte do Rio de Janeiro, mais precisamente no Bairro do Engenho de Dentro onde Dona Eliete morava.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 







sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O DIA DA COLONOSCOPIA

O DIA DA COLONOSCOPIA

Havia chegado o dia – aquele que prometia ser longo e péssimo. Um dia que ficaria marcado, porque, quando fazemos algo que não nos agrada, o tempo custa a passar. E foi exatamente o que aconteceu.

Bem, esse também foi o dia "D"... O dia "de" eu ter perdido a virgindade anal. Não para um pênis, muito menos para o dedo de um médico, mas sim para uma máquina. Máquina essa que nem sabe fazer um carinho ou, muito menos, sussurrar ao pé do ouvido.

Naquela manhã interminável, acordei cedo. Ou melhor, levantei da cama, porque, de tão tenso, não havia conseguido dormir direito. A noite fora longa, cheia de pesadelos e pensamentos sobre o que estava prestes a acontecer.

Eu era leigo no assunto, e o médico pouco me explicou. Disse apenas que seria algo parecido com o exame de endoscopia, só que "por trás". Também recomendou que eu fosse em jejum. Fiquei nervoso. Pensava que pudesse doer... ou, pior ainda, que eu pudesse gostar. Se doesse, como eu iria trabalhar sentado no meu táxi no dia seguinte? E se eu gostasse? Tantos homens adoram ser penetrados porque experimentaram uma vez... e gostaram.

"Será que vou virar gay?", pensava eu.

Para evitar qualquer constrangimento, tomei um banho caprichado. Com a buchinha que havia comprado na feira, esfreguei tudo. Usei até condicionador de cabelo e pasta de dentes, para não correr o risco de ter um "mau hálito anal". Até perfume passei, mas não sabia que ardia tanto... Vesti minha melhor cueca – ou pelo menos a que não tinha furos –, uma calça desbotada e uma camisa de malha justa, com os dizeres "Bad Boy", e fui à luta. Nessas horas, temos que demonstrar masculinidade, mesmo sabendo que, em breve, iriam me entubar pelo rabo.

Entrei no carro de um amigo taxista, que iria me levar aquele lugar "malditoso". Para minha surpresa, ele soltou uma gargalhada e perguntou:

— Tu vais fazer o exame pelo umbigo?

Não entendi a brincadeira, mas logo ele explicou:

— Cara, você tá de baby look!

Às vezes gosto de tomar umas cervejinhas, e minha barriga está um pouco saliente. A camisa apertada deixou meu umbigo completamente à mostra.

Cheguei à clínica mais nervoso ainda. Além de ser esculachado a viagem inteira, eu sabia o que me esperava no dia seguinte, no ponto de táxi. Conhecia o tamanho da língua do meu "amigo".

Uma atendente pediu que eu esperasse em um quarto. Mesmo dizendo que não precisava de companhia, meu amigo insistiu em ficar comigo.

Esperei por um longo tempo, com fome e sede, até que uma enfermeira apareceu:

— Coloca esse roupão aqui e fique sem nada por baixo. Depois, beba todo o líquido dessas três garrafas. Tem que tomar tudo, hein! Daqui a pouco volto para colocar o soro.

Soro? Mas que soro? Ninguém me falou nada sobre soro!

O líquido era horrível, mas eu estava com sede, então beber foi fácil. O difícil foi o que veio depois.

Fui colocar o roupão e, para evitar mais constrangimento, saí do banheiro com a bunda encostada na parede, porque a parte de trás do roupão era completamente aberta. Meu "mui amigo" já estava pronto para tirar fotos de todos os ângulos. Além de linguarudo, o cara era um paparazzo amador.

Cada vez que eu ia ao banheiro, ia acompanhado de dois encostos: meu amigo, ansioso por um "furo de reportagem", e o pedestal do soro. Descobri, por outra enfermeira, que o exame seria só à tarde. Me mandaram chegar cedo apenas para a preparação.

Perguntei à Enfermeira como seria o procedimento:

---  Primeiro eles vão lhe aplicar uma anestesia. Na verdade não é anestesia, e sim, um "sossega leão".

— Sossega Leão? Mas que sossega leão é esse, minha senhora? O Médico não me falarou nada disso!

— Você vai dormir — disse ela.

O alívio inicial foi substituído por um novo medo. Afinal, já tinha ouvido histórias de pessoas que morreram sob efeito de anestesia, na qual, eu ainda achava que era.

Meu amigo se despediu dizendo que voltaria à tarde para me buscar. Fiquei aliviado. Pelo menos não precisaria mais me arrastar pelas paredes. Mas o vazio da solidão me trouxe outro pavor: e se eu morresse? Peguei o celular e comecei a mandar mensagens de despedida para a família e alguns amigos.

"Te amo", escrevi para todos.

O pior foi quando mandei mensagem para um amigo, agradecendo pela amizade e dizendo que ele não precisava mais pagar o que me devia. Ninguém entendeu nada...

Só não consegui me despedir da sogra porque, na hora de digitar, o médico entrou esbaforido no quarto.

Quantas vezes você já foi ao banheiro? — perguntou.

Doutor, eu não contei, mas acho que umas dez vezes.

É pouco. Vou chamar a enfermeira.

Minutos depois, ouvi batidas na porta. Entrou uma enfermeira que eu ainda não conhecia. Linda, delicada. Segurava uma bisnaga misteriosa.

Vira o bumbum... O senhor vai precisar de uma lavagem.

O quê? Que lavagem? Não preciso de mais lavagem! Já lavei tudo muito bem, tanto aqui quanto em casa. Até condicionador, pasta de dentes e perfume eu passei!

Não é por fora, meu senhor. É por dentro...

Nem pensar! Quem mandou você fazer isso? Eu quero falar com o médico!

Foi ele quem mandou, e agora está ocupado.

Fiquei arrasado. Além de me chamar de "senhor", ainda me enfiou aquele troço gelado sem me dar tempo de correr para o banheiro. Sujei a cama toda.

Por sorte, meu amigo não estava mais ali. Senão, teria mais um "furo de reportagem".

Depois desse episódio humilhante, quase vesti minhas roupas para ir embora. Mas aguentei firme. Concentrei-me, rezei e tentei me acalmar. Afinal, tem mulheres e até homens que lidam com coisas muito maiores a vida inteira e gostam!

De repente, entraram dois homens com uma maca.

Vamos lá, chegou tua hora.

Já tão deprimido, achei que já estava morto. "Chegou minha hora de quê? De ser enterrado?"

Pô, vocês não sabem bater na porta? E para que essa maca?

São normas do hospital. O senhor tem que ir de maca...

Não preciso ir de maca! E, por incrível que pareça, ainda estou vivo e andando! Além do mais, só vou fazer aquele exame... aquele que parece uma endoscopia... só que por baixo.

Sim, mas acidentes acontecem. Seus intestinos podem ser perfurados.

Aiii, meu Deus! Cadê o médico? Cadê meu amigo???

Tive que deitar na maca. Me levaram por corredores intermináveis. O anestesista fez algumas perguntas, aplicou uma injeção, e... apaguei.

Quando acordei, o médico estava ao meu lado.

Tudo certo! O único problema foram os barulhos.

Barulhos? Que barulhos, doutor?

Rapaz, você ainda tinha gases lá dentro... e, nossa, como você ronca!


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MISÉRIA, POESIA E TRISTEZA



Um sujeito maltrapilho, sujo e sem a maioria dos dentes da frente ficava a pedir esmolas em frente à casa do seu Manoel. Sua esposa bastante chateada com aquilo vivia a reclamar:
- O Manoel você tem que tomar uma providência, esse cara fedorento em frente à nossa casa fica deixando restos de comida pelo chão, qualquer dia vai ficar cheio de ratos por aqui.
- Calma Mulher! Vou falar com ele.
Então seu Manoel saiu para conversar com homem. Chegando ao local encontrou-o lendo um velho livro de poesias, e disse:
- Moço o senhor pode sair de frente da minha casa? Está muito sujo e estamos sentindo esse cheiro lá dentro.
O homem respondeu:

- Meu caro, amigo,
estou ao relento
porque ninguém me dá abrigo,
ajuda e sustento.

- Por que o senhor não procura um albergue? Na minha porta é que não pode ficar...

- Estou aqui por uma causa nobre,
por isso não me esnobe,
só trago o amor,
meu bom, senhor.

- Que amor? Você está me atrapalhando!

- Atrapalhando!?
Eu só estou explanando
a minha situação
sem abstenção.

- Logo vi... O senhor não é dessa cidade.


- Eu vim lá do sertão,

do sertão do Maranhão,

lá não tinha nem calçado,

mas esse era o meu fado,

ficar de pé no chão.


Até o pão faltava,

meu filho então chorava,

tamanha necessidade

vivíamos de caridade.


Mas foi aí que meu pai me disse:

- Deixe de tolice

e vá a outra cidade procurar

um emprego e casa pra morar.


O senhor Manoel já estava ficando comovido com aquela situação, então, exclamou mais uma vez:
- O senhor não sabe que chegar a uma cidade grande sem ter ninguém da família para ajudá-lo fica muito difícil? E o que tem feito depois que chegou? Já conseguiu algum emprego e onde está seu filho?


- Cheguei à grande cidade

sem saber o que fazer,

mas a minha realidade

é não ter o que comer.


Durmo ao relento,

procuro meu sustento

pedindo esmola,

mas o que me consola

é o pensamento

de saber que meu filho

não é mais maltrapilho,

com uma rica família ele está...


- Ué, mas ele encontra-se aqui nessa cidade? Perguntou Sr. Manoel.


- Sim, e sei que está muito bem... Por isso não vou mais além,

me abrigarei na igreja,

porque não quero, que assim, ele me veja.

Sairei, sim, de frente da casa dele,

mas antes queria lhe agradecer o tanto que faz por ele...


&


Meu Deus!!!

O senhor é o genitor do meu filho?!

Entre, não haverá empecilho,

não irei desprezá-lo,

só quero abrigá-lo

e lhe dar um pouco de conforto,

porque nosso filho está morto.


Fiz o que pude,

ele não tinha saúde

e hoje encontra-se no céu.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 



terça-feira, 19 de novembro de 2013

CONFUSÃO NO ALTAR

CONFUSÃO NO ALTAR 

Aristeu já estava há horas enchendo a paciência dos fregueses no bar do seu Manoel. Seu estado etílico não era dos melhores, mas isso não o impediu de pedir mais uma dose. Diante da negativa do dono, insistiu:

— Só mais uma, seu Manoel! A saideira, prometo que depois vou pra casa dormir.

Tanto fez que conseguiu convencer o dono a servi-lo. Mas, no instante em que levou o copo à boca, ouviu um grito estridente:

— Aaaai, meu Deus! Seu cretino, está bebendo de novo!? Esqueceu que vai me levar a um casamento?!

Era Gertrudes, sua esposa, furiosa.

— Vou levar, sim, mulher... Mas deixa eu terminar esse copinho aqui, depois tiro um cochilo e a gente vai, ok?

— Cochilo?! Já estamos atrasados! Vamos agora, seu cachorro sem vergonha!

— Isso mesmo, Dona Gertrudes! Leva esse traste pra casa! — concordou seu Manoel, aliviado.

De volta para casa, Gertrudes impôs ordem:

— Banho já! E escova esses dentes direito pra tirar esse bafo de cachaça!

Depois de muito custo, se arrumaram e saíram. Mas a jornada até a igreja foi um desastre: Aristeu arranhou o carro na saída da garagem, parou no meio do caminho alegando que precisava ir ao banheiro — mas na verdade tomou mais uma dose — e, no estacionamento, bateu nos carros da frente e de trás antes de finalmente conseguir estacionar.

Assim que chegaram, Gertrudes saiu do carro às pressas.

— Espera, mulher, vamos entrar juntos!

— Nem pensar! Você só me faz passar vergonha.

Gertrudes entrou sozinha e sentou-se ao lado de uma amiga.

— Oi, amiga! Tudo bem? Você parece nervosa.

— Tô, sim! Meu marido está num porre só. Não quero ficar perto dele.

Poucos minutos depois, um estrondo ecoou pela igreja. O padre interrompeu a cerimônia e todos olharam para trás. Aristeu estava caído no chão, depois de tropeçar no degrau e derrubar o pedestal de flores.

— Viu só, amiga? E eu achando que ele já estava sentado!

A cerimônia prosseguiu, mas não por muito tempo. Um burburinho começou entre os convidados, seguido por risadinhas. O padre fez cara feia, tentando manter a ordem. Gertrudes, desconfiada, olhou para trás e se deparou com seu marido dormindo profundamente — e roncando alto.

Furiosa, levantou-se e foi acordá-lo:

— Vou te matar, homem! Está todo mundo olhando! E ainda está ouvindo esse radinho de pilha dentro da igreja?!

— Não está vendo, mulher? Estou com fones de ouvido!

O padre retomou a cerimônia, visivelmente irritado. Tudo seguia bem até o momento de reflexão, quando os convidados receberam a hóstia. Foi aí que um grito ensurdecedor ecoou pelo salão:

— GOOOOOOL DO MENGÃO!!!

O padre se assustou tanto que deixou a hóstia cair. O noivo, um vascaíno roxo, ficou vermelho de raiva.

— Calma, Tenório, não faça nada! Você vai estragar nosso casamento! — tentou acalmá-lo a noiva.

Mas parecia que ela já previa o pior, porque, ao final da cerimônia, o padre fez a pergunta tradicional:

— Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre.

Aristeu levantou-se cambaleando, pegou o microfone e disse:

— Senhoras e senhores... Não tenho nada contra este casamento! Só queria dar um testemunho como amigo da família.

O salão ficou em silêncio. Gertrudes gelou.

— Conheço bem a Maria! Vi sua juventude complicada… Hoje é uma mulher moderna, usa sainha curta e fala muito palavrão — mas quem não fala, né? Tem muitos amigos e conhece gente influente. Todos os dias chega de carona em um carro diferente... E só carrão, hein!

O noivo franziu a testa.

— E o Tenório? Ah, dele sou suspeito pra falar! Nos encontramos sempre pelos bares da vida. Rapaz distinto, sempre de roupa de grife e carrão importado. Nunca o vi trabalhando, mas sei que ajuda muito suas primas... Sempre dá presentinhos pra elas lá na casa da luz vermelha. E que primas, hein, Tenório?!

A noiva arregalou os olhos.

— Que história é essa de primas, Tenório?! 

— E você, Maria?! Todo dia chegando de carona em um carro diferente?!

O caos estava instaurado. Gritos, xingamentos, empurrões. O casamento virou um ringue. O padre desmaiou. Os convidados fugiram.

E Aristeu? Bom… Ele ainda queria tomar um gole daquele "vinho santo", mas acabou apanhando tanto que foi parar no hospital. Ainda delirando, achava que estava na festa, brindando com champanhe.

— Tim-tim, pessoal! Viva os noivos!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O ENTERRO DO SEU MANOEL DA BIROSCA


O enterro do seu Manoel da Birosca iria ser na parte da tarde, mas o povo desde cedo encontrava-se em seu velório. Dona Maria Bigorna, sua esposa, era adepta de um bom prato e não ficava sem uma birita. Logo que seu marido faleceu ela encomendou bastantes bebidas e salgados, e malandramente, divulgou para seus fregueses. Os “amigos” e frequentadores da birosca do senhor Manoel, sabendo disso, lotaram o velório daquele bondoso senhor. Estavam muito empolgados, afinal, nunca tinham visto um enterro tão festivo e regado a comes e bebes. Porém estavam “preocupados” pela demora da, senhora Bigorna. Então, seu Alair do Pé Inchado, comentou com seus amigos:

- Cadê dona Bigorna que não aparece, hein? Tô cheio de sede e ela está demorando muito...Onde será que ela se enfiou?

- Do jeito que ela bebe, esse velório vai ser uma festa. – Falou Biricutico empolgado.

- É, amigos eu já fui lá no bar tomar uma e fiquei duro, tive de pagar a vista. Que falta o seu Manoel faz, não é mesmo pessoal? Com ele a gente pendurava. – Disse seu José Du Calote.

Na realidade ninguém pagava nada ao seu Manoel, o enrolavam sempre. Dona Bigorna sabia e se estressava muito com eles por causa daquilo. Depois que a metade da clientela encontrava-se de porre e a outra ainda estava nos bares dos arredores, chegou Dona Maria Bigorna, chorosa, mas com os salgados e as bebidas que prometera... Estava acompanhada dos seus cinco filhos: Pedrão do Bope; Paulão Senta a Pua; Marcão Tijolada; Ricardão Capoeira e Serginho Mengão, da “torcida raça rubro negra”. De repente o velório lotou, parecia que tinham vindo pelo cheiro dos salgados e das bebidas... Conversa vai, conversa vem, João Deprê ao ver os filhos do seu Manoel, comentou com os amigos: 

- Eu estou com um mau pressentimento, não devia ter voltado lá do bar.

- Está maluco? Você iria perder esse tremendo velório? Relaxa e toma mais um copo, pelo menos aqui é de graça... E a nossa dívida com Seu Manoel também acabou, ele morreu... Vamos comemorar, minha gente! – disse Enfadonho Talagada.

- Fala baixo... Nós não estamos comemorando nada. Você já está bêbado? Viu o tamanho dos filhos dele? – falou Deprê.

- Vi, sim, e daí? Vai dizer que também não posso dizer que sou Vascaíno? Vascooo, Vascooo, Vascooo... – respondeu Talagada.

Todos rapidamente saíram de perto de Talagada, porque sabiam da fama dos filhos Flamenguistas do Seu Manoel.

Mais tarde, após estarem todos de barriga cheia e de ter rolado muita bagunça, inclusive, quase derrubaram o caixão, os filhos de Dona Maria Bigorna amontoaram-se na porta e não deixaram que mais ninguém saísse. Seu João Deprê ainda tentou escapar e disse que queria ir ao banheiro, mas Ricardão Capoeira não deixou... Alegou que a oração já iria começar e queria que todos ficassem, porque sua mãe faria uma homenagem a seu pai. Então, Anastácio Dupó Traçado da silva, perguntou ao Deprê:

- O que houve, você está com cara de preocupado?

- Ai, meu Deus do céu... Vai acontecer alguma coisa de ruim e eu estou apertado para ir ao banheiro. Eu devia tão pouco ao Seu Manoel... Só uns mil reais.

- Por que você está falando isso? A dívida agora acabou... Olha, parece que Dona Bigorna vai começar com a homenagem.

Dona Maria Bigorna, após pedir a palavra, pegou na bolsa um caderno com uma lista imensa de fiados e declamou:

- Tenho a certeza de que o meu Marido faleceu por causa disso aqui...

Seu José Du Calote jogou-se pela janela que era no quinto andar, caiu em cima do roseiral... Se furou e se quebrou todo, mas conseguiu escapar. Todos juntos começaram a rezar, uns até a chorar, mas ela firme continuou:

- Manoel se vivo fosse iria gostar de ver o que vai acontecer agora...

Seu Deprê teve um ataque de histeria, mas ela não ligou. 

- Nesse caderno consta o nome de pessoas que diziam ser nossos amigos, principalmente do Manoel...

Enfadonho Talagada, Biricuticu e mais umas dez pessoas tiveram um mal súbito. Anastácio Dupó que encontrava-se ao fundo, mesmo sendo procurado da justiça, preferiu pegar o celular e ligar para polícia. Falando baixinho, disse que iria se entregar, mas que viessem logo. 
E Dona Maria continuou:

- Pessoas que só vieram aqui, por interesse na bebida e na comida, onde, não vi uma lágrima se quer...

- Olha meus olhos, Dona Bigorna, vermelhos de tanto chorar. Por sinal, esse enterro sai ou não sai? – perguntou seu Ataláio Jurubêbo

- Seus olhos estão vermelhos por causa da cachaça, seu Ataláio. O Senhor está chorando agora, não sei porque motivo...

Nesse chove e não molha, nessa lengalenga, Dupó, olhou pela janela e gritou:

- A Polícia vem aí!!!

Os filhos de Dona Maria sumiram, foi um corre-corre generalizado, gente rolando pela escada, gente se escondendo atrás do caixão e o Anastácio Dupó indo em cana.

Mas tarde, após o enterro, um coveiro comentou com o outro:

- Eu nunca vi um enterro tão vazio, só tinha a viúva. Esse cara devia ser muito ruim.

- Eu não entendi, o velório estava cheio de gente, mas ninguém quis assistir ao enterro. A viúva  ficava o tempo todo falando ao Marido que fez as suas vontades... Deu  uma festa em seu velório, não brigaria mais com seus amigos e nem iria mais cobrá-los as dívidas. Ela também falou que não entendeu o motivo do tumulto, porque só queria dizer-lhes umas verdades. E que não sabe porque os filhos também sumiram. 


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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A FARMÁCIA/BOTECO DO SEU JOAQUIM

A Farmácia-Boteco do Seu Joaquim

O boteco do Seu Joaquim era um verdadeiro "centro de soluções". Tinha de tudo, desde farinha até melado. Mas o forte mesmo era a "farmácia" de bebidas.

— Seu Joaquim, estou com uma diarreia que está um horror!

— Tome uma genebra, meu bom senhor.

— Seu Joaquim, por favor, tem aquele remédio pra resfriado?

— É comigo mesmo! Vou fazer um coquetel e logo você estará curado.

— Seu Joaquim, eu queria aquele remedinho pra dor de cabeça...

— Amigo, não enlouqueça! Agora tenho um à base de ervas... O nome é "paratudo". É só acrescentar uma cachacinha que sua cabecinha nunca mais vai doer.

No balcão do Seu Joaquim, cada problema tinha uma solução "medicinal":

Licor de menta para rouquidão.

Licor de mel para expectorar.

Jurubeba para o fígado.

E um cardápio inteiro de milagres alcoólicos.

Até que, certa noite, um freguês entrou aflito.

— Seu Joaquim, preciso falar com o senhor a sós!

— Pois não, amigo. Está com algum problema?

— Sim... Eu... Pifei.

— Pifou? Como assim? Desmaiou? Ah, mas eu tenho um remé...

— NÃO! Não é isso! Pifei... na cama, com minha amada.

— Ahhh! Mas por que não disse logo, homem?! Tome uma catuaba!

A fama dos "remédios" do Seu Joaquim crescia tanto que sua esposa, Dona Carmelita, já estava preocupada.

— Joaquim, já falei pra você parar com isso! Um dia, vai ter problema. Você não é médico!

— Problema? Que nada, mulher! Eu só dou a eles o que mais querem: bebida!

Nesse instante, um freguês interrompeu.

— Desculpe atrapalhar o papo, mas estou enjoado e com uma ressaca sem fim. Acho que vou tomar uma água tônica...

— Água tônica?! Tá maluco?! Não sabe que pra curar ressaca tem que tomar outra pra rebater? Vou abrir uma cervejinha pro senhor!

Mas, um dia, a "farmácia-boteco" do Seu Joaquim não abriu. Os fregueses, sem opção, foram ao bar do concorrente.

— O boteco do Seu Joaquim não abriu hoje... O que será que aconteceu?

— Ouvi dizer que ele passou mal e foi ao médico.

— Logo hoje que minha pressão caiu! Precisava tanto de um remedinho daqueles...

O dono do outro bar aproveitou pra alfinetar.

— Vocês não enxergam que esse cara é um charlatão? Se ele passou mal, por que não tomou dos próprios remédios?

— Verdade! Outro dia ele me receitou catuaba, dizendo que minha esposa ia ficar encantada... Me deu foi uma dor de barriga danada!

— Ah, ele me paga!

Na manhã seguinte, antes de Seu Joaquim abrir o boteco, os fregueses já estavam todos esperando na porta. Dona Carmelita espiou pelo basculante e estranhou.

— Joaquim, tô achando esquisito... Tem um bando de gente esperando. Nunca aconteceu isso.

— Mulher, esqueceu que não abrimos ontem? Estão todos sedentos!

Quando abriu a porta, os fregueses entraram em silêncio, encarando Seu Joaquim.

— Seu Joaquim, por que não abriu ontem?

— Passei mal, homem!

— E por que não tomou um dos seus remédios?

— Ué, já falei, passei mal!

— Mas o senhor sempre diz que suas bebidas curam tudo…

— Eu... é... Bom...eu não bebo.

— O senhor não bebe, né?

O silêncio tomou conta do boteco. Um dos fregueses estalou os dedos.

— Pessoal... Vamos dar um jeito nisso!

Antes que Seu Joaquim pudesse reagir, enfiaram-lhe pela goela todos os tipos de "remédios" que ele vendia. Licor de menta, jurubeba, catuaba... Tudo misturado!

Uma semana depois, o bar do concorrente estava lotado. Curioso, o dono perguntou a um freguês:

— Depois daquele dia, o Seu Joaquim nunca mais abriu o boteco. O que vocês fizeram com ele?

O homem deu de ombros.

— Ah, ele deve estar até hoje de ressaca.

— Mas ele não bebe!

— Pois é... Agora, nem remédio líquido ele aceita. Dizem que vomitou quando Dona Carmelita tentou dar um xarope pra tosse.

O dono do bar riu.

— Bem feito! Agora sim ele sabe o efeito dos próprios "remédios"!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

UM TAXISTA SENSÍVEL


Um Taxista Sensível

Na cidade de Cacha Pregos, havia um taxista que era um verdadeiro doce de pessoa. As mulheres adoravam andar em seu táxi e o idolatravam. Seu nome? Jacinto Leite Aquino Rêgo.

— Gostei de andar no seu táxi! Você pode sempre "me pegar, Aquino Rêgo". Pode ser todos os dias, nesse mesmo horário? — disse uma passageira, em tom de brincadeira, logo após se encantar com ele.

— Olha... Não gosto muito dessas brincadeiras. Mas, se quiser, te pego em casa todos os dias, combinado?

— Que brincadeira? Só porque chamei você pelo sobrenome e disse para me pegar? Quando eu digo "vem me pegar, Aquino Rêgo", é pra você vir me buscar com o táxi, ué...

Já os homens não gostavam tanto dele assim. Quando viam aquele carro cor-de-rosa com o bigorrilho aceso, disfarçavam, não faziam sinal e nem ligavam pedindo corrida.

Apesar disso, Jacinto Leite Aquino Rêgo não se incomodava. Na verdade, gostava mesmo era de fazer com eles o que seu próprio nome sugeria.

Mas quem realmente lhe dava lucro era a mulherada.

— "Jacinto Leite, gostosinho!" — brincava uma passageira.

— Não fala isso, você sabe que não gosto! Minha praia é outra...

— Quanto tempo que você não me "pega, Aquino Rêgo". Estava com saudades! — dizia outra, rindo.

— Para com isso, querida! Não gosto dessas brincadeiras...

As mulheres sabiam de sua preferência, mas adoravam tirar sarro. Até que um dia, um turista desavisado fez sinal para o seu táxi.

— Poxa... Quanto tempo não pego um bofe. Vou parar!

O homem entrou e cumprimentou:

— Boa noite!

— Boa noite, amor! Jacinto Leite Aquino Rêgo ao seu dispor.

— Como é? Não entendi!

— Falei meu nome todo porque gostei de você,

— Gostou de mim? E que história é essa de "leite aqui no rego? Não sou disso, não.

— o passageiro já estava confuso.

— Olha, meu amor, eu falei meu nome, porém tô achando que você gostou e quer fazer outra coisa comigo! E eu aceito, viu? Faça o que quiser de mim! Vem cá, meu gostosão... Me dá um beijo, meu "gatão"...

— O quê?! Você tá preso!

— Isso, meu amor! Me prende, me leva pra sua casa, me amarra na sua cama e me dá uns tapinhas! Adoro isso...

O que Jacinto não sabia era que o "turista desavisado", na verdade, era o novo delegado da cidade.

O taxista sumiu por alguns dias, deixando suas passageiras na mão. Quando reapareceu, estava com o nariz quebrado e um olho roxo.

— O que foi isso, Jacintinho? Foi aquela brincadeira do tapinha que você tanto gosta de fazer com seus namorados? — perguntou uma passageira, preocupada.

— Mulher... Nem te conto! Quando levei o primeiro safanão, até gostei. Pensei que ele também gostasse de levar uns tapinhas. Então, enchi a mão e dei um tapa no bumbum dele... Mas depois...


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

AMÂNCIO E A PACIÊNCIA QUE SE ESGOTOU


Amâncio e a Paciência que se Esgotou

Amâncio era um cara muito na dele, sem maldade ou inimizades. Um sujeito bacana.

Certo dia, andando pela rua, um homem esbarrou nele, derrubando sua pasta. Os documentos voaram para todos os lados. O mais incrível era que, mesmo numa situação dessas, Amâncio ainda se desculpava, achando que a culpa era dele.

Seus amigos o faziam de gato e sapato. Pediam dinheiro emprestado e nunca pagavam. Pegavam seu carro e demoravam para devolver—isso quando não o devolviam amassado. Até com sua esposa mexiam. Amâncio, sempre generoso, adorava fazer favores sem esperar nada em troca. E quando falavam sobre sua mulher, ele simplesmente dizia:

— Eu não me incomodo quando a elogiam e dizem que ela é bonita ou gostosa. Pior seria se dissessem que ela é feia.

Mas havia um boato maldoso: diziam que Amâncio apanhava da esposa. Era um homem forte, com corpo atlético, mas aparecia vez ou outra com algumas lesões. Alegava que eram do futebol, mas ninguém acreditava. Riam dele, provocavam:

— O Amâncio apanha da mulher... Quem apanha de mulher é mariquinha!

Ele não gostava de ouvir isso, mas mantinha a classe e fingia não escutar. Era forte, mas também tinha um autocontrole invejável. Não se deixava levar por provocações.

Amava sua esposa e era um marido atencioso. Tudo que ela pedia, ele fazia. Era o companheiro ideal.

Pena que, por ser tão bom, muitos abusavam da sua boa vontade.

— Estou cansado dessa vida de ser bonzinho. Todo mundo passa a perna em mim — desabafou Amâncio com um amigo.

— Meu camarada, você precisa parar de ser fornecedor e virar consumidor — disse o amigo.

— Como assim?

— Quero dizer que você só fornece. Seus amigos te exploram... E até sua mulher você está fornecendo, Amâncio.

— O quê?! Que história é essa? Você está maluco? — respondeu ele, indignado.

— Se liga, meu amigo... Vai consumir outras mulheres por aí também — provocou Clarisbadeu.

Amâncio voltou para casa desapontado. Nunca havia considerado essa possibilidade. Mas agora não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça.

Passou a observar melhor sua esposa, acompanhando seus passos. E então descobriu a verdade.

Estava sendo traído. E com um de seus próprios amigos. O Ricardão. O mesmo que mais o ridicularizava, espalhando para todos que ele apanhava da mulher.

— Agora faz sentido... Ela deve comentar com ele sobre as brigas, e esse safado espalha para todo mundo.

Mas Amâncio manteve sua calma habitual. Esperou o momento certo.

No clube, encontrou a roda de amigos, e Ricardão estava no meio. Como de costume, o traidor foi o primeiro a zombar:

— Olha aí quem chegou! O maricão que apanha da mulher!

Todos riram.

Amâncio engoliu em seco e, com sua tranquilidade característica, disse:

— Preciso confessar uma coisa para vocês... De vez em quando, ela me dá uns catiripapos, sim.

A gargalhada foi geral. Alguns chegaram a cair no chão de tanto rir. Ricardão, triunfante, repetia:

— Eu não falei? Eu não falei?!

Amâncio se aproximou dele, falando cada vez mais baixo:

— E não é só isso... Eu fui muito judiado e traído.

As risadas continuavam.

— Ricardão, cuidado, ele vai te beijar! — alguém gritou.

Mas Amâncio ainda não tinha terminado:

— Como eu estava dizendo... Ela me trai com um de vocês. E ainda me bate muito. Mas se eu tivesse feito com ela o que vou fazer com vocês, ela não estaria mais nesse mundo.

O silêncio foi instantâneo. Todos se entreolharam. O clima ficou pesado.

Até que Ricardão, pálido, soltou um grito:

— Sujou! Aiiii... Socorro!

Foi tarde demais. Amâncio descontou tudo ali, na frente de todos. Ricardão levou uma surra tão grande que foi parar no hospital.

Curiosamente, seus amigos ainda não foram visitá-lo. Estão todos... desaparecidos.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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ASTOLFO PULOU A CERCA

.
Astolfo Pulou a Cerca

Todos estavam à procura de Astolfo. Olharam dentro e fora da casa, mas nada do cachorro.

— Eu vi ele olhando muito pra casa do vizinho ao lado — disse Marieta, a nova empregada de Gertrudes.

— O seu Inocêncio? — perguntou Gertrudes.

— Não sei... ainda não conheço os vizinhos.

Os três seguiram até a casa do vizinho, e Aristeu tomou a frente:

— Boa tarde, seu Inocêncio... O senhor viu o Astolfo por aí?

— Vi! — respondeu o homem, visivelmente irritado. — Ele tomou um banho e agora tá fazendo um lanchinho antes de ir embora.

Gertrudes franziu a testa.

— Como assim?

— Vou explicar... Esse seu cachorro pulou a cerca novamente e está atracado com a Lucrécia no quintal! Minha cadela é de raça pura, dona Gertrudes! Se nascer filhote vira-lata, vão todos pra sua casa, ouviu bem?!

Gertrudes deu uma gargalhada.

— Seu Inocêncio, quem tem suas cabras que as prendam, porque meu bode tá solto!

O vizinho ficou vermelho e disse!

--- Você está Maluca?!

— Eu vou é matar esse vira-lata!

— Aristeu, você não vai tomar nenhuma atitude?

— Mas, mas...

— Que “mas, mas” o quê, Aristeu! O homem me chamou de maluca!

— É que...

— Cala a boca, Aristeu! Eu é que vou quebrar a cara desse cretino!

— Me larga, Aristeu!

— Mas eu não tô te segurando...

— Então vai você e quebra a cara dele!

— Mas, mas...

Inocêncio cruzou os braços e debochou:

— Podem vir todos! São três frouxos!

Foi a gota d’água para Marieta (a empregada), que virou bicho.

— O quê?! Frouxo é tua mãe, seu safado!

E partiu pra cima do homem, dando unhadas e puxando seus cabelos. Aristeu tentou apartar a briga, mas logo levou um soco no olho. Quanto mais Inocêncio tentava se livrar da empregada, mais batia em Aristeu. O coitado só apanhava. Só foi salvo quando os vizinhos intervieram.

— Mas, mas... foi ela quem começou! Eu não fiz nada, seu Inocêncio! — dizia Aristeu, nervoso.

O vizinho se ajeitou e resmungou:

— Não sou covarde, não bato em mulher.

— Ai, ai, ai... Cadê a Gertrudes?

— Não sei, patrão. A última vez que a vi, foi quando ele me chamou de frouxa.

Voltaram para casa. Aristeu, todo quebrado; Marieta, furiosa.

— Meu primeiro dia de trabalho e já me acontece isso! — resmungou a empregada.

— Gertrudes, eu vou morrer! Chama um médico! — gemia Aristeu.

— Deixe de ser dengoso, não foi nada!
--- respondeu Gertrudes, sem paciência.

Então, Marieta arregalou os olhos.

— O Astolfo! Ele ficou lá! Aquele doido vai matar o bichinho!

Gertrudes cruzou os braços e, com um sorriso cínico, disse:

— Astolfo já está em casa desde a hora que cheguei. Quando viu que o homem estava bravo, pulou a cerca de volta. Ele é igualzinho a mim: não gosta de confusão.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A MAMÃE É BISCATEIRA - Humor

"Benemérita do Rêgo Grande" era uma tremenda “prostiranha”, não podia ver um homem que queria arrumar um dinheiro. Mulher bonita de cabelos longos, siliconada e bumbum arrebitado, porém, muito sem vergonha! Seu filho, já crescidinho, morava com seu pai, porque a mãe não dava a mínima para o moleque.

- Papai a mamãe cada dia que passa se veste mais esquisito e fica com as pernas de fora. Eu não gosto de andar com ela na rua porque todos os homens que passam a chamam de gostosa. Meus amigos dizem que ela ganha dinheiro rodando bolsinha. É verdade?
Apesar de não viver junto com ela há algum tempo e já estar desconfiado de sua profissão o pai não queria difamá-la com o filho.
- Claro que não, filho, como ela agora está solteira e é muito bonita os homens ficam dando em cima, mas é só isso.
- Os homens ficam dando em cima dela? Não é isso que os pais de meus colegas falam pra eles.
- E o que os pais dos seus colegas falam para eles, filho?
- Eles falam que ela é que fica dando em cima deles. Um amiguinho meu falou que além dela dar em cima dos homens, ela também dá para os homens. Não entendi, papai, o que é que ela dá para os homens?
- Filho, deixa isso pra lá... Afinal de contas o que importa é que ela te ama.
- Ela me ama? Ela da tudo para os homens e não dá nada para mim. Nem para o senhor, não é papai? Por que ela foi embora e largou a gente aqui?

O coitado do filho sentia muita falta de sua mãe e fazia muitas perguntas. O pai muita das vezes ficava sem saber o que dizer.
Certa vez o garoto chegou chorando e dizendo que as crianças da escola implicavam muito com ele e chamavam sua mãe de Quenga e Meretriz.
- Essas crianças não sabem nem o que é isso, filho. – disse o pai.
- Mas os pais deles o ensinam. Eu é que não sei papai. O senhor não me ensina.
O pai já não agüentava mais aquela situação e resolveu procurá-la.
- Olha, eu não quero me meter mais em sua vida, acontece que você fica fazendo seus programas aqui por perto e os coleguinhas do nosso filho o ficam zombando.
- Que programa? Cara, você está maluco! – falou a mulher gritando.
- Não precisa gritar... Como te falei, não quero saber da sua vida, vim aqui numa boa. Então me diga o por quê dos pais dos coleguinhas de nosso filho ficarem falando um monte de coisas de você para eles? Inclusive, no outro dia, ele chegou em casa chorando e dizendo que estavam te chamando de Quenga e Meretriz! O garoto está sofrendo com isso.
- Isso é “intriga da oposição”, eu não faço programas. A propósito, você não deveria me dar uma pensão? 
- O que!? Eu é que seguro todas as despesas do garoto, inclusive, escola, alimentação, vestimento, remédio. E você não dá uma ajuda sequer.
- É por isso que tenho de me virar. – disse ela caindo em contradição.
- Se virar com o sexo, né?
O homem saiu de lá muito pra baixo, afinal, não resolvera nada. Ele só confirmara que sua ex-esposa era uma tremenda “biscate” e uma profissional do sexo. E o pior é que ele tivera a certeza que ela também servia "marmita" para a maioria dos pais das crianças da escola de seu filho.
- Pistoleira, isso que ela é, atira para todos os lados. – dizia ele.
Ficou alguns dias a pensar naquela situação, afinal, não sabia o que fazer. Pensou em tirar o garoto daquela escola, mas os outros colégios ficavam muito longe e também não tinha quem o levasse. Resolveu ir à escola e expor toda a situação para a direção.
Passado alguns dias houve uma reunião no colégio e a Diretora pediu aos pais que conversassem com seus filhos e os explicassem que não deveriam ficar falando aquelas coisas. E que o garoto já estava até tendo acompanhamento psicológico por causa daquele ocorrido. E falou também, que os pais é que ficavam incitando os filhos a falarem aquilo.
Com o passar do tempo o pai estava sentindo bastante melhora no garoto, afinal, o que foi falado na reunião, junto com o trabalho do psicólogo, parece que valeu a pena.
Um dia o menino chegou todo sorridente e falou:
- Papai, papai! Os colegas pararam mesmo de ficar dizendo aquelas bobagens. Agora eles falam outras coisas, mas...deixa pra lá, papai.
- Ué, agora fiquei curioso, você não quer me contar?
- Posso até contar... eu até gosto quando eles falam aquilo.
- Então fala!
O menino encheu o peito e falou todo orgulhoso.
- A maioria dos pais dos meus colegas disseram para eles não falarem mais aquilo e também pra me pedirem desculpas.
- Legal, filhão! Mas e agora o que eles falam?
- Os meninos o chamam de “Corno Manso” e as meninas me chamam de Boiolinha da classe. Legal não é, Papai?

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 





QUANDO A MORTE VALE A PENA


Quando a Morte Vale a Pena

Aristeu acabara de receber a pior notícia de sua vida. O médico pedira que ele levasse um familiar ao consultório, mas, teimoso como era, insistiu para saber o motivo ali mesmo.

O doutor suspirou e explicou:

— Eu pedi para trazer um parente porque o tratamento pode ser pesado. Alguns pacientes sentem enjoo, tontura... A família precisa estar ciente das limitações.

Saiu do consultório arrasado. Estava com câncer e, pelo que entendeu, tinha apenas seis meses de vida.

Entrou no carro e chorou. Chorou muito. Ficou ali, pensando em como seriam seus últimos meses.

Quando chegou em casa, passou direto pela esposa, cabeça baixa, e se trancou no quarto. Gertrudes estranhou. Ele sempre a beijava ao chegar. Preocupada, foi atrás dele.

— Meu amor, o que houve? Você passou e nem me olhou.

— Nada, mulher. Me deixa em paz.

Chateada, ela não insistiu.

Dias depois, Aristeu estava mais conformado. Conversou com seu amigo Dudu, o único a saber da doença.

— Aproveita a vida, meu amigo — aconselhou Dudu. — Faz tudo que sempre quis fazer. O resto... deixa nas mãos de Deus.

— É... tem razão. Mas também preciso pensar na minha família. Quando eu morrer, vão passar aperto.

De cara, fez um seguro de vida. Depois, pegou o maior empréstimo que conseguiu no banco. Chegou em casa, pegou a esposa e o cartão de crédito, e a levou para uma loja de eletrodomésticos.

— Compra tudo o que precisar!

Gertrudes quase desmaiou de felicidade.

— Mas o que houve, meu amor? Você ganhou na loteria? Sempre foi pão-duro e agora tá esbanjando desse jeito?

Ele sorriu.

— Foi quase isso... Recebi um dinheiro inesperado no trabalho. E também ganhei no bicho.

"Defunto não tem dívida mesmo..." — pensava ele.

Mas Aristeu não queria só ajudar a família. Também queria aproveitar. Começou a chegar tarde, beber sem limites e aprontar.

— Dudu, bora naquele inferninho lá do centro? Tô a fim de pegar umas minas.

— Cara, tá pegando pesado, hein. Você está bem? Tem tomado os remédios direitinho?

— Pra quê? Se vou morrer mesmo, que pelo menos eu seja feliz!

Dudu deu de ombros.

— Bem... já que é assim, vamos pra night!

Ainda naquela noite, após Aristeu sair do quarto do "Inferninho" com duas mulheres, Dudu o puxou pelo braço e perguntou:

— Aristeu, me diz uma coisa: você usou camisinha?

— Pra quê? Vou morrer mesmo! — E soltou uma gargalhada.

— E sua esposa, seu estúpido?!

Aristeu mudou de assunto rapidamente:

— Preciso arrumar dinheiro. Quer ir comigo?

— Ué, arrumou trabalho noturno?

— Quase... Um trabalhinho especial.

Dudu estreitou os olhos.

— Aristeu... Que volume é esse na tua cintura?

— Deixa pra lá, amigo.

Dudu preferiu não acompanhar. Estava sentindo que aquilo não ia acabar bem.

O Novo "Emprego"

Aristeu conheceu um dono de ferro-velho que pagava bem por carros roubados.

— Vou garantir um bom dinheiro pra minha família. Depois posso morrer em paz!

Mas a vida do crime não era bem sua praia. Na primeira tentativa, disparou o alarme do carro e teve que correr.

Pega ladrão! Pega ladrão! — gritava o dono do veículo.

Na segunda, tentou roubar um carro automático e não conseguiu nem sair do lugar.

— Quem foi o infeliz que inventou esse tipo de carro?!

Na terceira, quase morreu de verdade: levou um tiro de raspão na orelha.

Putz, por pouco não bati as botas antes do prazo!

As dores aumentaram. Voltou ao médico, que lhe deu uma bronca monumental.

— O senhor abandonou o tratamento?! Tá louco?!

Após uma nova bateria de exames, o médico o chamou ao consultório.

— Sr. Aristeu, sente-se. Quem lhe falou que seu tumor era maligno?

— O senhor! E disse que eu só tinha seis meses de vida!

O médico arregalou os olhos.

— Não, Aristeu! Seu tumor é benigno! Eu disse que você teria seis meses de tratamento!

Aristeu empalideceu.

— O quê?! Então eu não vou morrer?!

— Não... Mas agora vai precisar de mais seis meses de tratamento, porque seu quadro piorou.

A boca de Aristeu ficou seca.

— Doutor... O senhor não explicou direito. Fiz seguro de vida, estou atolado em dívidas, virei ladrão, quase morri com um tiro e... posso estar aidético! Passei doença pra minha patroa! E agora a polícia deve estar atrás de mim!

O médico coçou a cabeça.

— Ihhh, acho que a doença afetou sua mente... Vou encaminhá-lo a um psiquiatra.

Foi a gota d’água. Aristeu voou no doutor, para lhe dar uns tabefes, porém acabou no hospital todo quebrado. O Médico era lutador de Artes Marciais.

Mais tarde...

Gertrudes, por sua vez, acabou descobrindo toda a verdade, comunicou o sistema penal que além dos remédios para o trauma, ele tinha que tomar também os remédios, na qual, resultou em todos esses problemas. Aristeu virou um paciente exemplar... no hospital penitenciário.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*


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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ENTERRANDO O DEFUNTO ERRADO.


Enterrando o Defunto Errado

Aristeu e Gertrudes se arrumavam para ir ao enterro de um amigo. Aristeu, com sua lerdeza habitual, ainda estava no banheiro fazendo a barba quando Gertrudes apareceu impaciente.

— Anda logo, homem! Já estamos atrasados!

— Calma... Ai! — Ele se cortou com a lâmina. — Viu o que você fez? Me assustou!

— Deixa de ser mole. Já estou pronta faz mais de uma hora, e você nem banho tomou!

— Você fala demais e me atrapalha... Comigo tem que ser tudo devagar, gosto de fazer as coisas direito.

Duas horas depois, finalmente saíram de casa.

— Vê se acelera esse carro, já estamos muito atrasados!

— Filha, automóvel é comigo mesmo. Deixa comigo.

— É, né? Da última vez que você saiu apressado, arranhou a lateral do carro na garagem!

No caminho, caíram num buraco e estouraram um pneu. Depois, Aristeu avançou um sinal e levou uma multa. Quando finalmente chegaram ao cemitério, Gertrudes já estava bufando.

— Nunca mais! Da próxima vez, venho de táxi!

— Tá reclamando de quê? Tenho culpa se o pneu furou e o guarda me parou?

— Claro que tem! O pneu estourou porque você mirou no buraco! E o guarda te parou porque avançou o sinal de novo! Esse mês seu salário vai todo em multas!

— E você que falou o nome do cemitério errado? Fomos parar do outro lado da cidade!

Ao entrarem na capela, benzeram-se e foram cumprimentar os parentes, demonstrando seus profundos sentimentos. O caixão estava fechado porque o corpo já estava cheirando mal.

— Viu, Gertrudes? Você me apressa tanto e nem sinal de enterro!

— Não sei... Tá estranho. Não vejo ninguém conhecido.

— Vai ver a esposa dele passou mal e a família saiu pra socorrê-la...

Nesse momento, um grupo de evangélicos chegou e começou uma oração. Aristeu e Gertrudes rezaram fervorosamente pela alma do falecido.

Quando chegou o momento do enterro, havia poucos homens para carregar o caixão, e Aristeu, prestativo, segurou uma das alças.

— Se é pra dar o último adeus ao meu amigo, eu faço questão de ajudar.

Gertrudes, com dores nos pés, preferiu não acompanhar e ficou esperando perto da capela. Aristeu, emocionado, seguiu até a cova, que ficava quase no final do cemitério.

Quando voltou, os olhos vermelhos de tanto chorar, encontrou Gertrudes de braços cruzados e cara fechada.

— Que foi agora, mulher?

Ela bufou.

— O que foi?! Com essa tua lerdeza, simplesmente: velaste, rezaste, enterraste e ainda carregaste o caixão do defunto errado! Teu amigo já foi enterrado há horas!

Aristeu arregalou os olhos.

— O quê?!

Gertrudes pegou a bolsa e saiu pisando duro.

— Se vira, porque eu vou embora de táxi! E, se for pra casa, dorme no sofá!

Aristeu ficou parado, tentando entender o que tinha acontecido.

— Mas... Mas... Ah, que droga!

E saiu correndo atrás de Gertrudes.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO* 


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SE NÃO TOMAR O AZULZINHO, NÃO TEM BRINCADEIRA.


SENÃO TOMAR O AZULZINHO NÃO TEM BRINCADEIRA

.Já fazia mais de mês que Aristeu não chegava junto com sua “patroa”. Haviam tido um arranca rabo e ficou um mal estar entre eles. Mas Aristeu já estava pensando em fazer uma nova investida, afinal, ninguém é de ferro, não é? Então comentou com um amigo:

- Minha mulher está me dando um gelo danado, não quer mais nada comigo.
- Aristeu você tem que tomar uma decisão. Lá em casa, mulher minha não se cria, não. – disse o amigo.
- É, afinal quem manda em casa sou eu...Que negócio é esse? Hoje ela entra nos eixos. – falou Aristeu.
E assim foi resmungando para casa.
- O coro vai comer se eu chegar em casa, fizer um carinho nela, e for rejeitado novamente. Ai dela se não deixar eu dormir em minha cama de novo.
Dessa vez Aristeu estava decidido, era tudo ou nada. Eitaomearretado, sô!
Em casa Gertrudes estava no tanque lavando as roupas, muito irritada, por sinal, porque as roupas de Aristeu estavam muito sujas, inclusive uma camisa estava com manchas de vômito.
- Ele não tem jeito. – dizia ela.
- Esse cara come e bebe demais, depois sobra pra mim.
Aristeu chegou decidido e cheio de amor para dar...foi andando de fininho até a área de serviço e agarrou a mulher por trás, sapecando também um beijo em seu cangote.
- Ai que susto, seu idiota! Sai fora com esse bafo de cana...
- Mas, mas, mas...
- Que mas, mas...já te falei, o dia que você comprar aquele remédio azulzinho, a gente conversa.
- Mas benzinho, eu não posso te dar um beijinho?
- Com esse bafo!? Você tem que parar de beber, ontem vomitou o banheiro todo.
Aristeu achou melhor se afastar porque a barra já estava pesando para o seu lado.
- Não foge, não! Vai lavar a louça e depois passar um pano no banheiro que ainda cheira muito a vômito.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 



ARISTEU CORROMPEU O GARÇOM

Aristeu Corrompeu o Garçom

Era uma noite de sábado, e Aristeu e Gertrudes estavam se arrumando para uma festa.

— Gertrudes, cadê minhas meias?

— Estão em cima da cama.

— E meu cinto?

— No mesmo lugar de sempre, pendurado ao lado das suas calças.

— E meu perfume?

— Se for aquele que você comprou no mercado, usei no Astolfo. Era horrível.

Aristeu arregalou os olhos.

— Você usou meu perfume no cachorro?!

— E fez bem. Ele ficou cheiroso.

Aristeu começou a experimentar as calças, uma por uma.

— Gertrudes, nenhuma calça cabe mais em mim!

— Já falei pra fazer dieta. Você não para de comer!

— E você não para de fumar, mas eu não fico falando disso toda hora!

Gertrudes revirou os olhos.

— Tá bom, então vai de bermuda. Aquela que mamãe te deu. Deve ser a única que ainda cabe.

— Eu gosto da sua mãe, mas precisava me dar uma bermuda desse tamanho? Assim ela tá me chamando de gordo!

— Vai assim mesmo, já viu a hora?

E lá foram eles para a festa. Gertrudes, arrumada e cheirosa. Aristeu, de sapato social preto, meia preta e uma bermuda larga e comprida, que passava do joelho.

— Pelo menos tem uma vantagem — disse ele, ajeitando os bolsos. — Dá pra trazer um monte de docinhos.

— Só não vai me fazer vexame, hein!

No ônibus, Aristeu ficou entalado na roleta e armou um barraco. Disse que as roletas eram apertadas demais e que ninguém respeitava os passageiros.

— Comigo acontece de tudo. Só falta agora chegar lá e não ter comida nem bebida!

Já no salão, Aristeu escolheu um lugar estratégico.

— Aqui tá mais fresco, tem uma brisa boa.

— Sei... Você escolheu aqui porque tá perto da cozinha. Eu te conheço, meu bujãozinho!

— Que nada, mulher... Escuta, me empresta um trocado aí.

— Pra quê? Festa tem comida e bebida de graça.

— Vai que não tem, né? Melhor garantir. Se der, aproveito e compro teu cigarro.

Gertrudes estreitou os olhos.

— Sei não, hein...

Na verdade, Aristeu queria o dinheiro para corromper o garçom e garantir que os salgadinhos chegassem primeiro até eles.

A festa estava animada. Eles conversaram com amigos, beberam e comeram bem. O garçom passava a todo instante, servindo Aristeu com dedicação.

— E você preocupado à toa... Que festa boa! Tô satisfeita, não aguento mais comer. Só não entendo por que minhas amigas estavam reclamando, dizendo que não comeram direito.

Aristeu sorriu de canto.

— É, mulher... Elas não têm o Aristeu.

Gertrudes franziu a testa.

— O que isso tem a ver com elas não terem comido direito?

— Deixa pra lá...

Ela observou o garçom, que passava de novo com uma bandeja cheia.

— Sabe de uma coisa? Acho que esse garçom é gay. Toda vez que passa, ele pisca pra você. Por isso não sai daqui. Gostou de você! Vai dizer que não notou?

Aristeu se ajeitou na cadeira, desconcertado.

— Gertrudes, esquece isso... Para com isso.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


A INAUGURAÇÃO DO FORNO DE MICROONDAS



#A INAUGURAÇÃO DO FORNO DE MICROONDAS#

      Na favela do "Chapadão Queimado" a comunidade encontrava-se em estado de alerta, afinal, naquela noite haveria uma tremenda confraternização com o pessoal do "bagulho doido". Seria a inauguração do forno de microondas... Haviam roubado uma carreta repleta de pneus de caminhão que serviria para manter por um bom tempo a chama do forno acesa.
O mais importante é que depois de muitos anos conseguiram capturar aquele que seria o primeiro presunto ou a primeira vítima. Pegaram simplesmente a pessoa que mais atrapalhava os planos da quadrilha, X9 o alcaguete, esse era o cara.
Depois desceram o morro e roubaram outra carreta, só que essa com cervejas e refrigerantes. Mais tarde teria queima de fogos e salva de tiros por causa daquela comemoração tão importante.
O dono do morro chamava-se, Inocêncio Coitadinho Sossegado, vulgo, "Sossega Leão". Sossega Leão encontrava-se feliz que nem pinto no lixo, com sorriso de orelha a orelha e falava em alto e bom tom, que aquele dia seria muito importante pra ele e para as pessoas da comunidade e também que elas poderiam comer e beber de graça a noite toda. E mais, a partir daquele dia os moradores seriam muito beneficiados com: a diminuição do ágio na compra do gás; desconto na compra de drogas e não mais precisariam pagar pedágio quando fossem para suas casas. Parecia político em época de eleição:
- Quem diria. – dizia ele.
- Quem mais atrapalhou nossa inauguração, hoje vai inaugurar o forno. Ninguém atrapalhará, ninguém o salvará.
Sossega Leão encontrava-se muito eufórico porque o tal do X9, sempre abria o bico e a policia chegava antes de qualquer maldade que eles pudessem aprontar. Vários e vários planos jogados no lixo. Quantas vezes tentaram inaugurar o microondas e a policia sempre chegava antes mesmo que eles subissem o morro com suas vítimas. Então, Navalhada, comentou:
- Aí, mano, vou te mandar uma letra. Como pode uma comunidade que nem a nossa e com "nós" na fita não ter tido nenhuma morte, nenhum presunto pra contar história, nenhum crime durante dois anos?  É o tempo que estamos aqui.
- Foi aquele Mané que atrapalhou "nós", mas daqui pra frente tudo vai ser diferente. – respondeu Sossega Leão.
- Isso é letra de música, meu! Se liga, você anda escutando muito as músicas do Rei Roberto Carlos. - falou Navalhada.
- Oh “rapá”, eu gosto é de funk. Tá me “tirano”, cara? – irritou-se Sossega Leão
- Não tá mais aí quem “falô”, sem stress.
- Bem, vamos ao que interessa. Vocês já separaram os pneus? Nós vamos colocar os pneus devagarinho, um a um por cima da cabeça dele até envolvê-lo todo. Depois vamos acharcá ele de álcool. O safado vai gritar feito um carneirinho e morrer que nem um torresminho, torradinho! Então, vamos para a quadra...
Na quadra a festa já estava armada, tinha comes e bebes, tiros para o alto e muitos fogos.
- Daqui a pouco “nós” bota fogo nele. Vamos fazer um churrasquinho de X9. Uma salva de tiro aí, pessoal!!! Vamos comemorar! O Feioso me trás mais uma rodada de bebida... – disse o bandido mor.
- Patrão esse arrasta-pé está bom demais, já tomei todas. – falou outro bandido, o "Pé Inchado"
- "Pé Inchado" se prepara ai que daqui a pouco “nós” torra ele. – falou o patrão também enrolando a língua.
A festa rolou até tarde da noite e os bandidos encheram a cara de birita e de bagulho, ficaram pra lá de Bagdá e foram deixando a inauguração sempre pra depois.
- Aaaacho melhor “nós” queeeimar esse cabra amanhã. – falou Navalhada.
- Ué, logo você que estava reclamando, dizendo que não tínhamos feito nenhum presunto? Vamos queimar esse cabra é hoje mesmo. E vai ser agora... Vai lá e me traga o safado. – disse Sossega Leão já muito doido.
- Mas, mas chefe, onde é que ele está? - perguntou um dos bandidos.
- Como assim, onde é que ele está? Onde vocês enfiaram o homem seus Energúmenos? - perguntou o chefão.
- O Pato Roco é quem escondeu ele. - falou um outro bandido.
- Cambada de incompetente, cadê o Pato Roco?
- Chefe, chefe... O Pato Roco está dormindo lá no meio do mato, bêbado que nem um gamba!
- Acordem ele, seus jumentos, e tragam ele aqui. - falou o todo poderoso.
- Acorda Pato! Pato Roco acorda!
- Enfia a cabeça dele naquela poça d'água que ele acorda.
Demorou um pouco pra ele acordar, mas depois de algumas tapas na cara e quase ser afogado na poça ele acordou.
- Ah...O que? XXX9 que mané X9? Eu sei lá de X9. - disse Pato Roco.
- Como não sabe? Tu vai morrer, seu desgraçado!
- Pe...pera ai...deixa eu lembrar.
- Fala logo. Onde você enfiou o sujeito?
O dia já estava clareando quando Pato Roco lembrou qual barraco havia enfiado o Réu já condenado. Pegaram o cara todo amarrado, com os olhos vendados, de dentro do barraco e foi com enorme dificuldade que conseguiram chegar ao ponto mais alto do morro. Afinal já estavam todos bêbados e drogados. O puseram em pé e começaram a enfiar pneu pela sua cabeça. O sujeito apavorado chorava e dizia ser irmão de Inocêncio o "Sossega Leão".
- Que "mané", Inocêncio?! Teu irmão deve ser um Baitôla, uma gazela... Do jeito que você berra parece até um carneirinho. - disse um dos marginais rindo pra valer.
Jogaram álcool em sua cabeça e nos pneus, quando iam acender o fósforo, Inocêncio, o dono do morro, pediu-lhes que tirassem a venda dos olhos do inimigo, afinal, ele queria saber quem era o traíra que tanto o prejudicou. Foi quando o motivo do seu espanto:
- Meu irmão?! Esse é meu irmão que estava pra chegar do interior do Ceará. Vocês iam fazer churrasquinho do meu irmão. Cambada de imbecis! E quem me chamou de baitola e gazela ai? Eu vou matar vocês todos.
Quando olhou a sua volta já não havia mais ninguém, os caras rolaram morro abaixo tamanho medo do chefe. Naquele momento apareceu um helicóptero blindado da polícia, a mando do X9 original, dando um voo rasante em suas cabeças e mandando tiro pra todos os lados. O "caveirão" que vinha subindo pegou a bandidagem toda, porque eles não aguentavam correr de tão bêbados e feridos que estavam. Por azar, de onde despencaram ainda havia uma cerca de arame farpado.
Mais tarde na delegacia.
- Aí, Mano, ainda bem que o "caveirão" chegou, porque senão quem estaria torrado e frito seríamos nós. O "Sossega Leão" não iria perdoar "nós" nunca. Estaríamos nessa hora todo fu... e mal pago. - disse um meliante.
Também na prisão, conversando com o irmão, Inocêncio, disse:
- Anda não foi dessa vez que pegamos o safado do X9 e nem inauguramos o forno, mas quando eu sair daqui a festa vai ser ainda melhor. Vamos ter uma inauguração coletiva.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO 










A PERMUTA INFUNDADA


Em uma cidadezinha do interior havia um Caboclo que tinha uma esposa muito bonita. Parecia uma índia, morena de cabelos longos. Aquele homem não dava muito valor para aquela linda mulher e comentava com seus amigos:
- Estou cheio dessa mulher, só me trás problemas e despesas. Um dia eu a troco.
A cidade inteira olhava quando ela passava, ninguém entendia tamanha reclamação daquele homem em relação a sua esposa. Ao mesmo tempo não acreditavam no que ele dizia em relação a trocá-la. Ficavam admirados pelo fato e muitos até sonhavam:
- Eu a troco por um cavalo de raça pura. – dizia o dono do bar.
- Já que ele não quer, eu quero. Por que ele não larga logo do pé dela? – dizia o padeiro.
- Ah se minha mulher fosse assim. – falava o barbeiro.
- Eu a troco pela minha e ainda dou uma volta. – dizia um mecânico, que se metia em baixo do carro para ter uma visão melhor ao vê-la passar.
Todos escutavam o Caboclo e não falavam nada, não acreditavam.
Até que chegou um Caipirinha na cidade montado numa mula e escutou o comentário. Parou o primeiro transeunte e lhe perguntou:
- Seu moço! “Cu” “me” que faço pra “cunhece” o “omê” "qui" "qué" troca a "muié"? Me “presenta” “iele”... "tô” “tão precisado” de “rumá” uma “muié”.
Com isso, começou outros comentários e as pessoas queriam saber o motivo do caipira querer conhecer o Caboclo. 
- Por que o Caipira quer conhecer o homem?
- Ele falou que quer arrumar uma mulher.
- Acho que ele não bate bem da ideia, não.
- Será que esse, Capiau, vai querer dar em cima dela?
- Claro que não...O cara, com esse jeito de Matuto, não vai arrumar nada com aquele mulherão. - e riam pra valer
O Caipira tanto fez que conseguiu conhecer o Caboclo, chegando em sua casa, disse:
- “Prazê”...meu nome é, “Zé do Gado”, e vim aqui pra nós “tratá” de “negórcio”.
- Será um prazer, entre...Mas que tipo de negócio o senhor quer me propor?
- Eu sei que o “sinhô” gosta “mutio” de gado e eu tenho umas vaquinhas lá pra nós “fazê” “negórcio”...
- Mas que negócio o senhor quer fazer? No momento eu estou sem dinheiro e não estou podendo comprar...
- Não “prercisa” de dinheiro, não “sinhô”. O “sinhô” tem uma coisa que “mutio” me “intererssa”.
- Não estou entendendo... bem, então, faça-me a proposta.
- Oia... vai ser um “negorção” “pro” “sinhô”.
- Fala logo, homem!
- “Ta” “bão”, vou direto ao arssunto. Sem eu “vê” sua “muié”, eu “lhê” “dô” duas vaquinhas por ela...
- O senhor está maluco? Duas vacas pela minha mulher?!
- “Ta” bão...“sem mais” e “sem menos”, hein! Vou “lhe” dá as duas vaquinhas e mais a minha mula de “estimarção”. Fechado?
Na cidade estavam todos apreensivos, já havia até gente apostando. Uns achavam que o caipira iria aparecer todo quebrado de tanto apanhar. Outros achavam que depois de muitos anos, iriam ter um cortejo fúnebre. E ninguém achava que ele fosse aparecer com aquela Beldade.
Quando, de repente, parece, Zé do Gado, esbaforido de tanto andar acompanhado daquela “Potrancona”. Entrou no bar e pediu algo para beber.
- O “sinhô” me “dar” uma pinga e “sirlva” alguma coisa pra ela. “Andamo” mutio...“tô” triste “porlque” perdi minha mula na troca.
O Caipirinha malandro do jeito que era não deu muitos detalhes.
O dono do bar, por sua vez, espalhou aquela noticia, e então, a cidade ficou um alvoroço. Vieram novos comentários:
- O que? Se eu sei disso antes. Tenho três mulas que não me servem pra nada. Só querem saber de comer. – disse o padeiro.
- E eu se soubesse antes cortava o cabelo dele por um ano. – disse o barbeiro.
- Eu mantinha a minha proposta. – disse o mecânico, triste da vida.
De repente aparece, “Carola”, o travesti da cidade, cheio de ciúmes e diz:
- Seus, Bofes, vocês são todos uns jumentos! O homem, todos os dias, falava que queria trocar a mulher e vocês não acreditaram. Nunca chegaram a ele para lhe fazer uma proposta. Agora ficam chorando pelos cantos. Eu quero lhes dizer, que aceito a proposta de vocês.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 



O PREFEITO CORNO MANSO



Numa cidadezinha do interior chamada, Gozolândia, a mulher mais leviana era simplesmente a esposa do Prefeito Antonio Corno Manso Pinto Tapado. Todos sabiam que Ava Gina Pinto Tapado Topafundo o traia com o Padeiro, mas ninguém tinha coragem de lhe falar, porque a família Pinto Tapado era muito tradicional e importante naquela cidade. Sería um escândalo a separação daquele tradicional casal. Só que o povo brincava muito com seus nomes. O comentário era geral pelos bares e esquinas:

- Sabe como era o nome dela antes de se casar? Ava Gina Topafundo. - e riam pra valer. 
- O Prefeito faz jus ao sobrenome que tem, Corno Manso e Pinto Tapado. Tudo o que ele é mesmo. 
- Essa mulher é muito safada, imagina se ela divorcia do Prefeito e casa com o Padeiro. Como seria o nome dela? Veio um Gaiato e disse: 
- Ava Gina Topafundo Armando Pinto...do padeiro. 
- Não entendi. Por que esse nome? 
- Porque o Padeiro chama-se Pacífico Armando Pinto. 
- Você não conhece a família Armando Pinto? 
- O Pacífico é irmão da Mijardina Armando Pinto? 
- É, e o pai deles era o falecido, Seu Broxado. 
- Acontece que Broxado era sobrenome dele. A esposa não quis colocar o sobrenome nos filhos porque iria pegar muito mal. O sobrenome ficaria, o mesmo do dela, que é Amélia Armando Pinto Broxado. 
O Prefeito Pinto Tapado era o único que não queria enxergar aquela situação, fechava-se muito no mundo da política. Ao contrário de Ava Gina que se abria para o padeiro. 
Até que um dia, Pinto Tapado, chegou em sua casa mais cedo com dois capangas. Deu um flagrante no casal de amantes fazendo amor em sua cama. Ele muito nervoso, disse: 
- Quem diria... Logo você, Pacifico Armando Pinto com minha esposa, Ava Gina. Filho do finado Broxado, meu amigo de infância. Nossas famílias eram muito unidas, que decepção... O que eu faço com vocês? Garanto, se teu pai vivo fosse, iria dizer: - Antonio Corno Manso Pinto Tapado, pega esses dois, Ava Gina Topafundo e Pacífico Armando Pinto e os coloque no pau de arara. 
- Por favor, seu Corno Manso, no pau de arara, não. – disse Armando Pinto. 
- Olha, eu nem sei o que é isso, mas dos males o menor, porque esse nome é bem convidativo. – falou baixinho Ava Gina. 
E assim, aquela pequena cidade perdeu sua primeira dama.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO