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sexta-feira, 7 de março de 2025

ARISTEU E SUA ALMA GÊMEA

Era uma sexta feira à noite, Aristeu estava em casa sozinho, sua esposa havia viajado. Encontrava-se chateado, porque não suporta fazer comida, mas adora comer. Já estava preparando um sanduíche, quando, a campainha tocou. Era Lombriga, seu amigo, cara de pau, que só aparecia quando Gertrudes não estava.
- Aristeu cadê a cerveja, vim tomar uma gelada com você.
- Não tem meu amigo, mas eu saio e compro.
- Já que você vai sair, eu vou também.
- Bem...eu não iria sair, mas você falou na cerveja...
Então o amigo deu a ideia de irem à Lapa tomar umas e outras.
Aristeu que também não dispensa uma, "loura gelada", prontamente aceitou. Pegaram seu carro e partiram.
- Se minha mulher descobrir que fui à Lapa, vai me matar.
- O que tem de mais tomarmos uma cerveja? Além disso, ela te deixou sem o jantar.
- É, mas se ela sabe que fui à Lapa com você vai ser pior ainda.
- Fica frio...não vai ter problema nenhum. A propósito, liguei para o Birigui...vamos pegá-lo.
- O Birigui vai? Não prestou...
- Não só ele, como o Fantão também.
- Estou ferrado!
Chegaram ao local destinado, estava tão cheio de gente, que resolveram ficar ao lado de fora de um bar, encostados numa bancada.
Tomaram cerveja sentindo o aroma da maconha, vendo alguns caras cheirando cocaína e outros caídos pelo chão. É um lugar aonde as pessoas vão se divertir sem limites e rola de tudo um pouco.
Aristeu levou um susto, quando olhou para o lado e viu dois homens se beijando. Ficou estático e todos olharam.
- O que é aquilo? Dois caras se beijando...
- E estão de mãos dadas. – disse Lombriga.
- Que pouca vergonha...eles merecem levar uma coça. – disse Fantão.
- Tu só pensas em bater, hein! – Birigui.
- Acho que estou ficando velho, porque ainda não me acostumei com essas modernidades. – Aristeu.
Continuaram a beber...Aristeu ainda pediu uma caipirinha.
- Vai ficar de pileque, hein!
Beberam muito...Aristeu, mais ainda, inclusive fez uma misturada danada de bebida e ficou de porre
Mais tarde, quando já estavam se preparando para irem embora, houve uma briga generalizada, o pau quebrou pra todos os lados.
- É melhor irmos embora logo, a chapa está esquentando, daqui a pouco vai chegar a polícia e pode sobrar pra a gente.
- Vamos, mas cadê o Aristeu? Sumiu nessa confusão. – Birigui.
- Será que ele foi pisoteado?
- A última vez que o vi, ele tinha ido ao banheiro.
Então começaram a procurar...rodaram tudo por ali e nada. A briga não parava e voava: cadeira; pau e pedra pra todos os lado.
Após, Lombriga levar uma garrafada; o Fantão levar um "tombo" no meio da rua e quase ser pisoteado e o Birigui levar um soco no olho, acharam Aristeu agarrado com uma mulher.
- Aquele cara não é ele?
- Onde?
- Aquele que está atrás da árvore com uma mulher.
- É ele...o safado se deu bem, não sei como conseguiu. Já estava falando enrolado de tão bêbado.
- A mulher pra ficar com ele nesse estado deve estar de porre também.
Foram resgatá-lo, porque estavam em um só carro e dependiam de sua carona pra voltar. Também o estado etílico de Aristeu não era dos melhores, ficaria muito perigoso deixar ele ir embora sozinho. Chegaram perto, quando levaram aquele susto.
- Nossa! O que é isso? – falou Lombriga apavorado.
- Cara, você está maluco? – disse Fantão.
- Aristeu a gente passando um sufoco danado. Estou aqui com o olho roxo, o Lombriga está com a cabeça quebrada e você aí...com essa Menina de tromba!? Nessa hora podíamos estar num hospital, sabia? – falou Birigui.
- Menina de tron...Tron... Menina de tromba? O que é isso!? Respeitem a moça. – falou Aristeu.
- Você esta de porre, seu Fanfarrão! – disse Fantão.
Naquele momento ficaram com medo de Fantão agredi-lo. Ele é muito estourado e violento. Então...decidiram arrastar Aristeu na marra, porque decididamente ele não queria ir embora.
- Você merece uma surra, seu depravado! Lombriga...pega a chave do carro, esse cara não vai mais dirigir, não. – falou Fantão.
Quando chegaram ao carro encontraram duas mulheres encostadas...também se beijando.
- Infelizmente vou atrapalhar vocês, terei de sair com o carro. – falou Lombriga.
- Elaaas te deeeram mooole, estão ri... ri...rindo pra você. Vaaamos arrastar essas du...duas também. – falou o Aristeu muito doido.
- Aristeu, o que você tem pra dar, elas não gostam. - disse Lombriga.
Logo após, ele começou a chorar.
- Vocês me puxaaaram e não de...de...deu nem tempo de pe...pegar o telefone daqueeela linda mulher. Logo ago...gora que encontreeei minha alma gêmea...
- Você está bêbado, seu tarado! Aquilo não era mulher, além do mais, você é casado com Gertrudes. Esqueceu?
- Gertruuudes! Quem é Gertruuudes?
Entraram no carro e as mulheres se afastaram, mas continuaram a se beijar e a se alisar.
- Vamos, tenho de ir. – disse Lombriga.
- Se você an...andar com esse carro eu te maaaato, eu quero ver aquela cena. – falou Aristeu.
- Pode andar com o carro, Lombriga. Você vai entrar na onda do Aristeu? Ele está muito bêbado. - falou Fantão.
- Estou tremendo até agora. Como vou explicar pra minha mulher, esse olho roxo. – dizia Birigui.
- Esquece isso...pior foi eu, que levei com aquela garrafa na cabeça. - falou Lombriga.
- E o tombo que levei? Aí...vamos dar uma coça no Aristeu aqui dentro. – falou Fantão brincando.
- Esse safado só fez besteira...desapareceu, depois beijou o travesti... – criticou Birigui.
- Mas eu po...posso dizer que arranjei uma Mina e vocês... não.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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SE MEU FUSCA FALASSE.


  


Quando comecei na praça, não tinha dinheiro para comprar um carro novo. O que eu tinha dava para comprar apenas a "autonomia ou a licença" para ser taxista... e um fusca bem velho. O carro era tão velho, mas tão velho, que só vivia enguiçado. Se meu fusca falasse, só teria histórias tristes para contar.

O carro tinha um buraco no assoalho que me causava muitos aborrecimentos. Certa vez, um passageiro enfiou o pé ali e, muito revoltado, saiu ameaçando me denunciar e não me pagou pela corrida. Fora as senhoras de sandálias, que cortaram os pés ao entrar.

- E se eu pegar um tétano? — perguntou uma delas, em tom de ameaça.
A culpa era delas, que arrastavam o tapete que eu coloquei para cobrir o buraco. Mas, continuando...

Quando eu passava a quarta marcha, tinha que ficar segurando o câmbio, senão ele escapulia. Para piorar, se pegasse um buraco ou passasse numa trepidação do asfalto, as portas se abriam. Eu não sabia se segurava o câmbio ou as portas — dependia da próxima curva. Às vezes, tinha que reduzir a marcha e segurar as portas, para evitar que elas se escancarassem.

- Carro de doido — disse um passageiro, rindo.

O automóvel era tão barulhento que parecia uma bateria de escola de samba. Quase todos os dias, eu tinha que sair de casa empurrado por causa de problemas no arranque ou na bateria fraca.

A maioria dos passageiros o rejeitava. Mulheres bonitas, nem pensar. Quanto aos que me restavam, a grande maioria era para subir os morros do Rio de Janeiro. Alguns porque saíam do mercado com sacolas de compras, outros porque eram viciados querendo comprar drogas. Eles normalmente não me diziam para onde queriam ir, mas sim o trajeto. Quando percebia, já estava subindo morro acima.

- Amigo, faz favor, dobra a segunda à esquerda e depois a primeira à direita. É uma pequena subida, não tem problema nenhum...

Era o que sobrou para mim, porque os taxistas com "carrões" não queriam levá-los.

Uma das poucas passageiras bonitas que peguei deu um grito tão forte e me disse que um rato havia passado em seus pés. Coitada, ficou desesperada. Chegando em casa, botei veneno para o rato, e o desgraçado foi morrer justamente numa parte do carro que ninguém conseguia alcançar. Só sentíamos o mau cheiro. Tive que ficar uns quinze dias sem trabalhar, porque fedia demais e todos os passageiros reclamavam.

Depois que o cheiro melhorou, voltei à labuta. Peguei outro passageiro, que estava sem camisa e com a cara muito estranha. Ele disse que precisava pegar a mãe no hospital. Claro, levei. Passageiro escasso é passageiro aproveitado.

Ele pediu para parar em frente a uma farmácia, esperando umas pessoas. Aguardei alguns minutos, quando, de repente, vieram dois caras correndo e pediram para eu sair dali. Saí cantando pneu. Um pouco mais à frente, numa rua cheia de quebra-molas, tive que diminuir a velocidade. O cara da frente se apavorou e puxou uma arma. Em resumo, eles haviam assaltado a farmácia e eu, sem querer, virei piloto de fuga. Pelo menos, pagaram a corrida e ainda disseram que eu fiz tudo direitinho, por isso merecia uma "merendinha". Não quiseram o troco! Do jeito que eu estava apavorado, nem queria aceitar o pagamento, mas eles "fizeram questão de pagar"... eram ladrões honestos!

Saí dali tremendo que nem vara verde, prometendo nunca mais andar com aquele maldito carro azarado. Mas estava duro que nem "coco" e sem saber o que fazer, porque a "lata velha" só me causava desgosto. Eu estava traumatizado, mas, sendo teimoso como era, voltei ao trabalho. Foi quando peguei uma família: dois homens, uma mulher e uma criança. Pela conversa deles, logo percebi que não eram boas pessoas. Eles estavam armados e só falavam sobre favela, drogas e armas.

Por sorte, parecia que tinham simpatizado comigo, porque começaram a brincar, dizendo que meu carro estava "caidinho" e que podia desmontar a qualquer momento. Riam à toa. No retrovisor, eu via a criança de joelhos, tentando arrancar o selo de vistoria do taxi, que estava no vidro traseiro. Eu, sem graça de chamar a atenção dela e com medo de algo dar errado, decidi dar um "sustinho" nela, apertando o freio. Ela caiu no chão do carro.

Levei uma bronca tremenda da mãe, que foi defendida por um dos homens, que mandou a mulher se calar. Quando estávamos chegando ao destino, no morro, os caras falavam com várias pessoas, pareciam ser conhecidos de todos na comunidade. Pareciam até candidatos a políticos.

Mais à frente, tomamos um baita susto. Apareceram bandidos apontando armas para a gente. Pois é... eles levaram uma bronca pior que a que eu havia levado. A mulher que me deu bronca era a "Primeira Dama do Morro". Um dos homens no carro era o "Dono do Morro", o chefe dos bandidos.

Eu, quieto, quase me borrando de medo, não falava nada. Chegamos ao pico do morro, e lá estava um monte de malandros armados, com armas cada vez maiores. Os homens me pagaram a corrida com uma boa gorjeta, mas ainda me colocaram uma condição: eu teria que tomar uma cerveja com eles. Eu, que já estava quase me cagando de medo, aceitei. Quem era eu naquele momento para dizer não?


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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PERDIDO EM SÃO PAULO


Gertrudes estava fazendo compras com sua prima pelas ruas de São Paulo, quando, de repente, o telefone tocou:

- Gertruuudes... onde você está?
- Estou na Avenida Paulista. E você, onde está?
- Acabei de sair do metrô. Como faço para chegar aí?
- Sei lá... fala com a Lindalva aqui, ela te explica.

Após meia hora de conversa ao celular, elas desligaram e voltaram às compras.

- Esse teu marido é enrolado, hein! Custa a entender as coisas.
- Você não conhece ele direito. O Aristeu é um caso sério, mas sabe o que mais me irrita nele? Ele é um comilão!
- Prima, ninguém está satisfeito com nada, né? Quem dera que meu marido comesse melhor, ele está tão magrinho.
- Pois é, mas o Aristeu... Sabe o que ele fez no outro dia?... Espera um minuto, o telefone está tocando novamente. Alô, fala Aristeu! O que foi agora?
- Gertrudes, eu estou perdido.
- Olha a placa da rua e vê o nome.
- Ihhh, vim parar na 25 de Março.
- Tu és muito enrolado! Fala com a prima aqui. Como é que ele foi parar na 25 de Março?

Ela explicou, explicou... e mais meia hora ao telefone se passou, porque Aristeu nunca entendia de primeira.

- Agora ele disse que entendeu. Mas, prima, o que você estava dizendo mesmo?
- Ah, eu ia contar o que ele fez noutro dia. Comeu todos os meus bombons e, com medo de eu brigar, colocou uma nota de vinte reais dentro da caixa de bombons, que ainda estava na geladeira, achando que isso ia amenizar minha bronca. Ele é demais!
- Não acredito, prima! E não teve um dia que ele comeu a sobremesa toda que você fez para a titia e depois ficou passando mal?
- Teve... Mas nesse dia, fiquei tão furiosa que coloquei laxante na bebida dele. Ele não almoçou nem com a mamãe porque não saía do banheiro. Mas ele não sabe disso, hein! Coitado, é tão desligado que nem imagina esse meu lado vingativo.
- Você teve coragem de fazer isso, prima?
- Às vezes ele me tira do sério. O telefone está tocando de novo... Alô!!

- Gertrudes, vim parar na estação do metrô de novo. Desisto, vou embora. Aproveito que estou aqui em frente, é só pegar o metrô de volta.

Isso, Aristeu, vai ver televisão na casa da Lindalva, só assim você não enche o saco e desligou.

Ihhhh... Lindalva acho melhor a gente também voltar para casa, porque, mais tarde, quando chegarmos não vai ter comida nenhuma na geladeira, o Glutão vai comer tudo.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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DESPEDIDA DE SOLTEIRO


Faltavam três dias para o casamento e Agripino já estava começando a ficar tenso. Ele, que sempre foi muito tímido, não conseguia parar de pensar no momento em que teria que entrar na igreja e encarar o padre, com toda aquela gente olhando. Conversou com seu amigo Adegesto Pataca sobre o quanto estava nervoso, e mal podia esperar para que aquele dia chegasse e terminasse logo.

Foi quando Adegesto teve a brilhante ideia de sair todas as noites para tomar umas e outras, até o dia do casamento. Ele sugeriu também fazer uma despedida de solteiro com os amigos mais chegados, para aliviar a pressão.

  • Claro! Um pouco de cerveja vai me ajudar a relaxar! – disse Agripino, aceitando a proposta sem pensar duas vezes.

E assim, Agripino começou a beber todos os dias. Afinal, ele estava prestes a se casar, e precisava se acalmar. Quando chegou a véspera do grande dia, Adegesto foi até a casa de Agripino para começar a despedida de solteiro. Juntaram-se aos amigos e partiram para os lugares mais badalados da cidade.

  • Onde vocês estão me levando? Não posso demorar, tenho que fazer um monte de coisas amanhã antes do casamento! – reclamou Agripino, mas sua preocupação logo foi esquecida quando o álcool começou a fazer efeito.

Primeiro, foram para um restaurante, depois para uma boate e, por fim, acabaram numa sáuna. Já tarde da noite, quando todos estavam se preparando para ir embora, Agripino, totalmente embriagado, disse que ficaria mais um pouco.

  • Vamos embora, Agripino, amanhã você tem que acordar cedo! – disse um dos amigos.
  • Daqui a pouco vou, mas olha aquele "avião" me dando mole, vou investir nela! – respondeu Agripino, visivelmente doidão.

Os amigos, preocupados, avisaram que naquele lugar, qualquer mulher daria em cima dele, desde que ele tivesse dinheiro para pagar, e decidiram partir. Mas Agripino, completamente fora de si, decidiu que ficaria e tentaria algo com a mulher que o atraiu.

  • Do jeito que ele está, amanhã não vai casar, não – comentou Adegesto para os amigos.

No dia do casamento, a preocupação começou a tomar conta. A noiva já havia chegado atrasada, o que é normal. O que não é normal é o noivo chegar com atraso, e foi o que aconteceu. Aí...o público começou a comentar.

  • Será que ele não vem? – perguntavam os convidados, uns aos outros.

Adegesto estava muito preocupado. Ele sabia que Agripino havia bebido demais e, a essa altura, se arrependeu de tê-lo deixado sozinho.

  • O cara bebeu muito! Não devia ter deixado ele sozinho naquele lugar... – lamentou Adegesto.
  • Será que ele deu em cima daquela mulher? – perguntou outro amigo.
  • Não acredito, ele é muito tímido para isso. – disse outro.

De repente, Agripino apareceu, dirigindo seu carro, todo amarrotado, andando de maneira estranha, como se estivesse com dificuldades até para caminhar. Ele encontrou os amigos e, com um tom de derrota, falou:

  • Vocês me colocaram numa furada...me deixaram sem dinheiro e acabei de sair da delegacia. Vocês são "mui" amigos.
Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 


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ATRAPALHADOS AO EXTREMO





Atrapalhados ao Extremo

Na vida do crime, havia dois bandidos de alta periculosidade, mas que, para a criançada daquela pequena cidade, eram mais do que uma piada. Os dois costumavam se esconder em uma manilha perto de um esgoto, onde dificilmente alguém se aproximama, pois o cheiro era insuportável.

Bodão, isso aqui hoje está um horror! Acho que vou vomitar — disse Pedrão, um dos bandidos.

— Vai vomitar logo agora que eu ia preparar o nosso lanchinho? — retrucou Bodão.

— Lanchinho? Que lanchinho? Não sei como você consegue comer com esse cheiro!

— Aquele embrulho que nós roubamos do garotinho saindo da padaria, deve ser mortadela. E tem também aquele pão que você surrupiou da garupa da bicicleta daquela menina — falou Bodão.

Bodão, sabe quanto tempo tem isso? Sete dias! Você esqueceu que só hoje conseguimos nos livrar daqueles garotos que nos trancaram no galinheiro da casa da mãe de um deles?

— É mesmo… Por isso você está passando mal. Está todo cagado! Quem mandou dormir embaixo do poleiro das galinhas? Nem galinha a gente consegue roubar mais, Pedrão!

— Raios de moleques! Eu vou enforcar um por um — disse Pedrão.

— Você não consegue matar nem uma barata. É todo atrapalhado!

— Olha como fala, hein! E você que é um tremendo de um azarado, tudo o que rouba dá errado.

— Cala essa boca e vamos comer. O pão está um pouquinho duro, mas dá para comer. Abre logo esse embrulho — falou Bodão.

Pedrão abriu o embrulho devagarzinho, parecia adivinhar que algo estava errado.

— Ah… Pelo amor de Deus! Agora vou vomitar — e jogou o pacote longe.

— O que foi, Pedrão, que catinga é essa?

— Seu desgraçado! Eu te falei, tudo o que você rouba dá errado. Aquilo era um rato podre!

Rato!? Aquela pestinha vai me pagar!

Bodão, estamos sem moral nesse bairro. Nem um pirulito a gente consegue roubar mais... Acho que vou me aposentar.

Na realidade, essa dupla era de alta periculosidade em relação a eles mesmos, tudo dava errado devido as suas extremas atrapalhadas, corriam risco a todo instante.

Pedrão, você está ficando amarelo... Ih, acho que ele desmaiou… Ou deve estar dormindo? Bem, de qualquer forma, vou deixar ele descansar, tem andado muito nervoso ultimamente. Vou aproveitar e fazer um ganho para podermos jantar hoje. Afinal, ninguém é de ferro, não é? Já tem tempo que não janto.

Bodão saiu da manilha e foi para a porta de um colégio próximo esperar uma vítima para dar o bote. Foi quando apareceu uma menina de aproximadamente quinze anos, andando em sua direção.

— Essa vai ser uma presa fácil... Vou pegar o celular e a mochila dela. Pode ser também que tenha algum dinheiro ou alguma merenda — pensou Bodão.

Bodão colocou as mãos para trás e disse para a menina que estava armado e mandou que o entregasse tudo. Porém, o que ele não sabia era que sua sorte estava prestes a mudar. Como seu amigo já tinha avisado, ele era um tremendo azarado.

Naquele momento, apareceu uma patrulha… mas não era qualquer patrulha! Era a patrulha dos garotos insanos do colégio, que já estavam à procura de Bodão. Armados com ovos, tomates podres e tintas velhas, deram-lhe um tremendo flagrante e o rodearam.

Coitado de Bodão!

Quando Pedrão acordou, sentiu falta de seu parceiro e, como estava com muita fome, saiu para "trabalhar". Avistou um garotinho sozinho com uma sacola na mão. Sem pensar muito, saiu correndo em sua direção, atravessou a rua… e foi atropelado.

Coitado do Pedrão!

Mais tarde, no hospital:

Oi, Pedrão... Você por aqui também?!

— É, amigo, pelo menos aqui temos o que comer, não é verdade?

— E o mais importante, aqui aqueles pestinhas não aparecem.

— A enfermeira já me deu até um banho, porque não consigo me mexer. Tudo dói...

— Só assim você toma banho... Mas já era hora, não é, amigo? Você estava muito fedorento!

O que eles não esperavam é que lá fora já tinha um grupo de garotos planejando como invadir o hospital e jogar pó de mico em suas camas.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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BEIJO DOCE E A TRAVESSURA DE BICHANO

Beijo Doce e a Travessura de Bichano

Era uma vez um beija-flor que morava em uma árvore de um sítio. Quando chegava o outono e o inverno, ele tinha muita dificuldade para sugar o néctar das flores, pois muitas murchavam e até morriam.

Lilica, a netinha dos donos do sítio, tinha um coração bondoso e percebeu a dificuldade daquele pequeno pássaro. Certo dia, foi até sua avó e disse:

— Vovó, estou com peninha daquele passarinho...

— Que passarinho, meu amor?

— Aquele que fica beijando as florezinhas.

— Ah, o beija-flor...

— Isso, isso, isso!

— Mas por que você está com peninha dele?

— Porque ele gosta de namorar as flores, fica beijando todas elas… Só que agora não vejo quase flores, e ele se cansa muito de procurar.

A avó sorriu e explicou:

— Estamos no outono, minha querida. É uma época em que muitas flores e folhas caem, mas, quando chegar a primavera, elas voltarão com mais força e beleza. Mas não se preocupe, vou comprar um bebedouro para ele. A gente coloca água com açúcar, e ele vai adorar.

— Oba! Obrigada, vovó!

E assim foi feito. Porém, a avó pendurou o bebedouro no telhado da varanda e se esqueceu de um pequeno detalhe: Bichano, o gatinho de estimação da família, adorava dormir lá em cima.

O beija-flor, que Lilica carinhosamente apelidara de Beijo Doce, passou a visitar o bebedouro várias vezes ao dia. Ele parecia estar agradecendo, tamanha era sua felicidade ao encontrar aquela água docinha.

Mas esse era o grande perigo.

Bichano, apesar de ser um gato dócil, começou a ficar cada vez mais interessado naquele passarinho, que voava de um lado para o outro bem na sua frente. No fundo, ele só queria brincar, mas... instinto de gato é instinto de gato.

Certo dia, depois de receber um carinho de Lilica, Bichano subiu no telhado e se escondeu atrás de umas folhas, esperando o momento certo para dar o bote. Ficou lá, quietinho, sem se mexer.

Não demorou muito e Beijo Doce apareceu para beber sua aguinha.

O gato, sem pensar duas vezes, saltou para pegá-lo!

Mas o beija-flor era ágil e, em um movimento rápido, desviou e escapou ileso.

Bichano, porém, esqueceu de um detalhe importante... estava no telhado!

Sem equilíbrio, perdeu o controle e caiu direto dentro do poço.

Lilica, que adorava observar o beija-flor, viu a cena e gritou:

— Vovó, corre! O Bichano caiu no poço!

A avó veio correndo e, sem perder tempo, amarrou uma corda em um balde e abaixou até onde o gatinho estava.

Bichano, todo molhado e arrepiado, se agarrou ao balde e foi puxado para cima.

Assim que saiu, sacudiu-se todo, espirrando água para todos os lados, enquanto Lilica ria aliviada.

— Viu, Bichano? Isso é o que acontece quando se tenta pegar um amigo!

Desde então, o gatinho nunca mais tentou capturar Beijo Doce, e os dois passaram a dividir a varanda em paz.

E Lilica, feliz, continuou cuidando do beija-flor, enquanto Bichano aprendeu a respeitar seu pequeno amigo de asas. Porém com um olhar sempre maldoso...

Fim.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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A PASSAGEIRA MISTERIOSA

A Passageira Misteriosa

Uma passageira entrou no meu táxi. Estava, digamos assim, "camuflada" com: óculos escuros, um chapéu igual ao da Carmen Miranda, um capote que mais parecia aquele do Dunga, ex-técnico da seleção Brasileira, e botas até o joelho. Muito estranha… mas também muito bonita.

Ela disse seu destino e começou a chorar. Sem saber o que fazer, e ao mesmo tempo, curioso, também fiquei sem saber se partia ou se perguntava o motivo do chororô. Decidi perguntar se ela estava passando mal.

— Não… — respondeu, enxugando as lágrimas. — Choro por outro motivo…

Não querendo falar mais nada, ficou em silêncio.

Meio persistente, arrisquei:

— Senhora, como dizia Roberto Carlos naquela música… “Taxista é um analista urbano”, pode confiar e desabafar.

Levei um baita fora. Não colou.

Chegando ao destino, ela pediu que eu aguardasse um pouco, pois iria pegar um amigo. Nesse momento, já havia parado de chorar e parecia muito tensa.

Esperei cerca de meia hora e perguntei se ele viria mesmo.

— Sim, ele já está chegando… — disse, fingindo falar ao celular.

Mas nada dele aparecer.

Quando se passou quase uma hora, avisei que teria um compromisso e não poderia esperar mais. Foi quando ela puxou uma nota de cem reais e colocou na minha mão.

— O compromisso nem é tão importante assim… Posso esperar o tempo que for necessário! — disse eu, sorrindo.

De repente, um carro de vidros escuros saiu do prédio em frente. Ela arregalou os olhos e pediu para eu segui-lo.

— É o seu amigo? — perguntei.

Muito nervosa, acabou confessando:

— Estou desconfiada do meu marido… Acho que ele está me traindo. E agora vi uma mulher dentro do carro com ele!

Estranhei, pois os vidros eram tão escuros que não dava para ver nada. Mas segui mesmo assim.

O sujeito dirigia rápido e estava difícil alcançá-lo. Até que o trânsito começou a ficar mais lento, e consegui colar nele. Mas, justo quando ia vê-lo melhor, um carro entrou na minha frente, me atrapalhando. Em seguida, o semáforo fechou.

A doida surtou.

— Seu morrinha! Seu roda presa! Tartaruga de táxi!

Começou a me xingar de tudo quanto era nome.

Fiquei revoltado.

— Olha, senhora, não vou mais seguir aquele carro.

Então, ela puxou mais uma nota de cem reais e enfiou no meu bolso.

Respirei fundo.

— Aquele outro carro me atrapalhou, mas pode deixar… A partir de agora, nem semáforo me segura!

Saí cantando pneu, tentando recuperar a distância. Quase atropelei um cachorro, raspei a roda no meio-fio e caí num bueiro. Mas finalmente consegui emparelhar com o carro do "marido infiel".

A mulher botou a cabeça para fora e começou a berrar:

— Para, seu safado! Hoje você vai apanhar, seu filho disso, filho daquilo, seu mariquinha!

Gritava tanto que até aprendi alguns palavrões novos.

E ainda me intimou:

— Dá uma fechada nele!

— A senhora tá doida? Isso é perigoso demais!

Então, abriu a bolsa e pegou duzentos reais.

Não pensei duas vezes.

Taquei o carro na frente do outro, e fomos parar em cima de um canteiro passando por cima do meio fio.

De repente, a porta do carro se abriu. Saiu um moreno forte pra cacete, mais forte que o Minotauro e o Anderson Silva juntos… e ainda com um porrete na mão!

Primeiro achei que fosse o motorista ou segurança. Mas, pela cara de pânico da mulher, percebi que a gente estava encrencado.

Ela ficou branca como vela e sussurrou:

— Aquele… não é meu marido.

Depois berrou desesperada:

— Sai fora daqui, pelamordedeus!

Nem esperei a gorjeta que ela sempre colava no meu bolso. Só acelerei e sumimos dali.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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LIVINHA E OS PEIXINHOS


Livinha e os Peixinhos

Livinha era uma menininha levada, faladeira e muito inteligente.

Certo dia, foi com sua mãe visitar a avó. Assim que chegaram, a menina avistou um aquário muito bonito e ficou encantada.

— Vovó, dessa eu bincá com os pessinhos? — perguntou, com os olhos vidrados nos peixinhos coloridos.

— Não pode, meu amor, senão eles morrem.

Livinha franziu a testa.

— Que é iiixo, vovó?

— Que isso, o quê, benzinho?

— Molem.

A avó sorriu, compreendendo a dúvida da neta.

— Ah… você quis dizer "morrem"! As pessoas e os animais, quando morrem, vão para o céu. Viram Anjinhos...

A menina arregalou os olhinhos.

— É… Vai nacher ajinha neles?

— Você quis dizer "vai nascer asinha neles", não é? É quase isso, minha netinha linda!

— Mamãe… eu tabém quelo ir pu xéu!

A mãe riu e a abraçou.

— Filhinha, tudo tem sua hora, meu amor.

Para distraí-la, pegou alguns brinquedos que trouxera e os deu para Livinha brincar, enquanto ia ajudar a terminar o almoço na cozinha. A menina se entretinha com os brinquedos, mas não tirava os olhos do aquário. Até que, brincando com massinha, sujou as mãos e quis lavá-las.

— Mamãe, quelo lavá a mãojinha.

— Filha, mamãe também está com as mãos sujas. Vai ali no tanque lavar as suas, tá bom?

A avó completou:

— Tem uma caixa de sabão em pó no banquinho, pode pegar.

Era tudo que Livinha queria! Independente como era, lavou as mãozinhas e, de repente, teve uma ideia.

— Cabei de lavá a mãojinha… agola vô, dei um banhinho na minha filhinha (a boneca). Há… vô dei tabém um banhinho nos pessinhos. — sussurrou animada.

Alguns minutos se passaram e a mãe estranhou o silêncio.

— Mãe, você não acha que tá um silêncio sepulcral? Vou ver o que essa menina está aprontando.

Chegando perto do aquário tomou aquele susto, tinha espuma para todos os lados, incluindo o carpete da sala e todos os seus brinquedos que estavam ao chão. Quanto ao peixinhos morreram afogados... só que na espuma. 


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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FLORISBELA E O PARAÍSO




Florisbela e o Paraíso

Florisbela era uma menina muito pobre. Estava sentada no chão de sua casa, desenhando, quando sua mãe a surpreendeu com um convite inesperado:

— Filha, vamos ao cinema?

Com os olhos cheios de lágrimas, a menina perguntou:

— Mas, mamãe… ontem a senhora disse que não tinha dinheiro nem para comprar comida. Como conseguiu o dinheiro para irmos ao cinema?

— Um amigo da mamãe nos deu duas entradas. Além de você ir ao cinema pela primeira vez, quero te mostrar uma coisa. Ele me disse que o filme se passa em um lugar muito bonito, chamado Paraíso. Quero que você conheça esse lugar, porque foi lá que eu estive.

— Foi lá que você se inspirou no meu nome, né? Mas como você foi ao Paraíso, se disse que estava dormindo?

A mãe sorriu com tristeza.

— Foi lá que tudo começou… Eu estava andando com o seu Pai em um lugar escuro quando dois homens maus apareceram. Eles estavam armados. Fizeram muito mal à mim, e a ele, quase me mataram… Fui parar no hospital.

— Mas, mamãe, você foi parar no hospital ou no Paraíso?

— Dizem que, quando morremos, vamos para o Paraíso. Eu cheguei a ir, mas os médicos conseguiram me trazer de volta. Depois, descobri que Deus também queria que eu voltasse… e me deu o presente mais lindo que eu poderia receber: você, Florisbela!

A menina hesitou e então perguntou:

— E o papai? Onde ele está?

A mãe abaixou os olhos, pensativa.

— O papai ficou lá… não pôde voltar. Depois do que aconteceu comigo, a polícia chegou atirando, e ele foi atingido. Chegamos juntos ao Paraíso, mas Jesus o levou para outro plano. Ele não pôde retornar.

Florisbela suspirou.

— Mamãe… eu queria conhecer esse Paraíso também. Talvez lá a gente não passasse tanta fome…

A mãe acariciou seus cabelos e disse com firmeza:

— Não é assim, filha… Esquece isso. Além do mais, você ainda é muito novinha.

Chegando ao cinema, entraram na fila para comprar os ingressos. Mas, de repente, um barulho interrompeu o momento. Um assalto. O segurança do local reagiu, e um disparo ecoou no ar. A bala perdida encontrou a cabeça da menina.

A mãe, desesperada, correu para fora do cinema… e, tomada pelo desespero, atirou-se na frente do primeiro carro que passava.

Florisbela, que nunca havia conhecido o cinema, conheceu o Paraíso. E sua mãe, ao tentar reencontrá-la, acabou seguindo outro caminho… nunca mais a vendo, pois cometeu suicídio.

Nesta vida, ou em outras, precisamos passar por certas provações para que nosso espírito evolua. Sejam boas ou ruins, são experiências necessárias. Mas nunca pelo caminho do suicídio, pois isso nos faz retroceder e sofrer ainda mais.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO* 



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O OTÁRIO DA HISTÓRIA


O Otário da História

— E aí, piloto! Arrumei meu primeiro trampo, hoje começo na labuta. Então, solicito a ajuda do “meretríssimo” taxista pra botar uma velô nesse carango aí, valeu? Tenho que chegar ao centro da cidade em dez minutos, tá ligado!?

O cara era todo metido a malandro, lembrava o "Agostinho", da Grande Família. Aparentava ter uns trinta anos e nunca tinha trabalhado??? Sim... porque ele mesmo disse que estava indo para seu primeiro emprego. Estranho, né?

Disse a ele que em dez minutos seria impossível, pois o trânsito estava intenso.

— Pô, piloto! Quero ver tua capacidade, bota uma velô... Ei, pera aí, pera aí, pera aí! Dá um break, mano… Vou ali naquela birosca comprar cigarro.

Mas, ao invés de comprar um maço, o sujeito pegou apenas um cigarro avulso. Assim que voltou ao carro, avisei que, desse jeito, ficaria difícil chegar no horário combinado. Mal terminei de falar, e lá veio ele de novo:

— Pára, pára, pára! Vamos dar um bonde pra aquele parceiro ali.

O tal parceiro nem quis papo. Acho que já conhecia a peça e sabia que, no fim das contas, sobraria pra ele pagar a corrida.

— Que babaca! Prefere ir a pé… Irmão, dá um tempo ali naquele "pé sujo", tenho que dar um recado para aquele otário ali.

O "otário" era o dono de outro bar.

Enquanto ele entrava, fiquei observando. O cara era muito abusado. Pelo jeito, estava pedindo dinheiro ao dono do bar. E, nisso, mais de meia hora já tinha se passado. Ainda queria que eu chegasse em dez minutos!

Quando voltou, reclamei que, desse jeito, não daria. Ele pedia para parar toda hora.

— Então o negócio é relaxar… Vou acender um cigarrinho — disse ele, tranquilão.

Tive que chamá-lo à atenção, pois o ar-condicionado estava ligado.

— Foi mal, coroa! Não precisa esculachar!

Eu já estava sacando a situação… O sujeito não conseguiu nenhum otário pra pagar a corrida, possivelmente tentou pedir dinheiro ao dono do último bar e também não teve sucesso. Agora estava inquieto, coçando-se, conferindo os bolsos, pigarreando.

Tive que perguntar:

— Tá com algum problema?

Ele respondeu, despreocupado:

— Até o momento, não.

Não entendi direito, mas segui dirigindo.

Depois de um tempão rodando, chegamos ao destino — com duas horas de atraso. Ele pediu que eu esperasse enquanto ia falar com um senhor sentado num banquinho.

Fiquei de olho. Vi os dois gesticulando, apontando os dedos um para o outro, e, de vez em quando, o sujeito apontava para o meu carro.

O tempo passou… e nada dele voltar.

Foi quando percebi, o cara tinha sumido!

Desci do carro e fui até o senhor para perguntar por ele. O velhinho, segurando um bloquinho, respondeu:

— Hoje seria o primeiro dia de trabalho daquele rapaz aqui, como ajudante. Mas o safado nem começou e já estava me pedindo adiantamento! Chegou com duas horas de atraso, filou cigarro, apontou para o seu carro e disse que o senhor pagaria o jogo do bicho que ele fez! Ainda veio falar um monte de gírias, sei lá… não entendi nada. Então, mandei-o embora.

Foi aí que entendi…

O otário era eu.


Fim


*ALEXANDRE M. BRITO*




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quarta-feira, 5 de março de 2025

O PINTOR DAS ESTRELAS


O Pintor das Estrelas

Havia uma pequena vila escondida entre montanhas, onde morava um velho pintor chamado Gaspar. Diziam que ele possuía um dom raro: suas pinturas ganhavam vida. Mas com o tempo, as pessoas da vila começaram a achar que eram apenas histórias, pois Gaspar não pintava mais para os outros, apenas para si mesmo.

Um dia, um menino chamado Elias bateu à porta do pintor.

— Senhor Gaspar, pode pintar algo para mim? Quero dar um presente para minha mãe, que está doente.

Gaspar sorriu e o convidou a entrar. Pegou uma tela em branco e perguntou:

— O que você gostaria que eu pintasse?

— Uma noite cheia de estrelas. Minha mãe diz que, quando olha para as estrelas, sente esperança.

O velho pintor começou a trabalhar. Seus pincéis se moviam como se dançassem, e Elias assistia maravilhado. Quando a pintura ficou pronta, Gaspar deu um último toque especial: soprou sobre a tela.

E então, diante dos olhos do menino, as estrelas brilharam de verdade.

Elias correu para casa e entregou o quadro à mãe. Naquela noite, mesmo doente, ela sorriu ao ver as pequenas luzes piscando na tela.

A notícia se espalhou, e os moradores perceberam que o dom de Gaspar nunca se foi. Ele apenas esperava alguém que realmente acreditasse na magia.

Desde então, o velho pintor passou a criar novas pinturas encantadas, sempre para aqueles que viam o mundo com o coração.

Moral da história: A magia nunca desaparece, ela só espera por alguém que acredite.


Fim

Autor Desconhecido 


*ALEXANDRE M. BRITO* 




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sábado, 25 de maio de 2024

AQUI SE FAZ, AQUI SE RECEBE

AQUI SE FAZ, AQUI SE RECEBE

Uma mulher muito rica furou o pneu do seu carro importado numa estradinha de barro de uma cidade do interior. Ela ficou sem saber o que fazer, porque a bateria do seu celular havia descarregado e, além disso, o chão estava muito enlameado.

Passava por ali um caipira muito pobre, montado em uma mula, que se propôs a ajudá-la. Aquele bondoso homem se abaixou e trocou o pneu para aquela elegante senhora, saindo, é claro, todo sujo de lama.

Ela, pensativa, achava que aquele sujeito pobre, que estava com roupas rasgadas, lhe cobraria uma fortuna, aproveitando-se da situação. Mas não tinha importância; afinal, ela tinha muito dinheiro e poderia pagar o que fosse cobrado. Naquele momento, ela só queria sair daquele lugar.

Ao término do serviço, ela perguntou-lhe o preço. Ele disse que não custaria nada, pois, a partir do momento em que ele oferecera um favor, não poderia cobrar. Disse também que havia sido um prazer ajudá-la e a aconselhou a sair logo dali, porque já ia escurecer e aquele lugar era perigoso.

A mulher saiu dali boquiaberta, afinal, hoje em dia, dificilmente acontece algo assim. As pessoas querem é passar por cima das outras e tirar proveito de tudo o que for possível.

Apesar de ter chovido, o dia estava quente, e ela parou mais adiante num boteco para se refrescar. Pediu uma água mineral, conversou bastante com a dona do estabelecimento e lhe contou o ocorrido. Ficou também bastante comovida com a história de vida daquela mulher, que estava grávida, com um filho doente e era muito pobre. Naquele lugar, tudo era muito difícil, inclusive a maternidade.

A dona do comércio pediu licença, porque seu filho deu um choramingo. Ele estava deitado em uma esteira no chão de um quartinho ao fundo.

Ao voltar, encontrou um embrulho de papel e, dentro dele, havia um bilhetinho com uma grande quantia de dinheiro. O bilhete dizia: "Passei a dar mais importância às pessoas fora do meu convívio. E descobri também que existem pessoas abençoadas por Deus, assim como a senhora. O que eu puder fazer, daqui por diante, por pessoas necessitadas, farei. O que aprendi hoje levou cinquenta anos para acontecer."

Seu marido chegou preocupado, porque a lavoura não estava boa e eles estavam precisando muito de dinheiro. Viu algumas pessoas saindo com bolsas de mantimentos. Olhou para o céu, rezou e falou para sua esposa:

Graças a Deus! Nossa venda aqui está melhorando... Não é, mulher?

Não, meu amor! Estou doando mantimentos para pessoas muito necessitadas.

O quê? Vamos ter de fechar o armazém... Porque não temos como pagar nossas dívidas, nosso filho está muito doente e o que vai nascer não tem enxoval. Seu berço será uma rede ou a própria esteira. Mas se você ajudou pessoas que estavam realmente precisando, eu não me importo.

Vou te explicar: Hoje conheci uma senhora. Ela conversou muito comigo, fez várias perguntas e, quando foi embora, deixou esse bilhete com essa quantia em dinheiro. Meu amor, com esse valor, dá para fazermos o parto e o enxoval do neném. E ainda sobra para comprarmos o remédio para nosso filho e pagarmos nossas dívidas. Estou muito feliz! Ah! Já ia esquecendo, ela disse que furou o pneu do carro a dois quilômetros daqui. Eu só não entendi uma coisa: ela fez muitas perguntas sobre você, como você era, onde trabalhava e até a cor da roupa que você estava usando hoje.

Aquele simples, porém "grande homem", ajoelhou-se ao chão, chorou e agradeceu mais uma vez a Deus por ter lhe dado tamanha "sabedoria que é a bondade".


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


segunda-feira, 18 de abril de 2022

QUEM TEM C...TEM MEDO

Quem Tem C... Tem Medo

Um sujeito bem-apessoado entrou no meu táxi. Usava óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro, além de camisa e calça social. Assim que sentou, pediu:

— Me leva até uma sáuna. 

Chegamos ao local, e ele disse para esperá-lo, que não demoraria.

Meia hora depois, voltou com um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se a festa tinha sido boa. Ele balançou a cabeça negativamente e respondeu:

— Não rolou nada com mulher.

— Ué! Então foi com homem? Isso é sáuna gay? — perguntei.

— Tá maluco? Eu gosto é de molhar o biscoito, não de queimar a rosca!

O cara era brincalhão, mas tinha umas piadas sem graça. Olhou para mim e perguntou:

— Você também gosta da fruta, ou é a própria fruta?

Respondi rápido:

— Gosto da fruta...

— Então vou te dar uma banana! — disse ele, rindo.

Fiquei meio sem graça, mas resolvi não dar trela. Depois, minha curiosidade falou mais alto, e perguntei:

— Não entendi... Você foi num lugar desses, demorou meia hora e não pegou nenhuma mulher?

— Mulheres eu tenho aos montes, é só estalar os dedos. Não preciso ir num lugar desses para isso.

O sujeito também era cheio de si...

— Bom, então é melhor mudar de assunto. Pra onde vamos agora? — perguntei.

— Toca pra Zona Sul.

Chegando ao destino, ele apontou para um bingo clandestino.

— Espera aí, vou ali rapidinho.

— Sabe que bingo é proibido, né? Esse aí é clandestino.

— Você parece meu pai, me dando conselho!

O tempo passou, ele não voltava, e eu acabei cochilando no carro. Foi quando levei um tapa na cabeça. Era o engraçadinho de volta.

— Você é abusado, hein! — reclamei.

Dessa vez, ele entrou calado. Como minha curiosidade era grande, perguntei:

— O que houve? Perdeu tudo no bingo?

— Toca pra frente, piloto! E para de fazer pergunta besta.

Voltamos para a Zona Norte. Ele pediu que eu parasse em frente a um prédio.

— Vai demorar? — perguntei.

— Acho que não, mas se eu demorar, o taxímetro não tá ligado? — respondeu com grosseria.

Fiquei preocupado. Se ele tivesse perdido todo o dinheiro no bingo, não teria como me pagar. E a corrida já estava cara, afinal, eu rodava com ele havia mais de quatro horas.

Passaram-se vinte minutos. De repente, ele veio correndo feito um louco.

— Anda, anda! Sai daqui agora!

— O que houve?

Antes que ele respondesse, um vaso pequeno de plantas voou da janela e acertou o capô do carro.

Saí cantando pneu, sem entender nada. Ainda nervoso, perguntei:

— Quem vai pagar esse prejuízo?

Ofegante, ele só dizia:

— Eu pago, eu pago...

Pegou o celular e tentou várias ligações, sem sucesso.

— Merda de celular! Quando mais se precisa, não funciona...

Ofereci o meu, mas ele recusou.

— Não precisa. Já estamos chegando.

Entramos num estacionamento. Ele saiu do carro e entrou num galpão. Como de costume, fiquei esperando. Logo, ouvi uns gritos e barulhos de discussão. Minutos depois, ele veio disparado de novo.

— Pelo amor de Deus, pisa fundo! Sai daqui agora!

Dessa vez, nem tive tempo de ficar curioso. O barulho de tiros me fez acelerar sem olhar pra trás.

— Isso foi tiro?! — perguntei, assustado.

— Você ainda acha??? Depois te explico!

— Parei contigo! Não vou mais a lugar nenhum! Faz favor de me pagar AGORA!

— Acelera isso aí! O cara tá vindo atrás da gente!

Corri que nem um louco, mas olhava pelo retrovisor e não via ninguém.

— Sabe o que eu acho? Você tá paranoico! Não tem carro nenhum atrás!

— Não para não! Se parar, ele me mata!

— Olha aqui, vou parar sim! Se vira e me paga logo essa corrida!

O falastrão devia estar com a cueca toda suja de medo... e também sem um centavo.

— Vamos voltar pra Zona Sul! Vou no meu banco sacar o dinheiro. Fica do lado daquele bingo...

— Cara, você é um 171! Você vai querer entrar naquele bingo de novo! Chega! Nós vamos é pra delegacia!

Depois do sufoco, resolvi ir pra casa. Só que, ao chegar, me deparei com a patroa toda arrumada, me esperando.

— Ué, vai sair? — perguntei.

— Seu cretino! Não vou mais sair coisa nenhuma! Você esqueceu que marcamos de ir fazer compras? Olha a hora que você chega!

— Amor, eu posso explicar...

— Explicar o quê?! Tá sempre dizendo que não tem dinheiro, mas anda comprando um monte de coisa pra você. Ou tá ganhando presentinho de outra mulher?

Pois é... levei uma bronca enorme. Antes tivesse ido para a delegacia com aquele sujeito! Pelo menos teria uma desculpa.

E o pior... depois de tudo, acabei pegando e usando alguns dos "pertences" do meu passageiro, já que ele não pagou a corrida: óculos escuros, relógio, pulseira e cordão de ouro.

Só que, no dia seguinte, descobri que era tudo falso.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


UM DIA PARA NÃO SER LEMBRADO. Comigo no taxi



Um Dia Para Não Ser Lembrado

Sabe aquele dia que você não deveria sair de casa porque tudo dá errado? Pois é, vou contar o que me aconteceu...

Saí com minha esposa para nosso trajeto de sempre: levá-la ao trabalho e depois seguir com o táxi. Mas, de repente, o pneu furou.

Parei num posto de combustível para trocá-lo. O calor estava infernal, suei tanto que meus óculos embaçaram. Tirei e coloquei em cima do carro.

Depois da troca, saímos apressados porque minha esposa já estava atrasada.

Ao chegar à firma dela. Foi aí que perguntei pelos meus óculos.

— Ué! Você não pegou? — perguntou ela.

— Claro que não! Pensei que você ia pegar.

— Como assim?! O óculos é seu, a responsabilidade é sua!

Ficamos naquele jogo de empurra, e ainda levei bronca. Mas eu estava decidido a voltar para procurá-lo.

Ela tentou me convencer do contrário:

— A essa altura, já passaram por cima com o carro.

Não sei como, mas mulher tem um sexto sentido...

Mesmo assim, fui. Perguntei ao frentista do posto, ele não viu nada. Vasculhei o chão, nada dos óculos.

Voltei para o carro e saí dirigindo devagar, olhos fixos no asfalto, com esperança de achá-los. Foi quando entrei numa rua à direita e...

"PIIIIIIIIIIIIIIIII!"

Olhei pelo retrovisor. Um guarda de trânsito gesticulava furiosamente.

Só então percebi que tinha entrado na contramão! Até o dia anterior, aquela rua não era contramão... mas agora era.

E para piorar, vinha um ônibus na minha direção!

Sem pensar duas vezes, entrei na primeira rua à direita para sair logo da infração.

Parei o carro e fui tentar conversar com o policial. De cara, levei um sermão. Expliquei tudo o que tinha acontecido. Claro, ele não acreditou.

Olhou para um camelô e riu:

— O que as pessoas não inventam para escapar de multa, hein?

— Mas, seu guarda, eu juro! Eu não sabia da mudança da rua... Será que não dá para quebrar o galho? Tô cheio de pontos na carteira, isso vai me prejudicar...

Ele foi direto:

— Não dá. E não foi uma multa só, foram duas.

— Duas?!

— Essa outra rua que você dobrou também é contramão. Mas... a gente pode conversar.

"Aí tem...", pensei.

Tava na cara que ele queria propina. Mas e se eu falasse em dinheiro e ele não fosse corrupto? Eu que ia preso, né?!

Não precisou de muito suspense. Ele foi direto ao ponto:

— Faz uma doação aí... duzentão.

Sou contra a corrupção, mas naquele momento, se não chegasse a um acordo, ia me ferrar por causa da pontuação. Tentei negociar:

— Seu guarda, duzentos é muito... ainda nem peguei passageiro! Só tenho trinta reais...

Ele riu.

— Tá maluco?! Eu ainda tenho que dividir com um batalhão inteiro!

Acabamos fechando em cem reais. Mas quando perguntei que garantia eu tinha de que as multas não chegariam, ele se ofendeu:

— Você está desconfiando de uma autoridade?!

— Claro que não, doutor! Jamais "desconfiaria" do senhor...

Tive que ir ao banco sacar o dinheiro. Minha conta já estava negativa, então entrei no cheque especial. O que eu poderia fazer? Não tinha outro jeito.

Quando voltei, o oficial apertou minha mão e disse:

— Pode contar comigo pra qualquer coisa! Estou sempre por aqui.

O que o dinheiro não faz, né? Agora eu era “amigo” do cara...

Depois disso, desisti do dia. Já estava desanimado e com medo de mais imprevistos.

Afinal, em poucas horas:

✔ Furei um pneu.
✔ Perdi os óculos.
✔ Avancei dois sinais.
✔ Entrei na contramão.
✔ Fui achacado por um guarda.
✔ E ainda saí devendo juros bancário.

Mas tudo bem... como dizem: dos males, o menor.

Pelo menos, meu "amigo" foi bonzinho. Imagina se, além das multas, ele ainda resolvesse me multar por estar dirigindo sem óculos.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 





sexta-feira, 15 de abril de 2022

COMER DEMAIS, DÁ NISSO...


Comer Demais Dá Nisso

Aristeu era um homem guloso. Não conseguia ficar longe da geladeira. A cada cinco minutos, lá estava ele, abrindo a porta, como se esperasse que algo novo surgisse ali.

O resultado? Estava sempre passando mal.

— Tô com uma azia danada, Gertrudes... Vai na farmácia comprar um antiácido. Tô cuspindo fogo que nem um dragão!

A esposa, já acostumada com os exageros dele, cruzou os braços:

— Você come muito, homem! Olha essa barriga... Parece um barril. Depois da feijoada do almoço, já beliscou um monte de coisas. Lanchar dez vezes num dia não é normal!

— Para de falar, mulher! Vai logo!

Antes de sair, Gertrudes avisou que ia demorar, pois passaria na padaria e faria umas compras.

— Então pega mais dinheiro e compra uns dez pãezinhos, trezentos gramas de mortadela e meia dúzia de latinhas de cerveja...

Ela suspirou, balançando a cabeça.

— Vai, esganado! O peixe morre pela boca.

Assim que a mulher saiu, Aristeu quase entrou dentro da geladeira. Comia tudo o que via pela frente, murmurando sozinho:

— Esse pudinzinho não tem problema, né? Tem leite, deve ser bom para o estômago...

— Hum... esse sorvetinho aqui também parece ótimo...

— E já que estou aqui... vou provar essa gelatina também.

Depois do banquete, caiu no chão da sala e dormiu como um anjo. Mas roncava como um porco.

Astolfo, o cachorro da casa, dormia ao lado do dono. Quando Gertrudes chegou, o bichinho fez aquela festa, mas logo voltou para junto do dorminhoco e começou a lamber o rosto dele, tentando acordá-lo.

— Para com isso, cachorro! — ralhou Gertrudes. — Pelo menos dormindo ele não come e não sente azia.

Passando cuidadosamente por cima do marido, foi até a geladeira pegar um copo d'água. Mas, ao abrir a porta, levou um susto.

Ai, pelamordedeus! O danado comeu toda a sobremesa! E eu ainda fui burra de comprar remédio pra ele!

O grito da esposa despertou o glutão.

— Hum... ai... além da azia, tô com uma dor de estômago horrível! Gertruuudes, eu vou morrer... Cadê o remédio?!

Escuta aqui, seu safado! Você comeu a sobremesa que eu fiz pro almoço de amanhã! Sendo assim... vai ficar sem remédio!

— Gertruuudes, eu tô morrendo! Me dá o remédio!

Mas Gertrudes estava uma fera. No dia seguinte, sua mãe viria almoçar, e agora teria que refazer a sobremesa do zero.

Foi até o mercado bufando.

— Seu Manuel, põe essa lista de compras na conta do Aristeu. Ele que pague!

O atendente franziu a testa.

— Ué, a senhora já não comprou tudo isso ontem?

Gertrudes arregalou os olhos.

Verdade! Ainda bem que o senhor me lembrou... Faltou o laxante! Vou passar na farmácia.

— Mas não foi isso que perguntei...

— Deixa pra lá, seu Manuel.

No dia seguinte...

Com a chegada da mãe de Gertrudes, foi aquela festa.

Minha filha! — A senhora agarrou e beijou a filha com carinho.

Astolfo sacudia o rabinho e pulava no colo da dona. Mas Aristeu... nada.

— Ué, tô sentindo falta de alguém... Cadê meu genrinho querido? Trouxe uma caixa de bombons pra ele!

Gertrudes sorriu de canto.

— Mamãe... seu genrinho hoje não acordou bem. Acho que bombom é a última coisa que ele vai querer.

O tempo passou. Conversaram, almoçaram... e Aristeu continuava sumido.

A sogra começou a se preocupar.

— Filha, tem algo errado... O Aristeu sem fome? Nem apareceu pra me dar um beijo? Será que ele está passando mal?

— Deixa ele, mamãe. Tá ótimo!

Foi quando um grito desesperado ecoou da casa.

GERTRUUUUDES, ACABOU O PAPEL!!!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

FESTA INESQUECÍVEL


Festa Inesquecível

Como sempre, Aristeu e Gertrudes chegaram à festa com duas horas de atraso.

— Pensei que vocês não vinham mais! — disse a anfitriã. — E você, amiga, que cara é essa?

— Nada não... Mulheres são todas iguais. — respondeu Aristeu, já de olho em um garçom.

Gertrudes bufou.

— Esse homem é muito enrolado... Avançou o sinal e foi parado pelo guarda.

A anfitriã sorriu e resolveu apresentar os convidados. Entre eles, um casal vizinho dela, acompanhado de duas filhas adolescentes muito bonitas. O marido parecia bem mais velho que a esposa, que, apesar da idade, era muito charmosa.

Os homens começaram a conversar e beber perto da churrasqueira enquanto as mulheres foram para dentro da casa.

Passado um tempo, Aristeu sentiu vontade de ir ao banheiro.

— Amigo, você que é vizinho, onde fica o banheiro?

— Eu te mostro, fica dentro da casa.

— Não precisa, só me diz onde é.

— Ah, vamos lá, eu te levo.

Dentro da casa, o vizinho apontou para uma porta no fim do corredor.

— É ali.

— Valeu.

Quando Aristeu ia fechar a porta, o cara entrou junto.

— Vou no box mesmo — disse ele, sorrindo de um jeito meio esquisito.

Aristeu achou estranho. Aquilo ali não era banheiro de rodoviária, e dois homens juntos num banheiro pequeno... Se alguém nos ver saindo daqui, vai pensar o quê?

Por sorte, ninguém viu. Voltaram para a churrasqueira, e o vizinho, já mais solto, começou a contar piadas sem graça. O problema era que, quanto mais bebia, mais as piadas ficavam pesadas. E mais ele alisava o braço de Aristeu e ficava olhando em direção a sua cintura.

O desconforto crescia. Aristeu até conferiu a braguilha. Vai que tá aberta... Mas não.

— Você é hilário. Em casa também é assim? — perguntou Aristeu, tentando desviar a conversa.

— Mais ou menos. Em casa sou mais fechado... tento manter o respeito.

O papo continuou, e nada de Gertrudes voltar. Aristeu começou a achar melhor ficar perto dela. Esse sujeito tá meio assanhado...

A cerveja bateu, e ele precisou ir ao banheiro de novo. Dessa vez, foi sozinho. Quando ia fechar a porta, sentiu um vulto atrás.

Era ele.

— Pô, cara! De novo? Dois homens num banheiro pequeno... isso pega mal!

O vizinho encostou na parede e sorriu.

— Você é um gato, sabia? Que peito cabeludo... adoro!

Aristeu gelou.

— Sai fora, cara! Tá maluco?!

— Tô maluco por você.

O desespero bateu. Aristeu tentou urinar rápido, mas não conseguiu se concentrar. A situação ficou pior quando o outro soltou:

— Bonito, hein... Deixa eu pegar?

Aristeu recolheu a “criança” na mesma hora, molhando a calça no processo.

— Olha aqui, se você me encostar, eu meto a mão na tua cara!

Apesar de tudo, ficou um pouco orgulhoso, afinal, nunca recebera esse tipo de elogio... Nem dá Gertrudes... Esse cara tá mentindo, não é possível!

Saiu apressado e, no caminho, tropeçou num degrau da varanda.

— M****!

Nessa hora, Gertrudes apareceu.

— O que houve? Tá nervoso? O que tava fazendo aí dentro?

Aristeu arregalou os olhos. Será que ela viu? Resolveu confessar logo:

— Aquele cara... quanto mais bebe, mais saidinho fica!

— Do que você tá falando?

— Quase fui agarrado! Esse sujeito é doido!

— Conversamos em casa. Mas agora não sai de perto de mim!

Ela obedeceu, porém Aristeu, ao invés de voltar lá para fora, grudou na mulherada.

A esposa do vizinho se aproximou.

— O que houve? Não vai mais fazer companhia pro meu marido? Ele adora falar de futebol!

— Ah... é que eu não gosto de futebol.

Gertrudes estranhou.

No carro, na volta, ela questionou:

— Desde quando você não gosta de futebol? O que aconteceu?

— Nada...

— Já sei! Vocês discutiram! Ele torce pra outro time, né?

Aristeu suspirou.

— Não discutimos nada. Nem sei pra que time ele torce. Só sei que... gosta de brincar com bolas.

Gertrudes não entendeu, mas preferiu não perguntar mais nada.

Aquela, com certeza, foi uma festa inesquecível.


Fim

*ALEXANDRE M. BRITO*



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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

PISCA-PISCA SEM VERGONHA







Pisca, Pisca Sem Vergonha

Numa cidadezinha do interior, dona Ambrosina Alcoviteira da Silva, uma fofoqueira de carteirinha, andava intrigada. Ela havia notado que, pelo menos uma vez por semana, ao anoitecer, as luzes do sobradinho em frente à sua casa piscavam sem parar.

Curiosa, chamou a vizinha:

Esmeraldina, você já reparou que as luzes do sobrado do seu Anacleto piscam toda semana?

Dona Esmeraldina Tarada Duarte, que não ficava atrás em matéria de fuçar a vida alheia, arregalou os olhos:

Ué, amiga, nunca notei... Quem é seu Anacleto?

Como assim, Esmeraldina?! Você sabe da vida de todo mundo e não conhece o seu Anacleto Caído Pinto?!

Ahhh, lembrei! É aquele velhinho de cavanhaque branco, barriguinha de chope e canelinhas finas... Ai, adoro! Sabe, noutro dia ele me deu carona.

Ambrosina estranhou:

Carona? Mas ele não tem carro!

Bicicleta, amiga! Peguei carona na garupa daquela linda bicicleta azul. Fiquei agarradinha... Ai, ai... Eu só o chamo de "meu Rasputim".

Ambrosina revirou os olhos.

Essa velha tá caduca...

E saiu, deixando Esmeraldina suspirando à toa.

Mais tarde, toda arrumada, de sainha curta e taça de vinho na mão, Esmeraldina foi até a janela. Assim que as luzes do sobrado piscaram, ela piscou as suas de volta e saiu apressada, levando a garrafa de vinho.

Só tinha um detalhe: a esposa de Anacleto não foi à igreja naquela noite. O sobrado piscava porque a fiação estava ruim, e os disjuntores desarmavam o tempo todo.

No meio desse pisca-pisca, Esmeraldina entrou na casa de fininho, certa de que a noite prometia...

Enquanto isso, na cozinha, no escuro e cercados por velas, Anacleto tentava consertar os disjuntores. Sua esposa farejou o ar e sussurrou:

Velho... Sinto um cheiro estranho. É um misto de flores de cemitério com vela derretida... Que coisa horrível! Tô com um mau pressentimento.

No exato momento em que Anacleto religou a luz, Esmeraldina invadiu a cozinha, só de calcinha, peito encostado no umbigo e garrafa de vinho na mão:

Cletinho, meu Rasputim! Vem que eu sou toda sua...

Anacleto, pálido. A esposa, arregalada. O silêncio pairou por meio segundo.

Depois... gritaria, pancadaria, garrafada, vela voando pra todo lado.

Na manhã seguinte, no hospital da cidade, as enfermeiras comentavam:

Você viu aquele casal de velhos que deu entrada ontem? A mulher, cabeça quebrada, toda suja de vinho e fedendo a perfume barato. O homem, cheio de escoriações... E ainda tava entalado com uma vela!

A outra enfermeira riu:

Vi! Mas sabe o que achei mais estranho? Os dois estão na mesma enfermaria... e ficam apertando os interruptores da cama um pro outro, piscando e rindo como dois malucos!


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 


domingo, 30 de maio de 2021

UM DOIDO EM MEU TAXI



Era mais um dia tranquilo de trabalho...estava eu trafegando com meu taxi numa via de mão única, me encontrava pelo lado esquerdo da pista, quando, um cidadão, também pela esquerda, fez sinal. Do lado direito da pista havia um ponto de ônibus. Quando parei, notei que houve um engano, ele olhava por cima do taxi em direção ao ônibus.
Engatei a primeira marcha para andar com o carro, foi quando, a porta traseira se abriu...o sujeito entrou e ficou calado. Cumprimentei-o, saí com taxi e nada de o cara falar, então tive de perguntar o seu destino. Ele falou pra eu "tocar" em frente.

Rodamos alguns quilômetros e o homem não falava nada. Eu já estava ficando meio tenso, achando que pudesse tratar-se de um assalto, quando resolvi perguntar, de novo, o seu destino. De repente o cara começou a gargalhar, e disse:

- Não sei...leve-me para sua casa...
- Não entendi, senhor. Como assim?
- Então... vamos passear. - falou ele, rindo sem parar.
- Passear!? O senhor tá me tirando?
Estava pensando, de duas, uma...ou o cara era louco, ou o cara era gay. Então ele respondeu:
- Eu não, acontece, que eu não fiz sinal e o senhor parou. - e ria pra valer.
- Tudo bem que parei, mas se foi um engano, o senhor também não devia ter entrado...
Eu já estava ficando invocado, parecia papo de bêbado, foi quando avistei uma viatura policial e parei perto. Então, falei:
- Olha aqui...não estou de brincadeira, irei chamar a polícia.
Ele melhorou rápido, parou de rir e parecia ter ficado nervoso...me disse o destino da corrida e também me pediu para andar rápido.
A essa altura, eu já estava muito nervoso, sem saber qual seria a intenção daquele sujeito.
Quando chegamos ao local, lembrei-me, que ali havia uma boca de fumo. Ele por sua vez, me pediu para entrar com o carro num beco. Parei o carro, e disse a ele, que ali eu não entraria. O cara ficou furioso...
Nesse negócio de entra e não entra...ele então me disse para esperá-lo, e foi andando em direção ao beco. Foi ai que vi como estava ventando lá fora...de tão doido, tombava para um lado, tombava para o outro...
O sujeito além de doido, era drogado, então achei melhor, sair fora daquele local. Arranquei com o carro, sai quase voando, mas levei prejuízo, porque não havia cobrado antecipadamente o dinheiro da corrida. Escutei uns gritos, olhei pelo retrovisor e ainda acenei para ele dando-lhe um até logo...O cara ficou lá gritando desesperadamente, eu não estava nem aí pra ele, só queria sair daquele lugar.
Passado alguns minutos, peguei outro passageiro, que achou uma carteira no banco de trás e me entregou, era a carteira daquele doido. Então, falei:
- Meu Deeeuus! Roubei o maluco sem querer...
O passageiro não entendeu nada. Fiquei sem saber como devolver a carteira do cara, só sabia que o dia que me encontrasse iria sair faísca ou talvez quisesse me matar.
Abri a carteira...quando foi meu espanto... o doido só tinha fotos de mulheres peladas, e guimbas de cigarros. E não tinha uma nota sequer, pra pagar a corrida. Dancei mais uma vez.


Fim

ALEXANDRE M. BRITO 




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM PALHAÇO NA CIDADE



Um Palhaço na Cidade

Aquele cara era "o tal". Era também o assunto do momento naquela cidade pacata. Uma cidadezinha simples, onde o povo não tinha muitas opções de entretenimento além de bares e biroscas. Não era um lugar turístico, e seus habitantes não estavam acostumados com gente que ostentasse riqueza.

Um circo havia chegado, e com ele, um sujeito muito elegante: joias, roupas e sapatos de marca. O comentário geral era que ele deveria ser o dono do circo. Como o barzinho do Seu Severino era o mais próximo, ele passou a frequentá-lo.

— Seu Severino, o senhor já comprou o uísque de marca que o moço do circo pediu? — perguntou Josenildo, ajudante do bar.

— Já comprei, sim. Mas deu um trabalho danado! Tive que ir até a cidade vizinha e, ainda assim, só encontrei o nacional.

— Ihhh, Seu Severino… O homem é chique demais, não vai gostar disso.

— Deixa comigo… Cadê aquela garrafa velha com o rótulo rasgado de uísque importado que o falecido Rufino esqueceu aqui?

— Seu Severino, o senhor é demais! Dizem que quanto mais velho, melhor o uísque… Se a garrafa é velha e o rótulo está rasgado, ele vai achar que é um uísque raríssimo.

— Pois é. Agora enche logo essa garrafa de uísque nacional antes que ele apareça.

Nesse momento, o homem entrou no bar.

— Boa tarde, doutor! Seu Severino já está pegando o seu uísque! — disse Josenildo, disfarçando.

— Ótimo, vou tomar só uma dose e depois almoçar. Qual o cardápio de hoje?

— Olha, moço, aqui não temos cardápio, não. É PF mesmo. Tem ensopado de carne com batatas ou frango com quiabo.

— O senhor não tem um peixe, tipo… salmão com alcaparras?

— Eu nem sei o que é isso, meu bom senhor… Mas posso anotar e Seu Severino providenciará.

— Está bem, me sirva qualquer coisa então. Pode ser o ensopado. Ah, por favor, avise ao dono que hoje não deu pra eu ir ao banco. Amanhã eu acerto a conta, ok?

— Não se preocupe, doutor! Seu Severino nem esquenta com isso.

O homem aproveitou-se da gentileza e tomou umas dez cervejas, além da garrafa inteira daquele "uísque" falso. Saiu cambaleando, mais bêbado que peru de Natal.

No dia seguinte, Josenildo perguntou de novo:

— Seu Severino, o senhor já comprou aquele negócio lá… o peixe com "alcatar"?

— Seu burro! É salmão com alcaparras! E vê se não promete mais nada para ninguém! Esse sujeito só pede coisa cara e difícil de achar, e até agora não pagou nada!

— Mas o senhor comprou?

— Claro que não! Comprei cação e três pés de alface.

— Foi isso que ele pediu?

— Não, mas a gente dá um jeito. Ele paga o preço do salmão e come cação.

Minutos depois, o homem voltou ao bar.

— Boa tarde!

— Boa tarde, moço! Seu Severino já está aprontando seu cação com alface...

— Cação? Eu pedi salmão com alcaparras!

— Desculpe, moço, falei errado. O peixe ele até achou, mas o outro negócio, as... as alcapar... Ele não achou.

— Quer dizer que vou comer salmão com alface? Tá bom, então me traga uma dose daquele uísque.

— Então... O senhor tomou a garrafa toda ontem...

— Serve uma cachaçinha?

— Cachaça?! Você está louco? Eu sou homem de tomar cachaça?! Por que não compraram meu uísque?! Me traz uma cerveja mesmo.

— É pra já, doutor!

— Ah, e amanhã eu quero caviar.

— Nossa! Essa comida eu já ouvi falar, mas nunca vi, não, senhor…

— Vá pegar logo minha comida!

Mais tarde, Josenildo avisou ao patrão:

— Seu Severino, o moço do circo disse que amanhã quer comer caviar.

— O quê?! Eu te disse pra não prometer mais nada! Agora vou ter que ir até o Mercado do outro lado do rio! Vamos fechar mais cedo.

— Oba! Vamos sair mais cedo!? Acho que vou ao circo.

— Vamos sair mais cedo, sim, mas vou descontar do seu salário.

No dia seguinte, a esposa doente de Seu Severino ajudava na cozinha, pois ele ainda não havia voltado da longa jornada atrás do caviar. Então, o sujeito apareceu.

— Boa tarde! Seu Severino saiu para procurar seu pedido e ainda não voltou… O senhor quer esperar ou prefere um prato feito com macarrão, arroz, feijão e salada de alface?

— O quê?! Como vou esperar? Você já viu a hora?! Traga-me uma dose de uísque.

— Não tem, não senhor. Seu Severino não comprou… E acho que eu esqueci de lembrá-lo.

— Esqueceu?! Você é muito enrolado! Não volto mais aqui! A partir de hoje, só vou no concorrente. Adeus!

E saiu batendo o pé.

Minutos depois, Seu Severino chegou esbaforido, molhado, mas sorrindo.

— Achei! Achei o caviar! Vou direto pra cozinha preparar!

— Seu Severino…

— Agora não posso! Vou cozinhar o caviar e cobrar o triplo do preço!

— Seu Severino, acho que não precisa ter pressa, não…

— Ué, por quê? Ele vai chegar mais tarde?

— Não… Ele não vai chegar. Foi pro concorrente.

— O quê?! Mas ele pediu o caviar!

— Pois é… Mas o senhor demorou. E sem uísque, ele resolveu ir embora.

— Droga! Bom, pelo menos ele pagou a conta, né?

— Então… Eu esqueci de cobrar.

— O QUÊ?! SOME DAQUI! Vai atrás desse cara! E só volta com o dinheiro da conta!

Passaram-se alguns dias, e Seu Severino recebeu uma carta de Josenildo. Ela dizia:

"Seu Severino, como o senhor disse pra eu só voltar com o dinheiro da conta, ainda não consegui recuperar. Então, preferi escrever esta carta."

"Descobri que o sujeito não é dono do circo… É um mero PALHAÇO. Ele até me deu um relógio de ouro pela dívida, mas, quando vendi pro ourives, ele desfez o negócio e disse que era falso! Como eu disse que o relógio era seu, ele falou que vai chamar a polícia. CUIDADO!"

"E tem mais… Tudo o que o palhaço ostentava era falso. Agora ele está comendo no concorrente e, ironicamente, pagando tudo em dinheiro. O mais engraçado? Ele não pede nada caro. Come o que tem na casa."

"A propósito, estou trabalhando aqui no concorrente… Um forte abraço, Seu Severino."

FIM.


*ALEXANDRE M. BRITO*




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domingo, 24 de novembro de 2013

DONA ELIETE E OS ANIMAIS


- Gosto mais de animal do que de gente! - Assim dizia Dona Eliete, muito enojada da vida e do Ser Humano.

Era uma senhora com a idade bastante avançada que havia passado por determinadas situações e decidido deixar os prazeres da vida para se dedicar com afinco aos animais, inclusive largado ao corpo docente onde ficara anos a lecionar. Aceitava todo e qualquer tipo de animal, mesmo estando saudável ou doente. Podiam estar machucados ou atropelados e mesmo estando entre a vida e a morte ela chamava os amigos veterinários que muito a ajudavam. Ela os chamavam de Almas Caridosas!
Seu amor e carinho pelos animais era tamanho, assim como, a revolta que tinha com pessoas sem escrúpulos e que maltratavam os peludos. Por isso todos que iam em sua casa escutavam aquela frase acima.
Antes de aceitar um animal saudável ela fazia um tremendo "questionário", um monte de perguntas para seus donos do tipo: - Por que motivo os faziam querer desfazer-se dos bichinhos?
E muitas das vezes a vi dando bronca em quem simplesmente “queria se desfazer do animal” sem nenhuma justificativa.
- Vocês adquirem animais só por vaidades, não é? Isso aqui que você está me trazendo, não é brinquedinho, não, que quando fica velho ou quebrado pode ser jogado fora. O animal também tem sentimentos onde seu amor maior será sempre pelo dono. Pode ser rico ou pobre que ele estará sempre ao seu lado e mesmo que passe fome ele não te abandonará. Coisa que você não está fazendo nesse momento.
Ela tinha um estremo mau humor em relação as pessoas. Acho que para ela todos desconhecidos eram iguais. Mas com os bichos, não, era bem diferente. Eles o tiravam tudo que fosse possível, inclusive sua vida social, uma vida normal de um simples ser humano. Seu salário de aposentada era pequeno, muita das vezes, todos passavam por necessidades, onde a maior prejudicada era ela mesma. Deixava até de comprar coisas de uso pessoal, assim como: roupas, sapatos, bolsas, etc. Quase não ia a médico e nem se tratava porque os animais estavam sempre em primeiro lugar.
Haviam algumas empresas ou pessoas que a ajudavam, com: jornais velhos; restos de comida; remédios e às vezes dinheiro. Como na época ainda não existia ou era muito caro comprar ração, eu mesmo, a mando de minha mãe levava todo final de semana cabeça, pescoço e pé de galinha que o dono do aviário lá de perto da minha casa guardava aos dias úteis. Mesmo assim, às vezes não era o suficiente, tamanha quantidade de animais.
Dona Eliete andava com roupas rasgadas, não usava mais perfume, muito menos ia ao salão. Muitas das vezes eu via piolho descendo em sua testa ou até mesmo carrapato em seu vestido. E também já estava aparecendo feridas em sua pele. Parecia estar se igualando a eles, em sua: simplicidade; aparência; no olhar e na pureza de um animal. Assim como os animais, quando aparecia um estranho, ela se retraia e ficava muito desconfiada. Mas se a pessoa trouxesse algum tipo de ajuda, ou mesmo, uma palavra de amizade e carinho, Dona Eliete, fazia aquela festa e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Muitos domingos a vi na feira, “na hora da xepa” catando restos de comidas e pedindo ajuda aos feirantes. Pessoas que não a conheciam a chamavam de Louca ou Mendiga sem saber a imensidão daquele coração; daquela dedicação; daquele amor e o quanto foi importante seu trabalho em relação aos animais. Aquela mulher foi única, nunca vi e nem conheci ninguém igual...
Depois casei e fui morar num bairro distante e perdi o contato. Mais tarde, fiquei sabendo que construíram um prédio ao lado de sua casa e que os moradores reclamavam muito do barulho e do cheiro dos animais. Entraram na justiça contra ela pedindo o afastamento dos animais daquele local. Também soube que ela morrera, não fiquei sabendo o motivo. Deve ter sido de desgosto porque além de ter abdicado sua vida como um ser humano normal e ter vivido como um animal, ela era feliz pelo que fazia e por estar ao lado deles.
Algo de bom ficou em mim, aprendi que a maior riqueza não está a vista dos nossos olhos, não precisamos ostentar valores materiais e que nossa maior herança está dentro de nós.
Agora quando passo em frente a sua casa sinto uma nostalgia e uma tristeza muito grande pela sua ausência, pelo que aprendi e pelos animais que também ajudei a resgatar. Quantos aos animais não sei onde foram parar... No "prédio maldito" ninguém soube ou não quiseram me falar. Devem ter ido parar na SUIPA...


Obs: Esse caso se passou na Zona Norte do Rio de Janeiro, mais precisamente no Bairro do Engenho de Dentro onde Dona Eliete morava.

Fim

ALEXANDRE M. BRITO