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terça-feira, 19 de novembro de 2013
CONFUSÃO NO ALTAR
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
O ENTERRO DO SEU MANOEL DA BIROSCA
O enterro do seu Manoel da Birosca iria ser na parte da tarde, mas o povo desde cedo encontrava-se em seu velório. Dona Maria Bigorna, sua esposa, era adepta de um bom prato e não ficava sem uma birita. Logo que seu marido faleceu ela encomendou bastantes bebidas e salgados, e malandramente, divulgou para seus fregueses. Os “amigos” e frequentadores da birosca do senhor Manoel, sabendo disso, lotaram o velório daquele bondoso senhor. Estavam muito empolgados, afinal, nunca tinham visto um enterro tão festivo e regado a comes e bebes. Porém estavam “preocupados” pela demora da, senhora Bigorna. Então, seu Alair do Pé Inchado, comentou com seus amigos:
- Cadê dona Bigorna que não aparece, hein? Tô cheio de sede e ela está demorando muito...Onde será que ela se enfiou?
- Do jeito que ela bebe, esse velório vai ser uma festa. – Falou Biricutico empolgado.
- É, amigos eu já fui lá no bar tomar uma e fiquei duro, tive de pagar a vista. Que falta o seu Manoel faz, não é mesmo pessoal? Com ele a gente pendurava. – Disse seu José Du Calote.
Na realidade ninguém pagava nada ao seu Manoel, o enrolavam sempre. Dona Bigorna sabia e se estressava muito com eles por causa daquilo. Depois que a metade da clientela encontrava-se de porre e a outra ainda estava nos bares dos arredores, chegou Dona Maria Bigorna, chorosa, mas com os salgados e as bebidas que prometera... Estava acompanhada dos seus cinco filhos: Pedrão do Bope; Paulão Senta a Pua; Marcão Tijolada; Ricardão Capoeira e Serginho Mengão, da “torcida raça rubro negra”. De repente o velório lotou, parecia que tinham vindo pelo cheiro dos salgados e das bebidas... Conversa vai, conversa vem, João Deprê ao ver os filhos do seu Manoel, comentou com os amigos:
- Eu estou com um mau pressentimento, não devia ter voltado lá do bar.
- Está maluco? Você iria perder esse tremendo velório? Relaxa e toma mais um copo, pelo menos aqui é de graça... E a nossa dívida com Seu Manoel também acabou, ele morreu... Vamos comemorar, minha gente! – disse Enfadonho Talagada.
- Fala baixo... Nós não estamos comemorando nada. Você já está bêbado? Viu o tamanho dos filhos dele? – falou Deprê.
- Vi, sim, e daí? Vai dizer que também não posso dizer que sou Vascaíno? Vascooo, Vascooo, Vascooo... – respondeu Talagada.
Todos rapidamente saíram de perto de Talagada, porque sabiam da fama dos filhos Flamenguistas do Seu Manoel.
Mais tarde, após estarem todos de barriga cheia e de ter rolado muita bagunça, inclusive, quase derrubaram o caixão, os filhos de Dona Maria Bigorna amontoaram-se na porta e não deixaram que mais ninguém saísse. Seu João Deprê ainda tentou escapar e disse que queria ir ao banheiro, mas Ricardão Capoeira não deixou... Alegou que a oração já iria começar e queria que todos ficassem, porque sua mãe faria uma homenagem a seu pai. Então, Anastácio Dupó Traçado da silva, perguntou ao Deprê:
- O que houve, você está com cara de preocupado?
- Ai, meu Deus do céu... Vai acontecer alguma coisa de ruim e eu estou apertado para ir ao banheiro. Eu devia tão pouco ao Seu Manoel... Só uns mil reais.
- Por que você está falando isso? A dívida agora acabou... Olha, parece que Dona Bigorna vai começar com a homenagem.
Dona Maria Bigorna, após pedir a palavra, pegou na bolsa um caderno com uma lista imensa de fiados e declamou:
- Tenho a certeza de que o meu Marido faleceu por causa disso aqui...
Seu José Du Calote jogou-se pela janela que era no quinto andar, caiu em cima do roseiral... Se furou e se quebrou todo, mas conseguiu escapar. Todos juntos começaram a rezar, uns até a chorar, mas ela firme continuou:
- Manoel se vivo fosse iria gostar de ver o que vai acontecer agora...
Seu Deprê teve um ataque de histeria, mas ela não ligou.
- Nesse caderno consta o nome de pessoas que diziam ser nossos amigos, principalmente do Manoel...
Enfadonho Talagada, Biricuticu e mais umas dez pessoas tiveram um mal súbito. Anastácio Dupó que encontrava-se ao fundo, mesmo sendo procurado da justiça, preferiu pegar o celular e ligar para polícia. Falando baixinho, disse que iria se entregar, mas que viessem logo.
E Dona Maria continuou:
- Pessoas que só vieram aqui, por interesse na bebida e na comida, onde, não vi uma lágrima se quer...
- Olha meus olhos, Dona Bigorna, vermelhos de tanto chorar. Por sinal, esse enterro sai ou não sai? – perguntou seu Ataláio Jurubêbo
- Seus olhos estão vermelhos por causa da cachaça, seu Ataláio. O Senhor está chorando agora, não sei porque motivo...
Nesse chove e não molha, nessa lengalenga, Dupó, olhou pela janela e gritou:
- A Polícia vem aí!!!
Os filhos de Dona Maria sumiram, foi um corre-corre generalizado, gente rolando pela escada, gente se escondendo atrás do caixão e o Anastácio Dupó indo em cana.
Mas tarde, após o enterro, um coveiro comentou com o outro:
- Eu nunca vi um enterro tão vazio, só tinha a viúva. Esse cara devia ser muito ruim.
- Eu não entendi, o velório estava cheio de gente, mas ninguém quis assistir ao enterro. A viúva ficava o tempo todo falando ao Marido que fez as suas vontades... Deu uma festa em seu velório, não brigaria mais com seus amigos e nem iria mais cobrá-los as dívidas. Ela também falou que não entendeu o motivo do tumulto, porque só queria dizer-lhes umas verdades. E que não sabe porque os filhos também sumiram.
A FARMÁCIA/BOTECO DO SEU JOAQUIM
A Farmácia-Boteco do Seu Joaquim
O boteco do Seu Joaquim era um verdadeiro "centro de soluções". Tinha de tudo, desde farinha até melado. Mas o forte mesmo era a "farmácia" de bebidas.
— Seu Joaquim, estou com uma diarreia que está um horror!
— Tome uma genebra, meu bom senhor.
— Seu Joaquim, por favor, tem aquele remédio pra resfriado?
— É comigo mesmo! Vou fazer um coquetel e logo você estará curado.
— Seu Joaquim, eu queria aquele remedinho pra dor de cabeça...
— Amigo, não enlouqueça! Agora tenho um à base de ervas... O nome é "paratudo". É só acrescentar uma cachacinha que sua cabecinha nunca mais vai doer.
No balcão do Seu Joaquim, cada problema tinha uma solução "medicinal":
Licor de menta para rouquidão.
Licor de mel para expectorar.
Jurubeba para o fígado.
E um cardápio inteiro de milagres alcoólicos.
Até que, certa noite, um freguês entrou aflito.
— Seu Joaquim, preciso falar com o senhor a sós!
— Pois não, amigo. Está com algum problema?
— Sim... Eu... Pifei.
— Pifou? Como assim? Desmaiou? Ah, mas eu tenho um remé...
— NÃO! Não é isso! Pifei... na cama, com minha amada.
— Ahhh! Mas por que não disse logo, homem?! Tome uma catuaba!
A fama dos "remédios" do Seu Joaquim crescia tanto que sua esposa, Dona Carmelita, já estava preocupada.
— Joaquim, já falei pra você parar com isso! Um dia, vai ter problema. Você não é médico!
— Problema? Que nada, mulher! Eu só dou a eles o que mais querem: bebida!
Nesse instante, um freguês interrompeu.
— Desculpe atrapalhar o papo, mas estou enjoado e com uma ressaca sem fim. Acho que vou tomar uma água tônica...
— Água tônica?! Tá maluco?! Não sabe que pra curar ressaca tem que tomar outra pra rebater? Vou abrir uma cervejinha pro senhor!
Mas, um dia, a "farmácia-boteco" do Seu Joaquim não abriu. Os fregueses, sem opção, foram ao bar do concorrente.
— O boteco do Seu Joaquim não abriu hoje... O que será que aconteceu?
— Ouvi dizer que ele passou mal e foi ao médico.
— Logo hoje que minha pressão caiu! Precisava tanto de um remedinho daqueles...
O dono do outro bar aproveitou pra alfinetar.
— Vocês não enxergam que esse cara é um charlatão? Se ele passou mal, por que não tomou dos próprios remédios?
— Verdade! Outro dia ele me receitou catuaba, dizendo que minha esposa ia ficar encantada... Me deu foi uma dor de barriga danada!
— Ah, ele me paga!
Na manhã seguinte, antes de Seu Joaquim abrir o boteco, os fregueses já estavam todos esperando na porta. Dona Carmelita espiou pelo basculante e estranhou.
— Joaquim, tô achando esquisito... Tem um bando de gente esperando. Nunca aconteceu isso.
— Mulher, esqueceu que não abrimos ontem? Estão todos sedentos!
Quando abriu a porta, os fregueses entraram em silêncio, encarando Seu Joaquim.
— Seu Joaquim, por que não abriu ontem?
— Passei mal, homem!
— E por que não tomou um dos seus remédios?
— Ué, já falei, passei mal!
— Mas o senhor sempre diz que suas bebidas curam tudo…
— Eu... é... Bom...eu não bebo.
— O senhor não bebe, né?
O silêncio tomou conta do boteco. Um dos fregueses estalou os dedos.
— Pessoal... Vamos dar um jeito nisso!
Antes que Seu Joaquim pudesse reagir, enfiaram-lhe pela goela todos os tipos de "remédios" que ele vendia. Licor de menta, jurubeba, catuaba... Tudo misturado!
Uma semana depois, o bar do concorrente estava lotado. Curioso, o dono perguntou a um freguês:
— Depois daquele dia, o Seu Joaquim nunca mais abriu o boteco. O que vocês fizeram com ele?
O homem deu de ombros.
— Ah, ele deve estar até hoje de ressaca.
— Mas ele não bebe!
— Pois é... Agora, nem remédio líquido ele aceita. Dizem que vomitou quando Dona Carmelita tentou dar um xarope pra tosse.
O dono do bar riu.
— Bem feito! Agora sim ele sabe o efeito dos próprios "remédios"!
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
UM TAXISTA SENSÍVEL
Um Taxista Sensível
Na cidade de Cacha Pregos, havia um taxista que era um verdadeiro doce de pessoa. As mulheres adoravam andar em seu táxi e o idolatravam. Seu nome? Jacinto Leite Aquino Rêgo.
— Gostei de andar no seu táxi! Você pode sempre "me pegar, Aquino Rêgo". Pode ser todos os dias, nesse mesmo horário? — disse uma passageira, em tom de brincadeira, logo após se encantar com ele.
— Olha... Não gosto muito dessas brincadeiras. Mas, se quiser, te pego em casa todos os dias, combinado?
— Que brincadeira? Só porque chamei você pelo sobrenome e disse para me pegar? Quando eu digo "vem me pegar, Aquino Rêgo", é pra você vir me buscar com o táxi, ué...
Já os homens não gostavam tanto dele assim. Quando viam aquele carro cor-de-rosa com o bigorrilho aceso, disfarçavam, não faziam sinal e nem ligavam pedindo corrida.
Apesar disso, Jacinto Leite Aquino Rêgo não se incomodava. Na verdade, gostava mesmo era de fazer com eles o que seu próprio nome sugeria.
Mas quem realmente lhe dava lucro era a mulherada.
— "Jacinto Leite, gostosinho!" — brincava uma passageira.
— Não fala isso, você sabe que não gosto! Minha praia é outra...
— Quanto tempo que você não me "pega, Aquino Rêgo". Estava com saudades! — dizia outra, rindo.
— Para com isso, querida! Não gosto dessas brincadeiras...
As mulheres sabiam de sua preferência, mas adoravam tirar sarro. Até que um dia, um turista desavisado fez sinal para o seu táxi.
— Poxa... Quanto tempo não pego um bofe. Vou parar!
O homem entrou e cumprimentou:
— Boa noite!
— Boa noite, amor! Jacinto Leite Aquino Rêgo ao seu dispor.
— Como é? Não entendi!
— Falei meu nome todo porque gostei de você,
— Gostou de mim? E que história é essa de "leite aqui no rego? Não sou disso, não.
— o passageiro já estava confuso.
— Olha, meu amor, eu falei meu nome, porém tô achando que você gostou e quer fazer outra coisa comigo! E eu aceito, viu? Faça o que quiser de mim! Vem cá, meu gostosão... Me dá um beijo, meu "gatão"...
— O quê?! Você tá preso!
— Isso, meu amor! Me prende, me leva pra sua casa, me amarra na sua cama e me dá uns tapinhas! Adoro isso...
O que Jacinto não sabia era que o "turista desavisado", na verdade, era o novo delegado da cidade.
O taxista sumiu por alguns dias, deixando suas passageiras na mão. Quando reapareceu, estava com o nariz quebrado e um olho roxo.
— O que foi isso, Jacintinho? Foi aquela brincadeira do tapinha que você tanto gosta de fazer com seus namorados? — perguntou uma passageira, preocupada.
— Mulher... Nem te conto! Quando levei o primeiro safanão, até gostei. Pensei que ele também gostasse de levar uns tapinhas. Então, enchi a mão e dei um tapa no bumbum dele... Mas depois...
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
AMÂNCIO E A PACIÊNCIA QUE SE ESGOTOU
Amâncio e a Paciência que se Esgotou
Amâncio era um cara muito na dele, sem maldade ou inimizades. Um sujeito bacana.
Certo dia, andando pela rua, um homem esbarrou nele, derrubando sua pasta. Os documentos voaram para todos os lados. O mais incrível era que, mesmo numa situação dessas, Amâncio ainda se desculpava, achando que a culpa era dele.
Seus amigos o faziam de gato e sapato. Pediam dinheiro emprestado e nunca pagavam. Pegavam seu carro e demoravam para devolver—isso quando não o devolviam amassado. Até com sua esposa mexiam. Amâncio, sempre generoso, adorava fazer favores sem esperar nada em troca. E quando falavam sobre sua mulher, ele simplesmente dizia:
— Eu não me incomodo quando a elogiam e dizem que ela é bonita ou gostosa. Pior seria se dissessem que ela é feia.
Mas havia um boato maldoso: diziam que Amâncio apanhava da esposa. Era um homem forte, com corpo atlético, mas aparecia vez ou outra com algumas lesões. Alegava que eram do futebol, mas ninguém acreditava. Riam dele, provocavam:
— O Amâncio apanha da mulher... Quem apanha de mulher é mariquinha!
Ele não gostava de ouvir isso, mas mantinha a classe e fingia não escutar. Era forte, mas também tinha um autocontrole invejável. Não se deixava levar por provocações.
Amava sua esposa e era um marido atencioso. Tudo que ela pedia, ele fazia. Era o companheiro ideal.
Pena que, por ser tão bom, muitos abusavam da sua boa vontade.
— Estou cansado dessa vida de ser bonzinho. Todo mundo passa a perna em mim — desabafou Amâncio com um amigo.
— Meu camarada, você precisa parar de ser fornecedor e virar consumidor — disse o amigo.
— Como assim?
— Quero dizer que você só fornece. Seus amigos te exploram... E até sua mulher você está fornecendo, Amâncio.
— O quê?! Que história é essa? Você está maluco? — respondeu ele, indignado.
— Se liga, meu amigo... Vai consumir outras mulheres por aí também — provocou Clarisbadeu.
Amâncio voltou para casa desapontado. Nunca havia considerado essa possibilidade. Mas agora não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça.
Passou a observar melhor sua esposa, acompanhando seus passos. E então descobriu a verdade.
Estava sendo traído. E com um de seus próprios amigos. O Ricardão. O mesmo que mais o ridicularizava, espalhando para todos que ele apanhava da mulher.
— Agora faz sentido... Ela deve comentar com ele sobre as brigas, e esse safado espalha para todo mundo.
Mas Amâncio manteve sua calma habitual. Esperou o momento certo.
No clube, encontrou a roda de amigos, e Ricardão estava no meio. Como de costume, o traidor foi o primeiro a zombar:
— Olha aí quem chegou! O maricão que apanha da mulher!
Todos riram.
Amâncio engoliu em seco e, com sua tranquilidade característica, disse:
— Preciso confessar uma coisa para vocês... De vez em quando, ela me dá uns catiripapos, sim.
A gargalhada foi geral. Alguns chegaram a cair no chão de tanto rir. Ricardão, triunfante, repetia:
— Eu não falei? Eu não falei?!
Amâncio se aproximou dele, falando cada vez mais baixo:
— E não é só isso... Eu fui muito judiado e traído.
As risadas continuavam.
— Ricardão, cuidado, ele vai te beijar! — alguém gritou.
Mas Amâncio ainda não tinha terminado:
— Como eu estava dizendo... Ela me trai com um de vocês. E ainda me bate muito. Mas se eu tivesse feito com ela o que vou fazer com vocês, ela não estaria mais nesse mundo.
O silêncio foi instantâneo. Todos se entreolharam. O clima ficou pesado.
Até que Ricardão, pálido, soltou um grito:
— Sujou! Aiiii... Socorro!
Foi tarde demais. Amâncio descontou tudo ali, na frente de todos. Ricardão levou uma surra tão grande que foi parar no hospital.
Curiosamente, seus amigos ainda não foram visitá-lo. Estão todos... desaparecidos.

